NOTÍCIA
Entre todas as manualidades, a escrita à mão merece atenção especial, pois é o gesto que mais diretamente conecta o corpo ao pensamento simbólico
Por Claudia Siqueira*, gestora educacional na Escola Castanheiras | Desde os primórdios da humanidade, as mãos ocuparam um lugar central na evolução da espécie humana. Foi com as mãos que aprendemos a fabricar ferramentas, caçar, plantar, fiar, construir abrigos e cuidar dos nossos.
A habilidade de manipular o mundo ao nosso redor com precisão e intenção está intimamente conectada ao desenvolvimento do nosso cérebro. A cada gesto, a cada toque, a cada construção, fosse um pote de cerâmica, uma pintura rupestre ou um tear de fibras naturais, o ser humano forjou não apenas sua sobrevivência, mas também sua cultura, identidade e linguagem.
Historicamente, o uso das mãos representou muito mais do que trabalho físico: ele constituiu um modo de pensar, sentir e compreender o mundo. As pinturas rupestres nas cavernas do Parque da Serra da Capivara revelam que muito antes da escrita formal, o ser humano já expressava suas ideias, emoções e narrativas através de gestos criativos. A construção de moradias, a tecelagem e os instrumentos musicais ancestrais são provas de que a inteligência manual foi, durante milênios, um dos principais motores de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo.
Com a Revolução Industrial, esse vínculo começou a se romper. A mecanização do trabalho e o avanço tecnológico deslocaram o valor das mãos para as máquinas. O que antes era feito com precisão artesanal passou a ser padronizado, acelerado e desumanizado.
O fazer com as mãos foi, aos poucos, sendo substituído pelo apertar de botões e, mais recentemente, pelo deslizar dos dedos sobre telas. A era digital aprofundou ainda mais esse distanciamento entre o ser humano e sua expressão manual, com impactos que hoje começam a ser estudados e mensurados pela neurociência.
Os dados mais recentes são difíceis de ignorar. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, 95% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos acessam a rede no país, o que representa cerca de 25 milhões de pessoas, na maioria pelo celular e sem qualquer limite de tempo definido pelos responsáveis. O Instituto Olinto Marques de Paulo aponta que 85% das crianças a partir dos 4 anos ficam mais de uma hora por dia no aparelho e que, aos dez anos, 37% ficam mais de quatro horas diárias diante de uma tela.
No Brasil, crianças passam em média cinco horas e meia por dia conectadas, dado levantado por Jonathan Haidt em ‘A Geração Ansiosa’’ (2024), obra que se tornou referência global ao investigar como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais.
Vale o registro: em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos usavam a internet. Em 2024, esse número saltou 44%.
Diante desse cenário, o Movimento Desconecta, criado em 2024, propõe um pacto entre os responsáveis: adiar a entrega de smartphones para os filhos até os 14 anos e liberar redes sociais apenas após os 16 anos. Em resposta a essa urgência, o Brasil sancionou o ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, que estabelece proteções concretas para crianças e adolescentes no ambiente online.
Esses dados apontam para um declínio significativo das experiências sensório-motoras, fundamentais para a formação das funções cognitivas superiores. Pesquisas na área da neuroeducação demonstram que o uso das mãos está diretamente relacionado à consolidação de memórias de longo prazo, à coordenação motora fina e à neuroplasticidade cerebral.
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O neurocientista francês Stanislas Dehaene aponta que o aprendizado baseado na escrita manual ativa o córtex motor, a região pré-frontal e o hipocampo, promovendo maior atenção e compreensão do conteúdo. Atividades como desenhar, modelar, pintar, tecer, escrever, costurar ou tocar instrumentos estimulam a produção de conexões sinápticas que reduzem o risco de degenerações cognitivas futuras e diminuem a intensidade das chamadas podas neurais precoces, quando o cérebro elimina, por falta de uso, conexões essenciais à aprendizagem.

Ressignificar o corpo no espaço escolar não é uma demanda da educação física, mas de toda e qualquer prática pedagógica que se pretenda humana, reflete a autora (Foto: Arquivo pessoal)
Entre todas as manualidades, a escrita à mão merece atenção especial, pois é o gesto que mais diretamente conecta o corpo ao pensamento simbólico. Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology, conduzido por pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega, acompanhou estudantes com eletroencefalogramas enquanto digitavam e escreviam com canetas. O resultado foi inequívoco: a escrita manual aumentou significativamente a conectividade entre diferentes regiões do cérebro, o que simplesmente não ocorreu na digitação.
O neurologista Renato Gama define a escrita à mão como “uma habilidade neuropsicomotora complexa que exige a integração de múltiplos sistemas: controle motor fino, coordenação visomotora, percepção espacial, planejamento gráfico, regulação rítmica e atenção sustentada.” Mais do que registrar palavras, escrever à mão é um ato de construção do pensamento. Quando esse gesto desaparece, algo do próprio processo de pensar se perde junto.
O abandono das manualidades também ecoa profundamente na saúde mental. O uso prolongado de telas está associado ao aumento de quadros de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e desregulação emocional. Haidt documenta quatro efeitos centrais: perda de sono, queda nas relações sociais, dificuldade de concentração e dependência. A ausência de práticas manuais, sensoriais e corporais acentua esse desequilíbrio, já que são justamente essas experiências que regulam o sistema nervoso e oferecem um lugar de expressão criativa e afetiva.
É aqui que precisamos introduzir um conceito fundamental e ainda pouco habitado nas discussões educacionais brasileiras: a corporeidade. Para o filósofo Maurice Merleau-Ponty, o corpo não é um objeto no espaço, mas o próprio modo pelo qual o ser humano existe e conhece o mundo. Não aprendemos apesar do corpo; aprendemos através dele, com ele, por meio dele. A corporeidade é, portanto, a condição de toda aprendizagem genuína, e ignorá-la é condenar o processo educativo à superficialidade.
Ao longo da história ocidental, construímos uma escola que sistematicamente separou o corpo da mente, como se aprender fosse uma atividade exclusivamente cerebral e o corpo fosse um inconveniente que se carrega até a carteira.
Foucault já denunciava essa lógica ao mostrar como a escola disciplina, controla e silencia o corpo. Hoje, no contexto digital, esse apagamento ganhou uma nova camada: a criança está presente fisicamente, mas ausente corporalmente, seus sentidos adormecidos, seu movimento suprimido, sua pele sem textura, seus pés sem chão. A corporeidade, que deveria ser o ápice da experiência de aprender, tornou-se o grande ausente da escola contemporânea.
Ressignificar o corpo no espaço escolar não é uma demanda da educação física. É uma demanda de toda e qualquer prática pedagógica que se pretenda humana. Quando uma criança molda argila, ela não está apenas desenvolvendo a motricidade fina; está construindo sua relação com a matéria, com o tempo, com o erro e com a beleza. Quando escreve à mão, não está apenas registrando conteúdo; está inscrevendo no papel uma parte de si mesma. Quando corre, trepa, cai e levanta, está aprendendo que o mundo tem resistência, e que ela também tem.
É preocupante o número crescente de crianças que não sabem mais cair, literalmente. Isso ocorre porque perderam a consciência corporal que só se adquire com movimento, experimentação e manipulação de objetos reais. O brincar no chão, o escalar, o se pendurar, o construir, o escavar, o subir em árvores são práticas cada vez mais raras no cotidiano infantil, substituídas por uma realidade virtual altamente editada e passiva, em escolas e moradias com espaços de convívio e áreas verdes cada vez mais reduzidos.
Metodologias educacionais que valorizam o uso das mãos continuam mostrando resultados positivos e duradouros. A abordagem Reggio Emilia reconhece as “cem linguagens da criança”, entre elas as linguagens corporais e manuais, incentivando que as crianças expressem seus pensamentos por meio da modelagem, pintura, construção, desenho e manipulação de materiais naturais.
A pedagogia Waldorf integra as manualidades como elemento essencial do currículo, desde a costura e o tricô até o trabalho com madeira e artesanato. A pedagogia montessoriana incentiva o aprender fazendo, com atividades práticas que desenvolvem a independência, o foco e o raciocínio lógico a partir da manipulação de objetos reais. Já Célestin Freinet propõe o trabalho manual como forma de participação ativa e significativa: para ele, o aprendizado acontece no fazer, no experimentar, no erro e no recomeço.
A perspectiva socioconstrutivista de Vygotsky reforça que o conhecimento é construído por meio da interação com o mundo e com o outro. Nessa visão, o fazer manual é uma linguagem ativa que amplia a aprendizagem por meio da experiência, da partilha e da reflexão sobre a ação.
Paulo Freire ia na mesma direção ao dizer que “o saber se constrói na prática, com os pés no chão da vida” e que “o corpo aprende, as mãos aprendem, o gesto é também linguagem.” Ignorar essa dimensão é mutilar a experiência educativa.
O educador e antropólogo Tião Rocha, criador do CPCD, sintetiza com precisão: “mãos que fazem são mãos que pensam.” Paulo Blikstein, professor na Universidade de Columbia, vai além ao mostrar, por meio do conceito de FabLearn, que trabalhar com as mãos não é o oposto de pensar com a cabeça; é o caminho para pensar melhor. Em suas palavras: “Estamos vendo um modelo educacional em que o aluno apenas consome tecnologia, sem produzir, sem manipular, sem errar. E isso não gera aprendizado real, apenas passividade e dependência.”
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O educador e antropólogo Tião Rocha, criador do CPCD, sintetiza com precisão: “mãos que fazem são mãos que pensam” (Foto: Shutterstock)
No entanto, vivemos em uma sociedade que desvaloriza o trabalho manual e atribui a ele um status menor. Profissões que exigem habilidades manuais são frequentemente subestimadas, embora estejam entre as mais essenciais para a vida em comunidade. Criamos uma hierarquia injusta entre o fazer com as mãos e o pensar, como se fossem instâncias separadas e não profundamente interdependentes.
Essa distorção afeta não apenas as escolhas profissionais dos jovens, mas também o modo como estruturamos o currículo escolar. A retirada de aulas de arte, música, marcenaria, costura, culinária, agricultura e cerâmica é sintomática de um modelo educacional que se distancia da experiência concreta e sensível. E, nesse processo, perdemos a oportunidade de formar cidadãos mais íntegros, sensíveis, criativos e curiosos.
E aqui cabem questionamentos urgentes:
Copiar, desenhar, escrever à mão, bordar, plantar, fazer brinquedos: tudo isso parece simples, mas carrega uma complexidade neurológica e afetiva que nenhuma outra experiência pode substituir. A coordenação olho-mão, a paciência, a atenção prolongada, a resiliência frente ao erro, o prazer de criar com as próprias mãos são aspectos essenciais para o desenvolvimento pleno de crianças e jovens, e para a formação de adultos mais presentes, criativos e conscientes.
Escolas têm um papel decisivo: reintroduzir as manualidades e a corporeidade como pilares da formação humana, não como atividades complementares ou adereços do currículo. Isso exige coragem para rever prioridades, redimensionar o uso pedagógico das tecnologias e retomar o contato com a dimensão concreta e sensível da aprendizagem.
Mas aqui chegamos a um nó que não podemos desviar: a escola não muda porque a sociedade não deixa. Esse é o verdadeiro desafio de trazer provocações e reflexões que desloquem a instituição escola de lugar, de cenário, e lhe deem a chance de rever socialmente seu impacto na vida de meninos e meninas que chegam até ela. Crianças e jovens que hoje chegam amputados e negligenciados pela falta de coragem de gestores em fazer o que eles precisam efetivamente, não para performar resultados mas para desenvolver o apreço ao conhecimento e assim não serem mais amputados simbolicamente de sua capacidade de sentir, criar, mover e existir.
O que aconteceria se, ao invés de seguir cedendo às lógicas do digital sem critérios, regras e protocolos, nós decidíssemos reabilitar as mãos como um território sagrado da criação, da memória, do cuidado e do pensamento? Que tipo de sociedade queremos construir se abrimos mão de um dos nossos gestos mais humanos e ancestrais?
*Claudia Siqueira é gestora educacional na Escola Castanheiras, professora de pós-graduação, autora, consultora e palestrante. Historiadora e pedagoga com 40 anos de atuação em educação pública e privada.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: