NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Revista Educação

Publicado em 03/08/2026

A tecnologia deve valorizar o lado humano da educação

A inteligência artificial tem potencial para ajudar escolas a enfrentar desafios históricos, mas isso exigirá formação continuada de professores, critérios éticos claros, segurança no uso de dados e compromisso permanente com inclusão e equidade

Por Ernesto Nuñez, diretor global de produto e inovação da Santillana | A inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas. Na educação, isso não era só esperado, como necessário. Não há sentido na exclusão tecnológica dentro do processo pedagógico. A discussão entre profissionais e especialistas não deve se limitar a se ou quando iniciar o uso de ferramentas de IA nas escolas, mas a como fazê-lo sem diminuir a importância da interação humana no processo de construção do conhecimento e da cidadania, sem renunciar a toda potencialidade que a tecnologia traz para professores e alunos. 

Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) mostram que 70% dos estudantes do ensino médio utilizam IA em atividades escolares. Já 58% dos professores usam essas ferramentas em algum momento do processo educacional. Se, para tantos educadores e estudantes, a IA faz parte do cotidiano, é de se esperar ambientes educacionais preparados para essa realidade. 

Tecnologia

“A IA não pode, jamais, substituir o professor, transformando o aprendizado em uma experiência puramente digital”, afirma o autor (Foto: Divulgação)

Mas não é isso que se observa. De acordo com o mesmo estudo, apenas 32% dos alunos do ensino médio afirmam receber orientação sobre o uso de IA. A IA entrou com força na sala de aula, muitas vezes sem mediação adequada, sem critérios pedagógicos claros e sem apoio estruturado às escolas e aos docentes. Isso exige de todos nós, profissionais e defensores da educação, um nível de responsabilidade ainda maior do que o entusiasmo.

A tecnologia representa, sem dúvida, uma enorme oportunidade para o ensino, sobretudo em países marcados por profundas desigualdades de aprendizagem, sobrecarga docente e desafios históricos de alfabetização e desempenho escolar. Mas seu potencial só faz sentido quando subordinada a um projeto pedagógico consistente e orientado por princípios humanos. 

 

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A IA não pode, jamais, substituir o professor, transformando o aprendizado em uma experiência puramente digital. Sistemas de IA já conseguem realizar parte das tarefas cognitivas e operacionais antes concentradas no docente. Mas educação não é apenas resposta, repetição ou eficiência. O centro da docência continua sendo algo dificilmente automatizável: o julgamento pedagógico sobre o desenvolvimento humano, social e intelectual de cada estudante.

Precisamos buscar uma visão integrada do ecossistema educacional, em um ambiente com conteúdo de qualidade e curadoria adequados a cada faixa etária, aos parâmetros curriculares e às necessidades individuais do aluno e da escola.  Não se trata de mera opinião, mas de um olhar construído a partir de experiências internacionais e do diálogo constante com referências como UNESCO, OCDE, OEI, Banco Mundial e iniciativas ligadas ao recém-inaugurado Observatório Regional de Inteligência Artificial na Educação para a América Latina e o Caribe.

O mercado de soluções educacionais não deve inundar as escolas com plataformas e ferramentas de forma indiscriminada que só aprofundam as desigualdades em vez de combatê-las. O livro impresso e a interação humana direta entre educadores e educandos devem continuar âncoras da aprendizagem, com a IA usada como agregadora de valor para professores, alunos e familiares. Algumas experiências cognitivas fundamentais para a aprendizagem profunda ainda encontram no papel condições amplamente favoráveis.

Para o educador, a tecnologia faz mais sentido como apoio ao trabalho docente, ajudando no planejamento das aulas, no acompanhamento da aprendizagem e na personalização de atividades, enquanto o professor mantém seu papel central no processo educativo. 

 

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Para os estudantes, pode apoiar estudos em casa, promover percursos personalizados de aprendizagem e estimular o pensamento crítico por meio de abordagens inspiradas no método socrático. Para as famílias, pode ampliar o acompanhamento da aprendizagem e fortalecer processos de inclusão e comunicação com a escola.

A inteligência artificial tem potencial para ajudar escolas a enfrentar desafios históricos, mas isso exigirá formação continuada de professores, critérios éticos claros, segurança no uso de dados e compromisso permanente com inclusão e equidade. No fim, a tecnologia só terá valor real se estiver a serviço de todas as qualidades e necessidades humanas.

 

Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: 

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