NOTÍCIA

Entrevistas

Autor

Revista Educação

Publicado em 31/07/2026

António Nóvoa discute o papel da escola na educação do futuro

O educador português, professor, e pesquisador conduz debate no Colégio Rio Branco, em São Paulo, para abordar a atuação da escola, dos educadores e das famílias frente aos desafios atuais

Em um momento em que os desafios da educação estão no centro do debate mundial, o Colégio Rio Branco, em São Paulo, recebe, no próximo dia 3 de agosto, às 19h30, o educador, professor e pesquisador português António Nóvoa,  uma das maiores referências mundiais em educação.

O encontro será realizada na unidade Higienópolis e reunirá educadores, famílias e profissionais interessados em discutir os desafios atuais da escola e os caminhos para o futuro da educação. O evento é aberto ao público mediante inscrição prévia.

Autor de importantes contribuições para o pensamento educacional contemporâneo, António Nóvoa foi relator do documento da UNESCO Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, publicação que vem inspirando debates em diversos países sobre a transformação da educação diante das mudanças sociais, culturais e tecnológicas.

Na entrevista a seguir, exclusiva para a revista Educação, Nóvoa caracteriza o desafiador contexto social e político atual, que  “parece mais dramático do que nunca” e aborda a importância do fortalecimento da comunidade escolar. Em seguida, fala acerca dos desafios da formação docente no Brasil, e aborda um fenômeno do campo discursivo, que vem acontecendo no mundo todo — a substituição da palavra professor por várias denominações “que parecem modernas e inovadoras”.

Confira a entrevista: 

O tema do encontro no Colégio Rio Branco remete a questões como pertencimento, cooperação e a importância da comunidade escolar. No contexto atual, com o avanço de tecnologias que exigem cuidados e práticas estratégicas na utilização, com as mudanças climáticas em curso, qual a importância do fortalecimento comunitário?

Estamos vivendo um tempo crítico da humanidade. Talvez todos os tempos o tenham sido. Mas este parece mais dramático do que nunca. Como encontrar um rumo em meio a tanta incerteza, tanta fragmentação e tantos confrontos? Já não se trata da liberdade da palavra, mas da tentativa permanente de impor a “nossa” verdade. Crescem os autoritarismos e os fanatismos. Todos parecem ter respostas. Quase ninguém tem perguntas. E, sem perguntas, não há educação. É a dúvida que nos permite ultrapassar aquilo que já sabemos e abrir caminho para o novo.

Os direitos humanos, consagrados na Declaração de 1948, vêm sendo postos em causa, todos os dias, em diferentes partes do mundo. Ao mesmo tempo, somos chamados a reconhecer uma nova geração de direitos: os direitos da Terra e da sustentabilidade de um planeta gravemente ameaçado; o direito ao digital como bem comum, de acesso livre e universal; o direito às diversidades, para que ninguém seja obrigado a viver de uma forma que não escolheu; e o direito à longevidade, porque a grande revolução silenciosa do nosso tempo é o aumento da expectativa de vida, que faz conviver, como nunca antes, tantas gerações no mesmo tempo histórico.

É nesse contexto que o fortalecimento da comunidade se torna indispensável. E a escola ocupa um lugar insubstituível. Ela deve ser espaço para muitas aprendizagens, mas, antes de tudo, um espaço de liberdade. É o lugar onde seres humanos educam outros seres humanos para o bem da humanidade. Por isso, a tarefa mais urgente do nosso tempo é recuperar a missão humanista da escola como o lugar onde aprendemos a construir o comum e resgatar a grande missão humanista dos professores. 

Leia: Cidades educadoras para a sobrevivência em sociedade

 

Em que medida o futuro da escola, no mundo todo, depende desse fortalecimento da comunidade escolar?

Mais do que uma comunidade, a escola é uma instituição — e, em especial, a escola pública. Durante muito tempo, na França, os professores eram chamados de instituteurs, isto é, “instituidores”. Cabia-lhes uma das tarefas mais nobres da vida pública: instituir as crianças como cidadãos e dar forma às comunidades que constituem uma nação.

É essa instituição singular chamada escola que precisamos proteger. Vale recordar a afirmação de Anísio Teixeira: “A escola pública é a maior invenção do mundo”. Protegê-la de quê? De certos devaneios futuristas e de imaginários que se apresentam como inevitavelmente modernos e inovadores. Propõem uma educação cada vez mais personalizada, flexível, on-line, quase inteiramente digital, como se as escolas se tornassem dispensáveis.

Ouvimos dizer que os alunos devem colaborar com a inteligência artificial. Colaborar? A colaboração é uma experiência propriamente humana. Também se afirma que os professores serão co-docentes ou colegas de tutores de inteligência artificial. Colegas? Não. As máquinas podem ser ferramentas extraordinárias, mas não pertencem ao mesmo plano da experiência humana. Educar é uma relação entre pessoas, fundada na responsabilidade, na confiança e na liberdade.

A escola existe precisamente porque é o lugar do comum: do trabalho em comum, da convivência entre pessoas de diferentes origens, culturas e modos de pensar. Paulo Freire dizia que nos educamos em comunhão, uns com os outros. Mestres e discípulos. É essa visão que inspira o novo contrato social para a educação, proposto no relatório da UNESCO Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Esse horizonte exige valorizar as escolas e os professores, fortalecer a instituição escolar e reconhecer a profissão docente como um dos pilares da democracia.

 

António Nóvoa

“Paulo Freire dizia que nos educamos em comunhão, uns com os outros. Mestres e discípulos”, lembra António Nóvoa (Foto: Reprodução Arquivo/Educação

Quais as características de uma comunidade escolar que se mantém saudável?

Costumo resumir a parte central do Relatório da UNESCO em cinco palavras iniciadas pela letra C. Elas não são uma receita, mas uma bússola para orientar a necessária metamorfose da escola.

  • Cooperação. Hoje, a pedagogia define-se, antes de tudo, pelo gesto de cooperação. O mais importante não é simplesmente “dar aulas”, mas colocar os alunos em situação de estudo e de trabalho, cooperando entre si, com o acompanhamento e a orientação do professor.
  • Convergência. Mais do que nunca, precisamos de uma educação capaz de fazer convergir diferentes saberes, conhecimentos e culturas. Falar em convergência é também reafirmar que a escola deve ser, acima de tudo, um lugar de estudo.
  • Colaboração. É preciso repensar a docência como uma profissão colaborativa. Não se trata de impor a colaboração ou de obrigar alguém a colaborar. Trata-se de organizar o trabalho pedagógico de modo que colaborar deixe de ser um gesto excepcional e passe a ser uma necessidade profissional.
  • Convivialidade. A escola, sobretudo a escola pública, é o lugar onde todas as crianças se encontram, independentemente de suas origens, crenças ou culturas. Não aprendemos apenas com aqueles que são iguais a nós. Aprendemos, sobretudo, com quem é diferente, porque é a diferença que amplia o nosso horizonte.
  • Cidadania. A escola não se encerra dentro de seus muros. Ela é uma instituição pública, da cidade e da sociedade. É um espaço que produz o comum, tanto no seu cotidiano quanto na vida pública.

Esses cinco “Cs” apontam para uma mesma ideia: a escola não existe apenas para transmitir conhecimento, mas para construir uma forma de vida em comum. É essa experiência do comum que continua sendo a sua maior responsabilidade e a sua maior esperança.

 

Pensando no contexto brasileiro, em que as realidades educacionais são tão diversas e há muitas escolas em situação de vulnerabilidade social e econômica, como a gestão escolar pode atuar no sentido de atrair as famílias para a participação na comunidade escolar? Conhece exemplos bem sucedidos?  

No meu livro Viagem – Por Escolas de Portugal, publicado recentemente pela Porto Editora, analiso diversas experiências de participação das famílias na educação pública. Em praticamente todas elas há um traço comum: os pais são chamados a participar como cidadãos, comprometidos com a escola e com o bem comum, e não como clientes preocupados apenas com os interesses dos próprios filhos.

Quando conseguimos construir essa relação, convidando pais e mães a assumirem uma responsabilidade compartilhada pelo projeto educativo — sempre com respeito pela autonomia profissional dos professores — surgem experiências de grande riqueza.

Lembro, por exemplo, o trabalho extraordinário desenvolvido na Escola de Paradinha, perto de Viseu, em Portugal. Durante algum tempo, a oferta educacional limitava-se à educação infantil. A proximidade de um bairro social com uma significativa população cigana gerava um estigma que dificultava a chegada de alunos de outras origens.

Foi então que um grupo de mães, em estreita parceria com as professoras, tomou uma iniciativa decisiva. Mobilizou-se para garantir a continuidade dos percursos escolares, criando os anos iniciais do ensino fundamental. Mas fez muito mais do que isso: ajudou a construir um projeto educativo baseado na participação, na coerência, na inclusão e na valorização da diversidade.

Hoje, essa escola conquistou uma identidade própria e um grande reconhecimento junto da comunidade. Existe uma relação de confiança entre educadores, famílias e população. As famílias participam de um projeto comum, sem invadir o espaço profissional dos professores. Os professores afirmam sua autoridade pela competência e pelo compromisso ético. Os alunos têm voz e ocupam um lugar central na vida da escola.

Creio que esse é o caminho mais promissor. Uma boa escola não é aquela em que as famílias substituem os professores, nem aquela em que permanecem à margem da vida escolar. É aquela em que cada um assume plenamente a sua responsabilidade na construção de um projeto comum. 

 

A formação de professores 

O Brasil tem realizado alterações nas políticas públicas que envolvem a formação docente com o objetivo de aumentar a qualidade da educação no país. Por exemplo, os cursos de licenciaturas 100% EAD não são mais permitidos e há, nessas políticas, relação intrínseca entre qualidade e presencialidade. Qual sua visão a respeito?

A presencialidade é importante. Mas ela só ganha sentido quando cria um verdadeiro ambiente profissional de formação. Ninguém aprende a ser professor apenas assistindo a aulas, presenciais ou a distância. Aprende-se vivendo a profissão, refletindo sobre ela e participando de uma comunidade profissional.

Foi com essa convicção que, em 2016 e 2017, participei da criação do Complexo de Formação de Professores da UFRJ. A proposta era pensar a formação docente a partir de um terceiro espaço, construído pela responsabilidade compartilhada entre universidades e escolas, entre professores universitários e professores da educação básica.

As universidades, sozinhas, têm se mostrado incapazes de formar os professores de que precisamos. As escolas, sozinhas, também não conseguiriam fazê-lo. Não se trata apenas de aproximar duas instituições, mas de construir uma terceira realidade, inteiramente comprometida com a formação de professores.

Mais recentemente, em 2024 e 2025, tive a oportunidade de desenvolver uma iniciativa semelhante em Minas Gerais, por meio da Rede Mineira de Formação de Professores. Em breve, a UFMG publicará o livro Um novo tempo da formação de professores – Espaços comuns entre as universidades e as escolas, que apresenta essa experiência e dialoga com inúmeras iniciativas semelhantes desenvolvidas em diferentes países.

A Rede Mineira organiza-se em torno de cinco princípios fundamentais:

Primeiro. A formação de professores é uma formação profissional. Além dos conhecimentos acadêmicos, científicos e pedagógicos, ela exige uma verdadeira vivência da profissão e a construção do conhecimento profissional docente.

Segundo. A formação precisa ocorrer em um ambiente profissional, no qual os futuros professores convivam entre si e com colegas mais experientes, construindo progressivamente sua identidade profissional.

Terceiro. A formação exige uma parceria entre universidades e escolas, em condições de igualdade. Os professores da educação básica não podem ser vistos apenas como supervisores de estágio. Devem participar, com igual dignidade, da concepção e do desenvolvimento dos cursos de formação.

Quarto. As escolas participantes precisam ser reconhecidas como escolas formadoras, dispondo de condições materiais, autonomia e flexibilidade para exercer essa missão. Da mesma forma, seus professores devem ter as condições necessárias para atuar plenamente como professores formadores.

Quinto. A formação docente deve colocar no centro o conhecimento profissional dos professores e estar intimamente ligada aos processos de mudança educacional. Isso exige pesquisa sobre a profissão, pesquisa com os professores e pesquisa realizada pelos próprios professores, em escolas abertas à inovação, ao ensaio e à experimentação.

O verdadeiro desafio é construir espaços comuns de formação, nos quais universidade, escola e profissão docente assumam, conjuntamente, a responsabilidade pela formação das novas gerações de professores.

António Nóvoa

“O que verdadeiramente forma um professor é a reflexão compartilhada sobre a prática” (Foto: Arquivo/Educação)

Também há, nessas políticas, a preocupação com a prática docente, com os estágios, que precisam acontecer de forma efetiva e não burocrática, com a prática iluminando a teoria e vice-versa. Pode comentar a importância da prática na formação docente?

O pior do debate educacional são sempre as falsas dicotomias: teoria ou prática, instrução ou educação, autoridade ou liberdade, conteúdos ou métodos, esforço ou prazer. Elas pouco nos ajudam a pensar. Para lembrar João Guimarães Rosa, o pensamento nasce sempre na terceira margem do rio.

Vou até responder de forma provocativa: a prática, por si só, não tem nenhuma importância para a formação docente. A prática pela prática apenas nos ensina a repetir aquilo que já fazemos. O que verdadeiramente forma um professor é a reflexão compartilhada sobre a prática, alimentada pelo estudo, pela pesquisa e pelo diálogo entre profissionais.

É justamente por isso que considero decisivo o papel dos próprios professores na formação das novas gerações. Enquanto continuarmos a atribuir-lhes um lugar secundário — seja porque a formação inicial permanece excessivamente centrada nas universidades, seja porque a formação continuada é frequentemente capturada por um mercado de cursos e soluções rápidas — dificilmente conseguiremos transformar a formação docente.

Creio que uma nova institucionalidade da formação de professores precisa apoiar-se em três pilares.

O primeiro é o reconhecimento da existência de um conhecimento profissional docente. Durante muito tempo, imaginou-se que ensinar consistia apenas em combinar conhecimentos disciplinares, pedagógicos, didáticos, psicológicos ou sociológicos. Todos são indispensáveis. Mas nenhum deles, isoladamente ou mesmo em conjunto, explica aquilo que é próprio da profissão docente: um conhecimento construído na ação, na reflexão e na partilha entre professores.

O segundo pilar é a responsabilidade da própria profissão pela formação das suas novas gerações. Nenhuma profissão consolidada delega integralmente essa tarefa em instituições externas. Os médicos formam-se com médicos. Os arquitetos com arquitetos. Os engenheiros com engenheiros. Em todas essas profissões, os mais experientes introduzem os mais jovens não apenas em conhecimentos, mas também numa cultura profissional, em critérios de julgamento e em formas de responsabilidade. A docência não pode ser uma exceção.

O terceiro pilar é a presença pública da profissão. Toda profissão possui uma responsabilidade perante a sociedade e deve participar dos grandes debates e das políticas que dizem respeito ao seu campo de atuação. Nas últimas décadas, porém, os professores foram sendo afastados desse espaço. Com demasiada frequência, aparecem apenas como destinatários das políticas educacionais, quando deveriam ser protagonistas da sua construção.

É a partir desses três pilares que podemos pensar uma nova institucionalidade da formação docente. Em termos muito concretos, isso significa criar espaços comuns em que universidade, escola e profissão assumam, conjuntamente, a responsabilidade pela formação dos futuros professores. Alguns chamam esses espaços de terceiros espaços; outros preferem falar em espaços híbridos ou comunidades de formação. A terminologia importa menos do que a realidade que precisamos construir. O essencial é superar a separação tradicional entre universidade e escola e construir um ambiente profissional de formação.

 

Leia: O que se perde ao renomear a profissão docente?

 

O nome da profissão

 

Recentemente, a colunista da revista Educação Débora Vaz escreveu sobre tensões no campo discursivo, alertando para o fato de que renomear a profissão docente pode ser uma cilada. Diferentes nomes ‘modernos’ para a profissão estão vinculados às tecnologias disponíveis. Onde isso pode desembocar?

As palavras nunca são inocentes. Elas carregam consigo maneiras de pensar, visões de mundo, ideologias e projetos de sociedade. Há muitos anos venho chamando a atenção, em conferências realizadas por todo o Brasil, para os riscos dessa tendência de substituir a palavra professor por uma sucessão de denominações que parecem modernas e inovadoras, mas que acabam por fragilizar a identidade da profissão docente.

Não se trata de uma simples questão de linguagem. Quando mudamos o nome de uma profissão, muitas vezes estamos também mudando a forma de compreendê-la. Aos poucos, o professor deixa de ser reconhecido como alguém que possui um conhecimento profissional próprio e uma responsabilidade pública para tornar-se um facilitador, um mediador, um tutor, um mentor ou um animador. Cada uma dessas palavras pode ter sentido em determinados contextos. Mas nenhuma delas exprime a especificidade da docência.

Há alguns anos desenvolvi essa reflexão no livro Professores: Libertar o futuro, publicado em São Paulo pela Diálogos Embalados. Dialogando com Jorge Larrosa, que também tem refletido sobre esse tema, escrevi: “Num dos seus livros mais recentes, Esperando não se sabe o quê: sobre o ofício de professor, Jorge Larrosa apresenta, provocativamente, um exercício sobre ‘o que não é um professor’. A provocação poderia continuar ad infinitum: um professor não é um facilitador; um professor não é um tutor; um professor não é um colaborador; um professor não é um animador… até chegar, inevitavelmente, a uma tautologia: um professor é um professor.”

Fico muito satisfeito ao ver que essa reflexão começa a ganhar espaço no debate educacional brasileiro. Não porque confirme uma posição pessoal, mas porque reafirma algo essencial: preservar o nome professor é preservar a identidade, a dignidade e a responsabilidade pública de uma profissão indispensável para o futuro da educação e da democracia.

 

O Encontro Internacional: António Nóvoa no Colégio Rio Branco acontece dia  3 de agosto, segunda-feira, às 19h30, na Unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco (Avenida Higienópolis, 996 – São Paulo/SP). As inscrições podem ser feitas pelo link abaixo:

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