NOTÍCIA
A “humanização” da tecnologia é uma estratégia de mercado — e, na escola, pode produzir uma falsa confiança: estudantes passam a tratar a máquina como autoridade, conselheira ou “professora”
Por Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) | Vivemos um encurtamento radical dos ciclos de desenvolvimento, implementação e massificação tecnológica. No ambiente digital, a inovação chega ao cotidiano antes que a sociedade consiga compreendê-la, testá-la criticamente e criar salvaguardas. A IA generativa, disponibilizada em larga escala a partir de 2022, acelerou esse processo: modelos passaram a atuar como agentes de interação criativa e de mediação de tarefas, reorganizando rotinas de estudo, trabalho e comunicação em tempo recorde.
Na educação, essa aceleração impõe dilemas imediatos. Um deles é o uso da IA por estudantes — do ensino básico ao superior — para produzir trabalhos, resolver exercícios e “automatizar” etapas do aprendizado. Quando a escola perde o controle sobre o processo (e fica apenas com o produto), cresce o risco de empobrecimento cognitivo: menos tempo de elaboração, menos compreensão, mais dependência de respostas prontas. Outro dilema é o impacto sobre a docência e as relações de trabalho. A promessa de “eficiência” pode empurrar sistemas de tutoria automatizada e chatbots como substitutos — e não como apoio —, deslocando o professor do centro do processo pedagógico.
A pergunta, então, não é se a IA “entra” ou “não entra” na escola. Ela já entrou. A pergunta é: com quais limites, com quais responsabilidades e com quais finalidades pedagógicas? E aqui a educação midiática (e, cada vez mais, o letramento em IA) deixa de ser “tema transversal” para virar condição de sobrevivência democrática e cognitiva.

Para a autora, um grande desafio é enfrentar de forma crítica a romantização e a antropomorfização da IA (Foto: Roberto Rodrigues/divulgação NIC.br)
A 15ª edição da TIC Educação, pesquisa lançada em novembro de 2025 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), área do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), mostra que 70% dos estudantes brasileiros do ensino médio, usuários da Internet, já recorrem a ferramentas de inteligência artificial generativa — como ChatGPT, Copilot e Gemini — para realizar atividades escolares.
Ainda que em menor escala, o uso de IA generativa também aparece entre os alunos dos anos iniciais (15%) e finais (39%) do ensino fundamental. Considerando o conjunto de estudantes usuários de Internet dos ensinos fundamental e médio, a proporção atinge 37%. Entre eles, apenas 19% afirmam ter sido instruídos por professores sobre como aplicar a tecnologia em atividades de aprendizagem, e somente 33% relatam ter sido orientados a identificar erros e vieses em conteúdos produzidos por meio de sistemas de IA.
Relembrando Paulo Freire, a ação educativa deve ter como centro uma reflexão sobre os homens e as mulheres e seus meios concretos de vida. Sem essa perspectiva, a educação transforma o homem na condição de objeto. Sem a mediação do professor, sem o diálogo, a educação deixa de cumprir sua missão mais elevada e ambiciosa, que é a de formar cidadãos críticos para atuar no mundo.
Por isso, é sempre importante ressaltar que sistemas generativos são modelos matemáticos de predição estatística que realizam correlações a partir de uma gigantesca base de dados. Não possuem experiência subjetiva, temporalidade vivida, não têm empatia, solidariedade, amor, culpa, sofrimento, ódio: fazem simulação linguística desses sentimentos a partir do aprendizado de máquina e do acúmulo de interações com o seu usuário específico, oferecendo respostas cada vez mais precisas e próximas ao que se espera.
Os conteúdos gerados por IA, portanto, cometem uma grande quantidade de erros (alucinação), suas respostas refletem e até aprofundam vieses econômicos, culturais e sociais que podem perpetuar desigualdades e discriminações.

A IA entrou na escola. A pergunta é: com quais limites, com quais responsabilidades e com quais finalidades pedagógicas? (Foto: Shutterstock)
Ou seja, um grande desafio é enfrentar de forma crítica a romantização e a antropomorfização da IA. A “humanização” da tecnologia é uma estratégia de mercado — e, na escola, pode produzir uma falsa confiança: estudantes passam a tratar a máquina como autoridade, conselheira ou “professora”, deslocando a experiência educativa do diálogo para a adoção acrítica de uma resposta automatizada que parece verossímil.
Daí a necessidade de medidas robustas de educação midiática e inclusão de conteúdos transversais sobre inteligência artificial nas escolas, do desenvolvimento de políticas públicas tecnicamente informadas, adoção de regras para definir parâmetros de uso seguro e confiável, e formação e informação social sobre usos e impactos.
No Brasil, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial explicita essa direção ao prever iniciativas de “difusão, formação e capacitação” desde a educação básica, incluindo conscientização pública e adoção informada da tecnologia, além de ações de literacia digital em IA e campanhas educativas e estruturas para formação docente em literacia e uso pedagógico da IA. Também há propostas ligadas à infraestrutura de dados educacionais e ao uso de IA em políticas educacionais, indicando que a agenda não é apenas “ferramenta em sala de aula”, mas governança, dados, privacidade e responsabilidade institucional.
Numa dimensão normativa, vale destacar a importância de iniciativas como a do MEC, que publicou documento para orientar sobre o uso de IA na educação básica e das diretrizes do CNPq para uso de IA na pesquisa acadêmica, à luz de debates internacionais que já avançam nesse caminho.
Esses instrumentos nos fornecem parâmetros para quando, como e para quê usar a IA na escola; como garantir integridade acadêmica e proteção de dados; e, sobretudo, ensinar crianças, adolescentes e educadores a compreender criticamente a tecnologia que já atravessa suas vidas.
Educar é formar sujeitos capazes de ler o mundo, não apenas repetir frases, dizia Paulo Freire. A IA pode ser uma ferramenta transformadora e ter um impacto positivo no processo ensino-aprendizagem. Pode apoiar professores em atividades pedagógicas e administrativas, com personalização supervisionada de apoio ao estudante, pode apoiar os estudantes em pesquisas, revisão de tarefas, aumentar a acessibilidade no ambiente escolar.
Ou seja, pode ser uma ferramenta auxiliar, mas não pode substituir a mediação pedagógica, a problematização e a construção coletiva de sentido. Sem regras, transparência e educação midiática e para o uso da IA, corremos o risco de reduzir a educação a desempenho, e o conhecimento a “resultado”.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: