Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula
Publicado em 14/07/2026
Nem sempre paramos para pensar que é nos espaços compartilhados que as crianças desenvolvem suas primeiras noções de cidadania
Por Ana Vitória Magalhães*
E se as cidades fossem pensadas pelas crianças?
A pergunta parece ingênua, mas ela desloca a nossa lente. Porque quando uma criança imagina uma cidade ela parte de outros princípios. Não se trata de grandes avenidas, fluxos de trânsito, rodovias ou custos necessários. E não que isso tudo não seja importante. Mas as cidades pensadas pelas crianças têm outra dinâmica.
Um olhar lúdico, que acabamos perdendo quando crescemos. Uma cidade que pensa em crianças se coloca no lugar delas, as faz desenhar o que querem para aquele ambiente. Proporciona espaços para brincar. Tem mais árvores frutíferas, como casa de vó, mais cheiro de bolo da Matilda saindo pelas chaminés, mais ruas de pedrinhas com o chão de amarelinha, mais fontes onde se possa tomar banho e muitas casinhas nas árvores.
E o mar?
Certamente este não teria lixo. Estaria coberto de conchas de variados formatos e a água seria cristalina e cheia de peixes. Teríamos playgrounds pelas orlas, e mais locais seguros para brincar, sem se preocupar em pisar na areia, num caco de vidro.
Na verdade, se formos ver bem, a cidade projetada pelas crianças nem parece tão ruim assim. Ela está cheia de inocência, de brincadeira e de imaginação. Está bem melhor do que as cidades que, na verdade… já temos.
Mas para algumas correntes de pensamento, que (re)imaginam as cidades, incluindo as Cidades Azuis, este exercício lúdico está longe de ser apenas imaginativo. Cada vez mais, quem pensa as cidades escuta quem vive nelas. E, aqui, incluímos as crianças.
Vivi na Itália durante anos. Quando estudei no Politécnico di Torino, tive uma matéria de urbanismo em que tínhamos de projetar uma escola e uma praça. Como grupo, resolvemos fazer o projeto do avesso. Em vez de pensar no que a escola precisa — uma grande lista de salas, quadra, banheiros… —, começamos por pensar primeiro em quem ia usar aquele espaço: as crianças.
A escola significa muito para os alunos, que passam por ela todos os dias. É ali que memórias se consolidam, que se criam amigos para a vida inteira, as primeiras noções de valor que a gente carrega depois.
Então fomos até os alunos e perguntamos: o que vocês querem dentro desta escola? Alguns ainda estavam na fase de alfabetização, então o jeito melhor de descobrir o que queriam foi pedir que desenhassem. E foi isso que fizeram: cada um desenhou a sua escola perfeita num pedaço de papel. Tinha de tudo. Escorregador gigante em forma de tromba de elefante, que levava direto até a saída. Uma máquina de bolha de sabão. Chão pintado de arco-íris.
Parecia fantasia, no começo. Mas foi ficando claro que era outra coisa: a imaginação das crianças existe, é válida, só falta espaço no mundo, e sobretudo nas cidades, para que ela se manifeste em algum lugar.
Se formos observar, a realidade das nossas cidades e até das escolas é quase oposta. As crianças perdem seus espaços de brincar para mais carros, e ganham playgrounds pré-fabricados monótonos, feitos de plástico que ficam escaldantes com as ondas de calor do verão, sem nenhum acesso a um refresco. Um espaço feito para cumprir a checklist, mas que não estimula a imaginação, e que nem foi pensado a partir das crianças, quem mais o utilizam.
O que não paramos para pensar é que é justamente nesses espaços compartilhados que as crianças desenvolvem suas primeiras noções de cidadania.
E tem outro dado que muda a urgência dessa conversa. A UNICEF estima que hoje cerca de 2,2 bilhões de crianças no mundo enfrentam, ao mesmo tempo, mais de uma ameaça climática, incluindo ondas de calor, ciclones, enchentes, falta de água e doenças. E não é coincidência que sejam elas as mais atingidas.
O corpo de uma criança lida pior com esses extremos. Um bebê não consegue suar como um adulto, então esquenta mais rápido, o que torna as ondas de calor bem mais perigosas para ele do que para nós. Crianças também respiram mais vezes por minuto do que um adulto, o que significa respirar mais fundo com a fumaça tóxica quando um incêndio florestal toma conta do ar. E quando existe enchente, a água suja que ela deixa para trás espalha doenças como malária e cólera, que atingem os pequenos com mais força.
Some a isso o fato de que criança depende de adulto para quase tudo. Ela não pode, sozinha, se mudar para um lugar mais seguro quando o clima vira uma ameaça. Isso tudo também se reflete na frequência escolar, que é diretamente afetada com faltas, quando temos desastres climáticos.
Fica provado, então, que quando a criança é colocada no centro das soluções das nossas cidades, as soluções que nascem dali funcionam melhor para todo mundo, não só para os pequenos.

Uma cidade que pensa em crianças se coloca no lugar delas, as faz desenhar o que querem para aquele ambiente (Foto: Shutterstock)
As Cidades Azuis integram o oceano, os rios e outros ambientes aquáticos ao seu planejamento urbano. Em muitas cidades, esses espaços acabam à margem da vida cotidiana, a cidade dá as costas para o mar, para os rios, para os sistemas de água que a atravessam, muitas vezes colocando todo seu lixo lá dentro. O conceito das Cidades Azuis propõe justamente o contrário: colocar esses ambientes no centro, valorizando o que eles têm a oferecer para a economia, o lazer, a qualidade ambiental, educação e a própria conservação.
É uma visão ligada, no fundo, ao desenvolvimento sustentável. As Cidades Azuis partem do princípio de que a água é parte da qualidade de vida, e por isso criam políticas que aproximam as pessoas dela de forma responsável.
É aqui que a cultura oceânica entra e faz diferença. Quando uma cidade assume essa perspectiva, ela passa a mostrar às crianças como a água atravessa tudo: o ciclo da natureza, o saneamento, a economia, a alimentação, a cultura, o bem-estar de quem vive ali.
Por isso o conceito conversa tão bem com as Escolas Azuis e com a Educação para o Desenvolvimento Sustentável. São iniciativas que convidam crianças e jovens a olhar para o lugar onde vivem e imaginar como gostariam que ele fosse. E esse exercício pode acontecer em escalas diferentes: dentro da escola, na rua onde ela fica, no bairro, ou mesmo na cidade inteira.
Pensar uma cidade azul também amplia os pontos de contato entre a criança e a cidadania. Passa a fazer sentido discutir mobilidade, segurança, uso dos espaços públicos, lazer, até a hora e o lugar de brincar.
E é fundamental que a imaginação e a participação das crianças entrem nessa conta. Com a cultura oceânica, elas não decoram o nome das espécies do mar: aprendem como os ambientes se conectam com a cidade onde moram. Podem descobrir, por exemplo, quais espécies de tartaruga usam a costa brasileira para se reproduzir, e como uma estrada construída perto demais da praia interfere na desova.
Podem também descobrir o que existia em tais ruas, antes de obras. Se tinha um rio que foi tampado para se construir uma avenida, se foram feitas obras na orla para que as enchentes parassem. Por meio de atividades como pegar as fotos dos avós e dos pais, naquele local, as crianças podem investigar mais sobre a história daquela cidade. E como ela se adaptou com o passar do tempo.
É assim que as disciplinas escolares deixam de ser abstratas e passam a dialogar com o meio em que as crianças vivem, o aprendizado mais significativo, mais próximo do dia a dia de quem estuda.
As ideias, os projetos, as propostas que nascem entre os estudantes precisam encontrar caminho até o planejamento urbano e as políticas municipais e nisto o papel das Cidades Azuis é fundamental.
É essa junção entre educação, participação social e gestão pública que faz da Cidade Azul algo além de um conceito bonito: uma forma real de aproximar as pessoas, a cidade e a água.
*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul. Especialista em cultura oceânica, currículo e carreiras para Economia Azul