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Débora Garofalo

Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo

Publicado em 24/08/2026

A inteligência artificial chegou à escola. Mas quem está formando o professor?

A tecnologia avançou mais rápido do que a nossa capacidade de nos preparar para ela. Essa talvez seja uma das maiores questões educacionais do nosso tempo

A inteligência artificial já entrou na escola. Talvez não pelas portas que planejamos, nem pelos projetos pedagógicos que cuidadosamente elaboramos, mas pelas mãos dos estudantes e pelas telas dos professores.

Ela já está sendo usada para pesquisar, escrever textos, preparar aulas, elaborar atividades, criar imagens, organizar informações e tirar dúvidas. A pergunta, portanto, deixou de ser se a inteligência artificial chegará à escola. Ela já chegou. A questão agora é saber se estamos preparados para educar em uma realidade em que as máquinas também produzem respostas.

E existe uma contradição que precisa ser enfrentada: a velocidade de chegada da inteligência artificial é muito maior do que a de formação de professores para utilizá-la pedagogicamente.

A TIC Educação 2024 revelou que 43% dos professores já utilizavam inteligência artificial generativa para preparar conteúdos. Entre os estudantes do ensino médio, o uso era ainda mais expressivo: 70% afirmavam utilizar IA generativa em pesquisas escolares. Entretanto, apenas 32% afirmavam ter recebido orientação da escola sobre o uso dessas tecnologias.

A tecnologia avançou mais rápido do que a nossa capacidade de nos preparar para ela. Essa talvez seja uma das maiores questões educacionais do nosso tempo.

 

Inteligência artificial

A velocidade de chegada da inteligência artificial é muito maior do que a de formação de professores para utilizá-la pedagogicamente (Foto: Shutterstock)

A IA chegou primeiro à sala de aula

Quem está na escola sabe que a discussão não acontece no campo das hipóteses. Ela aparece no cotidiano. Está no aluno que entrega uma redação aparentemente impecável, mas não consegue explicar o argumento que apresentou. Está no professor que recebe trabalhos muito semelhantes, produzidos por diferentes estudantes. Está na dúvida sobre o que foi escrito pelo aluno e o que foi produzido por uma ferramenta. Está também naquele professor que descobriu que pode economizar tempo utilizando IA para criar uma sequência didática, adaptar uma atividade ou organizar um planejamento.

Há, portanto, oportunidades reais.

 

Leia: IA na escola: 70% no médio, 15% e 39% no fundamental

 

A inteligência artificial pode apoiar o professor na elaboração de materiais, na criação de diferentes versões de uma atividade, na organização de informações e na personalização de propostas. Pode ajudar a ampliar as possibilidades e liberar tempo para aquilo que deveria ocupar o centro do trabalho docente: acompanhar os estudantes, fazer perguntas, observar processos, intervir pedagogicamente e construir relações.

Mas há um limite importante: a IA não é uma metodologia. É tecnologia. Uma ferramenta pode gerar uma ótima atividade e, ainda assim, aquela atividade pode ser pedagogicamente inadequada. Pode produzir uma explicação correta e, ao mesmo tempo, ignorar o contexto daquela turma. Pode criar uma avaliação rapidamente, mas não necessariamente avaliar o que realmente queremos que o estudante aprenda. É por isso que o debate não pode ser reduzido a “como usar o ChatGPT” ou qualquer outra ferramenta. A questão é muito maior: qual é a intencionalidade pedagógica por trás do uso da tecnologia?

O professor não precisa saber tudo sobre IA

Existe uma ansiedade compreensível entre os educadores: “Eu preciso dominar inteligência artificial antes dos meus alunos?”

Não.

O professor não precisa conhecer todas as ferramentas que surgem, nem acompanhar cada novidade tecnológica. Isso seria impossível. Ele precisa, porém, compreender os fundamentos que lhe permitam tomar boas decisões pedagógicas. Precisa saber que sistemas de IA podem produzir informações incorretas. Precisa compreender que respostas aparentemente convincentes não são necessariamente verdadeiras. Precisa discutir vieses, privacidade, autoria e proteção de dados. 

Precisa saber quando uma ferramenta pode ampliar a aprendizagem e quando simplesmente substitui uma experiência que deveria ser realizada pelo estudante. E precisa, sobretudo, recuperar uma competência que sempre esteve no centro da docência: fazer boas perguntas. Talvez essa seja uma das grandes mudanças provocadas pela IA.

Quando uma máquina consegue produzir uma resposta em segundos, o valor da escola não está mais apenas em ensinar a encontrar respostas. Está em ensinar a formular problemas, avaliar evidências, comparar perspectivas, argumentar, criar e tomar decisões. Quanto mais fácil fica obter uma resposta, mais importante se torna aprender a perguntar.

 

Leia: Qual o futuro da aprendizagem?

 

A formação docente não pode ser um tutorial

É aqui que as políticas educacionais precisam avançar. O Brasil já começou a estabelecer referências para o uso responsável da inteligência artificial na educação. Em 2026, o MEC publicou um referencial nacional voltado à adoção segura, inclusiva e contextualizada da IA, enquanto o Conselho Nacional de Educação colocou em consulta pública uma proposta de diretrizes para o uso da tecnologia na educação brasileira. É um passo importante. Mas nenhum documento, por melhor que seja, transforma a prática sozinho.

Não adianta regulamentar a inteligência artificial se não formarmos a inteligência pedagógica dos professores para utilizá-la.

E isso exige mudar a lógica da formação continuada.

Não precisamos de formações que ensinem apenas onde clicar, como escrever um prompt ou qual ferramenta utilizar. Precisamos de processos formativos que partam das dores reais da escola.

Como avaliar quando o aluno utiliza IA?

Como propor atividades nas quais a autoria seja preservada?

Como utilizar IA sem ampliar desigualdades?

Como trabalhar com estudantes que já utilizam essas ferramentas, mesmo quando a escola ainda não possui uma política definida?

Como ensinar ética, pensamento crítico e cidadania digital?

Como proteger os dados de crianças e adolescentes?

Como utilizar a tecnologia para ganhar tempo sem transformar o professor em dependente dela?

Essas são perguntas de formação docente.

Começar pela sala de aula

Uma formação consistente poderia começar justamente pelos problemas que os professores já enfrentam. Imagine, por exemplo, uma turma em que grande parte dos estudantes utiliza IA para produzir textos. Em vez de simplesmente proibir, o professor pode transformar o problema em um objeto de aprendizagem. Pode pedir que os estudantes comparem um texto produzido por IA com outro escrito por uma pessoa. Que identifiquem argumentos frágeis. Que verifiquem informações. Que reescrevam um trecho. Que expliquem por que determinada resposta está equivocada.

Nesse processo, a IA deixa de ser uma “máquina que faz a tarefa” e passa a ser objeto de investigação. O mesmo pode acontecer com uma atividade de pesquisa. Em vez de perguntar apenas “Qual é a resposta?”, podemos perguntar: Como você sabe que essa resposta está correta?” Essa mudança é pequena, mas profunda.

Ela desloca a avaliação do produto para o processo.

E talvez essa seja uma das respostas mais importantes que a escola pode oferecer diante da inteligência artificial.

Precisamos de política, não de improviso

Outra dor que aparece no cotidiano escolar é a ausência de critérios comuns. Cada professor decide de uma maneira. Algumas escolas proíbem completamente. Outras permitem sem orientação. Há professores que utilizam IA diariamente e outros que ainda não se sentem seguros sequer para experimentar. Esse cenário gera insegurança para todos.

 

Leia: Luiz Antonio Simas: reencantar o processo de aprendizagem

 

Por isso, as redes de ensino precisam construir políticas claras de uso pedagógico da IA, elaboradas com participação dos professores e atualizadas continuamente. Essas políticas devem responder a questões concretas: o que pode? O que não pode? Em quais situações a IA pode ser utilizada? Como declarar seu uso? Como preservar autoria? Como avaliar? Como proteger dados? Como lidar com estudantes que não têm acesso às mesmas ferramentas? E precisam vir acompanhadas de formação. Não podemos entregar uma regra ao professor sem também entregar as condições para colocá-la em prática.

O investimento mais importante continua sendo humano

Existe uma tentação de imaginar que a resposta à transformação tecnológica da escola está em comprar novas plataformas, contratar ferramentas ou criar laboratórios cada vez mais sofisticados. Mas nenhuma tecnologia substitui uma política consistente de formação docente.

A escola que terá melhores condições de enfrentar a inteligência artificial não será necessariamente a que possui mais ferramentas. Será aquela que possui professores capazes de fazer escolhas pedagógicas conscientes diante delas.

Isso significa investir em formação continuada, mas também em tempo para o planejamento, a colaboração entre professores, o acompanhamento pedagógico e a produção de materiais de apoio.

Significa permitir que o professor experimente, erre, reflita e compartilhe suas descobertas.

Significa reconhecer que aprender a ensinar em uma cultura marcada pela inteligência artificial é um processo, não uma capacitação de quatro horas.

Por isso, o desafio não é preparar professores para competir com máquinas. É preparar professores para utilizar criticamente aquilo que as máquinas podem fazer e, principalmente, para fortalecer aquilo que continua sendo essencialmente humano.

O Brasil já está construindo referências, diretrizes e políticas para a inteligência artificial na educação. O próximo passo precisa ser igualmente estratégico: garantir que cada professor tenha formação, tempo e condições para transformar essas orientações em prática pedagógica.

Porque a inteligência artificial não está esperando a escola se preparar. Ela já está na sala de aula. Agora precisamos garantir que o professor não chegue atrasado a essa transformação.

 

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