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Publicado em 13/07/2026
Letramento em inteligência artificial na educação contemporânea é formar cidadãos capazes de interagir criticamente com um mundo cada vez mais mediado por algoritmos
Durante séculos, a alfabetização foi compreendida como a capacidade de ler, escrever e interpretar o mundo por meio da linguagem. Em diferentes momentos da história, novas competências foram sendo incorporadas ao conceito de cidadania plena. Aprender matemática, compreender ciências, desenvolver pensamento crítico e dominar tecnologias digitais passaram a fazer parte das habilidades necessárias para participar ativamente da sociedade.
Hoje, estamos diante de uma nova transformação histórica: a inteligência artificial (IA) deixou de ser uma tecnologia do futuro para tornar-se parte da vida cotidiana. Ela está presente nos mecanismos de busca, nas redes sociais, nos aplicativos de navegação, nos sistemas bancários, nas plataformas de entretenimento, nos ambientes de trabalho e, cada vez mais, nas escolas.
Em poucos anos, a IA passou de uma inovação restrita a laboratórios e grandes empresas para uma tecnologia acessível a milhões de pessoas. A velocidade dessa transformação é impressionante.
Segundo relatório da consultoria McKinsey, mais de 70% das organizações globais já utilizam alguma forma de inteligência artificial em seus processos. O Fórum Econômico Mundial aponta que cerca de 85 milhões de empregos poderão ser substituídos pela automação até o final desta década, enquanto aproximadamente 97 milhões de novas funções deverão surgir, muitas delas relacionadas diretamente à interação entre seres humanos e sistemas inteligentes.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: estamos preparando nossos estudantes para compreender, utilizar e questionar essas tecnologias? A resposta ainda é preocupante.

A IA passou de uma inovação restrita a laboratórios e grandes empresas para uma tecnologia acessível a milhões de pessoas. A velocidade dessa transformação é impressionante (Foto: Shutterstock)
Embora os jovens estejam cercados por tecnologias digitais, isso não significa que compreendam como elas funcionam. Utilizar uma ferramenta não é o mesmo que entendê-la. Assim como dirigir um carro não transforma alguém em mecânico, usar aplicativos baseados em IA não garante que uma pessoa compreenda seus limites, potencialidades, riscos ou impactos sociais.
É justamente nesse ponto que surge o conceito de letramento em inteligência artificial, que vai muito além da capacidade de utilizar ferramentas digitais. Trata-se de desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes que permitam compreender como os sistemas inteligentes operam, como tomam decisões, quais dados utilizam, quais vieses podem reproduzir e quais implicações éticas, sociais e econômicas estão associadas ao seu uso.
Em outras palavras, trata-se de formar cidadãos capazes de interagir criticamente com um mundo cada vez mais mediado por algoritmos. Essa discussão torna-se ainda mais urgente quando observamos os dados da educação brasileira. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), uma parcela significativa dos estudantes apresenta dificuldades em competências relacionadas à resolução de problemas complexos, análise crítica de informações e pensamento científico.
Ao mesmo tempo, pesquisas conduzidas pelo CETIC.br indicam que grande parte dos jovens utiliza intensamente tecnologias digitais, mas possui pouco conhecimento sobre privacidade, funcionamento de algoritmos e segurança da informação. Ou seja, estamos formando usuários, mas ainda não necessariamente cidadãos digitais críticos.
O desafio é ainda maior porque a inteligência artificial não impacta apenas uma área específica, mas todas as profissões. Na medicina, auxilia diagnósticos e análises clínicas. Na agricultura, otimiza o uso de recursos e amplia a produtividade; na engenharia, apoia projetos complexos; no jornalismo, produz conteúdos automatizados; no direito, realiza análises documentais; na indústria, opera sistemas inteligentes de produção.
Independentemente da profissão escolhida, os estudantes de hoje conviverão com sistemas baseados em IA ao longo de toda a sua trajetória pessoal e profissional.
Por essa razão, organismos internacionais como a Unesco, a OCDE e a União Europeia vêm defendendo que a educação incorpore de forma estruturada o desenvolvimento de competências relacionadas à inteligência artificial desde a educação básica.
Mas é importante compreender que ensinar IA não significa transformar todas as crianças em programadoras. Esse é um dos equívocos mais frequentes quando o tema é discutido nas escolas. O objetivo não é formar especialistas em tecnologia, mas desenvolver uma compreensão ampla sobre seu funcionamento e impacto.
Assim como ensinamos ciências para que os estudantes compreendam fenômenos naturais, mesmo que não se tornem cientistas, devemos ensinar IA para que compreendam os fenômenos tecnológicos que moldam o mundo contemporâneo. Isso envolve desenvolver pensamento crítico, criatividade, ética, resolução de problemas, argumentação, análise de dados e tomada de decisão.
A boa notícia é que esse trabalho pode começar de maneira simples e acessível. O letramento em IA não depende necessariamente de laboratórios sofisticados ou equipamentos de alto custo. Ele pode ser incorporado às práticas pedagógicas já existentes.
Em língua portuguesa, por exemplo, os estudantes podem comparar textos produzidos por humanos e por sistemas de IA analisando autoria, intencionalidade, linguagem e confiabilidade das informações. Em história, podem discutir como tecnologias transformaram sociedades ao longo do tempo e refletir sobre os impactos contemporâneos da inteligência artificial.
Em matemática, podem explorar conceitos relacionados a padrões, probabilidades, reconhecimento de dados e lógica computacional. Nas ciências humanas, podem debater privacidade, ética digital, desinformação e cidadania. Nas artes, podem investigar os limites entre criação humana e produção algorítmica.
A inteligência artificial não precisa ser uma disciplina isolada. Ela pode tornar-se um eixo transversal capaz de enriquecer diferentes áreas do conhecimento. Além disso, a própria BNCC da Computação oferece uma oportunidade estratégica para que as escolas integrem essas discussões de forma consistente. Os eixos de Pensamento Computacional, Cultura Digital e Mundo Digital criam condições favoráveis para que estudantes compreendam não apenas o uso das tecnologias, mas também seus impactos sociais, culturais e econômicos.
Outro aspecto fundamental é a formação dos professores. Não podemos esperar que educadores utilizem a inteligência artificial de maneira crítica e pedagógica se eles próprios não tiverem oportunidades de aprendizagem e experimentação.
A formação docente torna-se, portanto, uma das prioridades desse processo. Mais do que ensinar ferramentas, é necessário criar espaços de reflexão sobre práticas pedagógicas, avaliação, autoria, ética, criatividade e aprendizagem em tempos de inteligência artificial.
O professor continua sendo insubstituível. Na verdade, quanto mais avançam as tecnologias, mais importante se torna o papel humano da educação. A IA pode gerar conteúdos, responder perguntas e automatizar tarefas. Mas ela não substitui empatia, escuta, mediação, vínculo, inspiração e construção de sentido. Essas permanecem sendo competências profundamente humanas.
Talvez o maior desafio da educação contemporânea não seja ensinar estudantes a usar inteligência artificial, mas ensiná-los a continuar humanos em um mundo cada vez mais automatizado.
O futuro da educação não será definido pela capacidade de competir com máquinas, mas pela capacidade de desenvolver aquilo que as máquinas não possuem: consciência ética, criatividade genuína, sensibilidade, imaginação, colaboração e propósito.
O letramento em inteligência artificial representa, portanto, uma nova forma de alfabetização. Não porque substitui as anteriores, mas porque amplia nossa capacidade de compreender e atuar no mundo.
As escolas que compreenderem essa transformação prepararão seus estudantes não apenas para utilizar tecnologias, mas para liderar, questionar, criar e transformar a sociedade em que vivem. E talvez essa seja a principal missão da educação neste século: garantir que, em meio aos algoritmos, continuemos formando seres humanos capazes de pensar, sentir, criar e construir futuros melhores para todos.