COLUNA

Coluna

Publicado em 17/06/2026

Arquitetura biofílica para escolas: qual o papel da natureza para o bem-estar estudantil?

Ambientes de aprendizagem que incorporam luz natural, ventilação, vegetação e materiais naturais, como pedras, água ou madeira, favorecem concentração, conforto e bem-estar

Por Ana Vitória Tereza de Magalhães* | Desenhe uma escola. Sim, pegue um papel e desenhe uma escola. Se preferir, apenas imagine uma escola. Aquele desenho conhecido, que todos já vimos algum dia, permeia o nosso arquétipo do que deve ser uma instituição de ensino. Um quadrado com triângulo no topo, telhadinhos tradicionais e um relógio que marca a “hora do recreio”, bem no alto do triângulo. Essa é a imagem típica de escola presente no imaginário popular. Os mais criativos talvez acrescentem uma árvore ao lado, do lado de fora dessa escola. Isso mesmo: fora.

A maioria de nós ainda pensa na escola dessa forma. Um lugar onde a natureza não se integra, não participa do espaço, permanece sempre externa. Às vezes, nem árvore existe. O ensino acontece dentro de salas fechadas, com janelas gradeadas, cortinas, ar-condicionado constante e luz artificial acesa mesmo durante o dia.

 

Escolas

A maioria de nós ainda pensa na escola dessa forma. Um lugar onde a natureza não se integra, não participa do espaço, permanece sempre externa (Foto: Shutterstock)

 

Esse é o modelo de escola que muitos de nós conhecemos e que hoje começa a ser questionado pela Arquitetura Biofílica, uma abordagem da arquitetura que propõe justamente o oposto: integrar os espaços construídos à natureza.

Por muito tempo, a escola foi entendida como um lugar onde o conhecimento acontece do lado de dentro. Um sistema organizado por salas com janelas pequenas, corredores funcionais e projetos desenhados para controlar os comportamentos das crianças.

Mas raramente paramos para refletir que os espaços onde aprendemos não são neutros. Eles comunicam valores, prioridades e influenciam a forma como estudantes, professores, gestores e formuladores de políticas se relacionam com o conhecimento e com a sabedoria. 

 

Leia: Ecoansiedade em adolescentes: como transformar o medo climático em ação pedagógica

 

É nesse ponto que a arquitetura biofílica ganha relevância. Mais do que a simples inserção de plantas ou elementos decorativos naturais, ela propõe uma mudança: repensar a relação entre o ambiente construído e os sistemas naturais. Sua premissa é simples, seres humanos aprendem e vivem melhor quando mantêm uma conexão contínua com a natureza. E isso é verdade nas cidades, nas casas, e também nas escolas. 

Assim como uma caminhada na praia após um dia intenso reorganiza pensamentos, ambientes de aprendizagem que incorporam luz natural, ventilação, vegetação e materiais naturais, como pedras, água ou madeira, também favorecem concentração, conforto e bem-estar.

E os resultados são consistentes. Pesquisas indicam que ambientes escolares conectados à natureza contribuem para maior concentração, redução do estresse, melhora da memória, fortalecimento do bem-estar e até relações sociais mais saudáveis entre alunos, professores e toda a comunidade escolar. Muitas vezes, pequenas intervenções já produzem grandes efeitos. Um exemplo muito prático é plantar uma árvore frutífera no pátio. Esta pequena ação pode significar entender os ciclos da chuva, a sazonalidade das frutas, os insetos, a polinização, como nascem os pássaros, a função das flores e como se germina um fruto. Abre espaço para biologia, geografia. Mas também abre espaço para discussões amplas como cidadania, inspiração e arte. Tudo pelo prisma de um objeto: uma árvore que se situa na escola. 

No entanto, essa discussão não precisa se limitar ao verde. Ela se amplia quando conectamos a arquitetura biofílica ao azul e a temas como a Cultura Oceânica. Se a biofilia nos lembra da nossa necessidade de natureza em sentido amplo, a Cultura Oceânica aprofunda essa relação ao evidenciar a centralidade dos oceanos e dos sistemas aquáticos na sustentação da vida no planeta.

 

Leia: A escola como infraestrutura social da adaptação climática

 

Essa abordagem integrada permite que a arquitetura escolar vá além da experiência sensorial e passe a estimular reflexões mais amplas e interconectadas, como alimentação, saneamento, infraestrutura e clima, revelando como esses sistemas dependem, direta ou indiretamente, da água e de seus ciclos.

Em termos sensoriais e pedagógicos, isso também significa criar ambientes que aproximem estudantes da presença da água em suas múltiplas dimensões: seu som, seu movimento, suas variações e seu significado simbólico e cultural. Essa experiência contribui inclusive para estados de atenção e calma associados ao conceito de “blue mind”, ou mente azul, que é descrito na ciência como estado de calma, paz e foco levemente meditativo, alcançado quando estamos perto, dentro, sobre ou debaixo d’água. 

A arquitetura da escola pode ir ainda além: desenvolver sistemas de captação e reuso da água da chuva, jardins de drenagem, tetos verdes, aquários pedagógicos e até piscinas para ensino de esportes aquáticos,transformando a escola em um espaço vivo onde o conhecimento flui com o ambiente.

 

Escolas

Alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal participam de atividades de educação ambiental na Escola da Natureza (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Ainda assim, discutir arquitetura biofílica exige olhar para um contexto mais amplo, que envolve políticas públicas, investimento e planejamento. Muitas vezes, transformações são vistas como caras ou complexas. No entanto, essa percepção pode limitar a inovação de baixo custo como o plantio de árvores ao redor da escola. 

O essencial é reconhecer que a arquitetura escolar não é apenas uma questão estética ou que o “gosto não se discute”, mas sim a elevar para a importância de um projeto pedagógico. Isso também exige aproximar os campos da construção civil e da educação. A escola não pode ser reduzida a um edifício que cumpre normas de segurança e metragem, que usa os materiais mais baratos do mercado, mas deve ser entendida como um espaço vivo de relações e da formação humana.

 

Leia: Por que a merenda escolar pode ensinar mais sobre o oceano do que uma aula de geografia?

 

Em um cenário de mudanças climáticas e de crescente distanciamento das pessoas em relação à natureza, terrestre e aquática, as escolas podem assumir um papel ainda mais importante: tornar-se espaços de reconexão cotidiana com os sistemas vivos.

Talvez uma das imagens mais simbólicas dessa relação entre humanidade, arquitetura e natureza venha de uma narrativa antiga e ainda atual: os Jardins da Babilônia, que inspiraram até música de Rita Lee. Mais do que uma possível maravilha arquitetônica, eles permanecem como símbolo de uma ambição humana recorrente: criar espaços onde a natureza não estivesse fora da construção, mas integrada a ela, tornando-se experiência tanto do interior quanto do exterior.

Essa ideia atravessa séculos e chega ao debate contemporâneo sobre escolas. A arquitetura biofílica resgata justamente essa busca: não transformar a natureza em decoração, mas reconhecer que ela é parte essencial dos ambientes onde vivemos, trabalhamos e aprendemos.

Convido o leitor a, da próxima vez que for indagado a desenhar uma escola, deixá-la atravessada por vida, árvores, plantas, luz e água, de dentro para fora.

 

Ana Vitória Magalhães*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul. Especialista em cultura oceânica, currículo e carreiras para Economia Azul

 

 

 

Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica

 

Ouça nosso podcast

 

 


Leia mais

Escolas

Arquitetura biofílica para escolas: qual o papel da natureza para o...

+ Mais Informações
Headache,,Tired,And,Stress,Teacher,In,School,With,Fast,Children

Cultura da inovação e cansaço docente: como cuidar de quem transforma a...

+ Mais Informações
Portrait,Of,Young,Boy,Using,Laptop,In,School,Library,With

Educação em tempos de IA: como formar humanos em um mundo hiperconectado

+ Mais Informações
pexels-rdne-8363758 (1)

A educação na primeira infância e o microcosmo de cada território

+ Mais Informações

Mapa do Site