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Especialistas alertam para a possibilidade de intensificação dos eventos extremos e o Brasil segue sem uma estratégia nacional robusta para preparar suas escolas para essa nova realidade
Por Carolina Fernandes, especialista em relações institucionais do Instituto Unibanco | Em meio às discussões sobre enchentes, secas, ondas de calor e eventos climáticos extremos, existe uma instituição estratégica que continua ocupando pouco espaço no debate público: a escola.
Talvez porque ainda enxerguemos a educação apenas como um lugar de aprendizagem. Mas a verdade é que a escola é muito mais do que isso. A escola organiza a rotina das famílias. Organiza o funcionamento dos bairros, o transporte público, o acesso à alimentação de milhões de crianças. Organiza também redes de proteção social e de convivência comunitária.
Quando uma escola fecha por causa de uma enchente ou de uma onda de calor extrema, não é apenas o calendário escolar que sofre impacto. Uma parte importante da vida daquela comunidade deixa de funcionar. Por isso, falar de adaptação climática sem falar de educação é ignorar uma das principais infraestruturas sociais do país.
A tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 deveria ter provocado uma mobilização nacional em torno dessa agenda. Afinal, vimos escolas transformadas em abrigos, estudantes afastados das aulas por meses, professores lidando simultaneamente com perdas pessoais e desafios profissionais, além de redes inteiras tentando reconstruir sua capacidade de funcionamento. Mas, passados dois anos, ainda avançamos pouco.

Quando uma escola pública localizada em um território vulnerável fecha suas portas, os efeitos costumam ser muito mais profundos e duradouros (Foto: Shutterstock)
Enquanto especialistas alertam para a possibilidade de um novo ciclo do El Niño e para a intensificação dos eventos extremos, o Brasil segue sem uma estratégia nacional robusta para preparar suas escolas para essa nova realidade.
E somado a isso, sabemos que os impactos das mudanças climáticas não são distribuídos de forma igual. As populações mais vulneráveis são as mais expostas aos riscos e as que possuem menos recursos para se recuperar. O mesmo acontece na educação.
Leia: Ecoansiedade em adolescentes: como transformar o medo climático em ação pedagógica
Quando uma escola privada interrompe suas atividades, frequentemente existem mecanismos de compensação. Quando uma escola pública localizada em um território vulnerável fecha suas portas, os efeitos costumam ser muito mais profundos e duradouros.
A crise climática não cria desigualdades. Ela amplia desigualdades já existentes. Por isso, preparar as escolas para enfrentar eventos extremos não é apenas uma questão de infraestrutura. É uma política de equidade.
Estamos falando de drenagem adequada, climatização, conectividade, protocolos de emergência e planos de continuidade pedagógica. Mas também estamos falando de formação de gestores, acolhimento socioemocional, produção de dados e capacidade de coordenação entre diferentes áreas do poder público.
Tudo isso exige gestão.

Preparar as escolas para enfrentar eventos extremos é uma política de equidade, afirma a autora
A adaptação climática não acontecerá apenas por meio de obras. Ela dependerá da capacidade de lideranças educacionais de planejar, mobilizar pessoas, construir protocolos e responder rapidamente a cenários de crise.
Existe ainda um elemento pouco explorado nesse debate: nossos estudantes. Nenhuma política pública de adaptação climática alcançará escala sem mobilização social. E poucas instituições possuem tanto potencial mobilizador quanto a escola.
Milhões de crianças e jovens podem atuar como defensores da sustentabilidade, da prevenção de riscos, do cuidado com os territórios e da construção de comunidades mais resilientes. Eles não são apenas os mais afetados pelas mudanças climáticas. São também parte fundamental da solução.
O século XXI está exigindo uma nova missão para a educação brasileira. Não basta ensinar sobre a crise climática. Precisamos preparar escolas capazes de funcionar durante a crise, proteger seus estudantes diante dela e liderar transformações para enfrentá-la. Porque, em um mundo de eventos extremos cada vez mais frequentes, a escola talvez seja uma das instituições mais importantes para manter a sociedade funcionando.