NOTÍCIA

Olhar pedagógico

Autor

Redação revista Educação

Publicado em 03/06/2026

Ecoansiedade em adolescentes: como transformar o medo climático em ação pedagógica

Geralmente, as ações locais mais próximas da realidade dos estudantes são as mais inspiradoras e motivadoras porque eles veem a mudança acontecendo a partir das suas próprias mãos

 

Por Isvilaine da Silva Conceição* | Em uma escola particular construtivista no Rio de Janeiro (RJ), estudantes participaram de uma pesquisa interna às vésperas da COP30 para escolher sobre qual assunto gostariam de falar em relação ao meio ambiente. Ao responderem, disseram que não queriam debater as mudanças climáticas. E por quê? Porque o assunto os deixava muito angustiados e lhes gerava ansiedade em relação ao futuro.

Embora não soubessem nomear o que sentiam, estavam manifestando a ecoansiedade ou a ansiedade climática. Trata-se de um mal-estar psíquico, gerado pela percepção de que o futuro é incerto ou ameaçado pelas mudanças climáticas e suas consequências   e que pode, nos casos mais graves, evoluir para quadros de ansiedade clínica.

No mundo todo, jovens têm manifestado esse mal-estar. A maior pesquisa global sobre ecoansiedade entre crianças e jovens, realizada em 2021 pela pesquisadora Caroline Hickman e colaboradores, coletou dados de dez mil jovens entre 16 e 25 anos, em dez países, e mostrou que cerca de 60% deles estão “muito” ou “extremamente preocupados” com os problemas ambientais. Entre 50% e 67% disseram que as mudanças climáticas fazem com que se sintam tristes, assustados, ansiosos, irritados, impotentes, desamparados e culpados; e 75% acreditam que o futuro é assustador, o que revela uma falta de horizonte.

Diante da magnitude das questões climáticas globais, é natural que os adolescentes experimentem uma sensação de impotência: afinal, não existe solução imediata para uma crise que exige vontade política, transformações estruturais e esforços coletivos em diferentes escalas – global, regional e local.  

Nesse cenário, como os educadores podem inspirar os adolescentes a terem propósito e a agirem diante das mudanças climáticas, de maneira que não se sintam paralisados e sem esperanças, presos a uma visão catastrofista do mundo e a uma ideia de que não há mais volta para a vida na Terra?

 

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Antes de propor caminhos, é preciso primeiro que o educador aprenda a reconhecer os sinais da ecoansiedade em seus alunos. O fenômeno manifesta-se de formas variadas: recusa em participar de discussões sobre temas climáticos, relatos de pesadelos recorrentes, manifestação de sensação de luto antecipado pelo planeta, sensação de peso colocado nas futuras gerações para “salvarem o planeta”, raiva desproporcional diante de notícias ambientais ou, ao contrário, negação total do problema como um mecanismo de defesa. 

O educador atento percebe que, por trás do estudante que se recusa a discutir mudanças climáticas, pode haver um sofrimento real que merece escuta qualificada. Por isso, criar espaços de fala seguros em sala, com rodas de conversa sem julgamento, nas quais sentimentos são nomeados e validados antes de qualquer proposta de ação, é algo fundamental. 

Vale ressaltar que os educadores não estão imunes à ecoansiedade; cuidar da própria saúde emocional é condição indispensável para sustentar esse trabalho com consistência e presença.

 

Ecoansiedade

Estudante indiano protesta na ação global Friday for Future contra as mudanças climáticas (Foto: Shutterstock)

 

Um dos caminhos possíveis para lidar com essa questão entre adolescentes é a educação por projetos ou aprendizagem baseada em projetos. Por meio dela, os estudantes investigam um problema real, colocam a mão na massa, desenvolvem pensamento crítico e criativo, experimentam criar soluções e, ao final, produzem algo em grupo, o que gera envolvimento e aprendizado e contribui para tornar a visão sobre o tema mais otimista. Geralmente, as ações locais mais próximas da realidade dos estudantes são as mais inspiradoras e motivadoras porque eles veem a mudança acontecendo a partir das suas próprias mãos. 

 

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Essa sensibilização em relação aos assuntos das mudanças climáticas pode se dar por meio de atividades práticas simples como limpeza de rios ou áreas verdes próximas à escola, junto com educação climática, ou a partir de ações de estudo do meio, em que os alunos aprendem fora da sala de aula, observando diretamente um lugar ou realidade. Seja qual for o caminho escolhido, é interessante adotar uma abordagem interdisciplinar em que os adolescentes sejam instigados a interligar conhecimentos de diferentes áreas como geografia, biologia, física e química. 

Outra possibilidade de envolvimento positivo é propor discussões para despertar nos estudantes o desejo de participar de espaços sociais e de cidadania no mundo. Eles podem se mobilizar para cobrar em conjunto medidas dos governantes, em diferentes instâncias participativas, nos níveis municipal, estadual e federal. Organizados e mobilizados, os adolescentes têm a oportunidade de requerer das autoridades ações públicas de mitigação (age na causa dos problemas), adaptação (age nas consequências) e compensação (age no saldo) das mudanças climáticas. 

Os estudantes podem ainda ser estimulados a participar de ações de voluntariado, pelas quais se engajam e se fortalecem na atuação em grupo, com trocas entre os pares, como já fazem dezenas de jovens que participam da rede Engajamundo, que oferece formações, mobilização, participação e advocacy protagonizadas pelas próprias juventudes. 

 

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Os grupos de estudo propositivos e os encontros com jovens lideranças indígenas e quilombolas da luta climática, em diálogos de jovem para jovem, também podem inspirar os estudantes e colaborar para que criem narrativas mais positivas em relação a contribuírem de forma ativa para a construção de um mundo não catastrofista. As ideias e as ações de ativistas como Txai Suruí, indígena do povo Paiter Suruí de Rondônia, e Greta Thunberg, ativista sueca pela justiça climática, têm chances de ser motivadoras. Ambas iniciaram no ativismo ainda adolescentes, em suas localidades, antes de ganharem o mundo e inspirarem milhares de pessoas. 

 

Saiba mais:

HICKMAN, Caroline et al. “Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: a global survey”. The Lancet Planetary Health, Londres, v. 5, n. 12, p. e863–e873, 2021. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196(21)00278-3/fulltext. Acesso em: 25 maio 2026.

KRENAK, Ailton. Esperança radical. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Plataforma Eunice. Disponível em: https://eunice.oc.eco.br/. Acesso em: 25 maio 2026.

 

(Foto: Arquivo pessoal)

*Isvilaine da Silva Conceição é engenheira ambiental e líder de Engajamento e Mobilização do Observatório do Clima, principal rede da sociedade civil brasileira com atuação na agenda climática, que visa a construir um país descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável.

 


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