NOTÍCIA
Por que reduzir as emissões de gases que aquecem o planeta deixou de ser assunto de especialistas e chegou à sala de aula?
Por Isvilaine da Silva Conceição*| “Você já calculou sua pegada de carbono?” A pergunta aparece em campanhas, aplicativos e rótulos de produtos, sempre com a mesma sugestão: cada pessoa tem uma conta de gases de efeito estufa a acertar, e cabe a ela reduzi-la.
A ideia tem apelo e um quê de justiça. Mas será que a soma de escolhas individuais dá conta do tamanho do problema? Essa é uma pergunta disparadora que pode promover debates na sala de aula porque é simples de propor, difícil de fechar e cheia de desdobramentos. Antes de levá-la ao quadro, porém, é fundamental entender o que é essa pegada e de onde vem todo esse carbono.
A pegada de carbono é uma forma de medir quanto gás carbônico (CO₂) e outros gases que aquecem o planeta uma pessoa, empresa ou país lança na atmosfera em decorrência de suas atividades. Quanto maior a pegada, mais aquecimento ela contribui para causar. A metáfora é visual: assim como pisadas marcam o chão, nossas escolhas de consumo, transporte e energia deixam uma “marca” no clima.
O carbono é tão antigo quanto a Terra e está em toda parte: nas rochas, no ar, nas plantas e em nós. Durante milhões de anos, restos de organismos foram soterrados e transformados em petróleo, gás natural e carvão mineral, que são os combustíveis fósseis. Ao queimá-los para gerar energia, mover veículos e abastecer indústrias, a humanidade devolve à atmosfera, em poucas décadas, um carbono que levou eras para ficar estocado. Esse excesso de CO₂ retém calor e desequilibra a temperatura da Terra. Essa é a raiz da crise climática.
Descarbonizar significa reduzir essas emissões até equilibrá-las com o que florestas, solos e oceanos conseguem reabsorver. É o chamado net zero, ou emissão líquida zero, meta que o Acordo de Paris pediu em 2015 a todos os países para o meado deste século. O tema ganhou urgência por um motivo simples: mesmo com o avanço das energias renováveis, os combustíveis fósseis ainda respondem por cerca de 80% da matriz energética global, segundo a Agência Internacional de Energia.
Em 2025, o Brasil sediou, em Belém, a COP30, a conferência do clima da ONU, o que colocou o país ainda mais no centro dessa conversa. Convém somar a isso tudo o que já se sente na pele por aqui: secas, enchentes e calor fora de época cada vez mais frequentes tornaram a crise climática menos abstrata para os estudantes do que era para seus pais e avós.
Voltemos então à pergunta inicial. Reduzir a pegada pessoal, consumir com consciência, evitar desperdício e usar transporte coletivo têm valor: educam o olhar e pressionam mercados. Os números, entretanto, mostram claramente onde está o peso.
No Brasil, o retrato inverte-se em relação à média mundial: mais de 70% das emissões vêm de mudanças no uso da terra e da agropecuária, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões do Observatório do Clima (SEEG). Decisões dessa escala não são resolvidas apenas no carrinho de supermercado. Dependem de política pública, de regras e fiscalização para o setor produtivo e do modo como o país gera energia e ocupa seu solo. Reconhecer isso não diminui a ação de cada um, mas a recoloca no seu devido lugar: parte de um esforço coletivo, e não de um fardo solitário.
E aqui mora a parte instigante para a escola. O climatologista Carlos Nobre, uma das maiores autoridades no assunto, lembra que o Brasil reúne condições raras para liderar essa virada. Em entrevista à Agência Brasil, ele afirmou que o país tem “total potencial para ter 100% de energia limpa e renovável” e que, com agricultura mais neutra em carbono e grande restauração florestal, poderia remover até 600 milhões de toneladas de CO₂ por ano a partir de 2040. Descarbonização, vista assim, não é só renúncia, é oportunidade de desenvolvimento.
Diante disso, como levar esse debate para os adolescentes do Ensino Médio? Os Itinerários Formativos dessa etapa de ensino oferecem quatro portas de entrada, que são os eixos estruturantes. Na Investigação Científica, a turma pode medir o consumo de energia e a geração de resíduos da própria escola, mapear fontes locais de emissão e analisar dados públicos como os Sistema de Estimativa de Emissões de Gases do efeito estufa (SEEG).

O quadro é sério, mas as saídas existem e estão em movimento, da energia solar nos telhados à restauração de biomas (Foto: Suhtterstock)
Nos Processos Criativos, estudantes podem prototipar soluções de baixo carbono, de hortas e composteiras a campanhas de comunicação que traduzam a ciência para a comunidade.
Na Mediação e Intervenção Sociocultural, o tema rende rodas de conversa e projetos que ajudam a transformar a angústia diante do problema em diálogo e ação, com olhar para quem sente primeiro os eventos extremos, levando propostas a bairros, conselhos e poder público. No Empreendedorismo, vale discutir a bioeconomia e o valor da floresta em pé, imaginando negócios que gerem renda sem derrubar árvores.
Falar de carbono não precisa terminar em medo. O quadro é sério, mas as saídas existem e estão em movimento, da energia solar nos telhados à restauração de biomas. A sala de aula é um bom lugar para mostrar aos jovens que o futuro do clima ainda está em aberto e que há muitos caminhos, individuais e coletivos, para incidir sobre ele.
Cada turma pode escolher por onde começar, conforme o território e os interesses dos estudantes, e nenhuma dessas escolhas é pequena demais para importar. Mais do que calcular suas pegadas, vale ajudar cada estudante a descobrir onde a sua pode deixar marca.
ANGELO, Claudio; PACHECO, Priscila; SALIM, Leila; VARGAS, Rodrigo. Eunice: um guia ilustrado sobre a crise climática. Piracicaba: Laboratório do Observatório do Clima (LABOC), 2025. Versão on-line: eunice.oc.eco.br. Acesso em: 11 jun 2026.
AGÊNCIA BRASIL. “Brasil pode zerar emissões até 2040, diz Carlos Nobre”. 7 maio 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 11 jun 2026.
OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Disponível em: seeg.eco.br. Acesso em: 11 jun 2026.

(Foto: Arquivo pessoal)
*Isvilaine da Silva Conceição é engenheira ambiental e líder de Engajamento e Mobilização do Observatório do Clima, principal rede da sociedade civil brasileira com atuação na agenda climática, que visa a construir um país descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável.