NOTÍCIA
Sem critérios claros, intencionalidade pedagógica e objetivos definidos, a IA pode prejudicar a aprendizagem. Quando bem estruturada e adequadamente orientada, porém, torna-se uma poderosa aliada.
Por Luciano Monteiro*, diretor executivo da Fundação Santillana | A inteligência artificial entrou na educação por uma porta incomum. Primeiro, descobrimos tudo o que ela é capaz de fazer: escrever, resumir, traduzir, criar exercícios, corrigir textos, explicar conceitos e responder perguntas. Só depois começamos a nos perguntar o que, de tudo isso, queremos que ela faça.
Na educação, o processo de transformação foi semelhante ao de outros setores; agora, porém, precisamos inverter essa lógica.
Antes de perguntar onde podemos usar inteligência artificial, precisamos questionar que problema pedagógico queremos resolver. O que desejamos que o estudante aprenda? Quais capacidades queremos desenvolver? Qual é o papel do professor? E quais experiências são insubstituíveis no processo de aprendizagem? A tecnologia deve vir após essas reflexões, nunca antes delas.
Isso significa abandonar tanto o encantamento automático com a IA quanto a tentação de simplesmente excluí-la da escola. A questão já não é ser contra ou a favor, mas construir um propósito pedagógico para o seu uso.

“Talvez uma das melhores inteligências artificiais para a educação não seja a que oferece as melhores respostas, mas a que sabe fazer as melhores perguntas”, afirma Luciano Monteiro (Foto: Jardiel Carvalho)
Pesquisas recentes realizadas em diversos países, incluindo a China, apontam nessa mesma direção. Sem critérios claros, intencionalidade pedagógica e objetivos definidos, a IA pode prejudicar a aprendizagem. Quando bem estruturada e adequadamente orientada, porém, torna-se uma poderosa aliada.
Um primeiro propósito parece evidente: ajudar o aluno a aprender melhor. Contudo, isso não significa, necessariamente, tornar tudo mais fácil ou chegar mais rapidamente à resposta. Aprender exige esforço, tentativa, erro, dúvida e revisão. Uma IA concebida para a educação pode justamente ajudar a preservar e qualificar esse percurso. Em vez de oferecer de forma imediata uma solução, pode perguntar: Por que você pensa assim? Como chegou a essa conclusão? Existe outra possibilidade? Que evidência sustenta seu argumento?
Talvez uma das melhores inteligências artificiais para a educação não seja a que oferece as melhores respostas, mas a que sabe fazer as melhores perguntas.
Há um segundo propósito igualmente importante: apoiar o trabalho do professor, criando mais espaço para aquilo que realmente importa: as relações humanas. Em uma turma de 30 ou 40 estudantes, identificar diferentes níveis de aprendizagem, produzir atividades adequadas a cada necessidade e oferecer feedback individualizado sempre foram um enorme desafio. A IA pode ampliar de forma significativa essa capacidade.
Nesse sentido, a personalização não deveria significar cada criança isolada diante de uma máquina. Pode significar exatamente o contrário: oferecer ao professor melhores condições para conhecer cada aluno, identificar dificuldades e decidir quando e como intervir.
Existe ainda uma terceira dimensão: a equidade. Tutoria individual, acompanhamento permanente e materiais adaptados às necessidades de cada estudante sempre foram recursos escassos e, muitas vezes, disponíveis apenas para quem já detinha mais oportunidades. A IA pode ajudar a democratizar esse acesso, mas isso não acontecerá automaticamente. Sem intencionalidade, infraestrutura e políticas adequadas, a mesma tecnologia também poderá aprofundar desigualdades.

“Um primeiro propósito parece evidente: ajudar o aluno a aprender melhor. Contudo, isso não significa, necessariamente, tornar tudo mais fácil ou chegar mais rapidamente à resposta” (Foto: Shutterstock)
Assim, talvez devamos estabelecer um princípio simples: a inteligência artificial deve reduzir as barreiras à aprendizagem, e não a aprendizagem em si. A IA pode provocar, sugerir caminhos, apoiar explicações, acompanhar processos e oferecer feedback, mas não deve subtrair do aluno o que constitui o próprio ato de aprender: pensar, experimentar, errar, argumentar, criar e tomar decisões.
Da mesma forma, deve-se ampliar, e não diminuir, a capacidade do professor de fazer escolhas pedagógicas.
Por fim, nada disso ocorrerá sem uma ação estruturada de formação docente, sem apoio às escolas e sem condições para que o uso desses recursos esteja efetivamente orientado aos objetivos educacionais que buscamos alcançar.
Em breve, deixaremos de discutir se as escolas usam ou não inteligência artificial. Ela estará incorporada a todas as dimensões da educação. A distinção fundamental passará a ser outra: a diferença entre simplesmente adotar ferramentas e saber como utilizá-las.
Por isso, diante de cada nova possibilidade oferecida pela IA, talvez a primeira pergunta de uma escola deva continuar sendo essencialmente pedagógica: Que aprendizagem queremos tornar possível aqui?
Se não soubermos responder a essa pergunta, talvez ainda não precisemos de inteligência artificial.
*Luciano Monteiro é também diretor corporativo global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo educacional Santillana, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Grupo de Editores Iberoamericano.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: