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Débora Garofalo

Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo

Publicado em 28/07/2026

O desafio coletivo de reconstruir a educação brasileira

Quando observamos os sistemas educacionais mais bem-sucedidos do mundo, percebemos um elemento comum: a educação é tratada como uma responsabilidade compartilhada

Durante muitos anos, quando os resultados educacionais não correspondiam às expectativas da sociedade, a responsabilidade recaía quase exclusivamente sobre a escola. Se os estudantes apresentavam baixo desempenho, a culpa era da escola. Se havia evasão, a culpa era da escola. Se os jovens demonstravam dificuldades de convivência, de leitura, de escrita ou de pensamento crítico, a culpa novamente recaía sobre a escola e, especialmente, sobre os professores.

Mas será que a escola fracassou sozinha? Essa é uma pergunta que precisamos enfrentar com coragem e honestidade.

A educação brasileira vive um dos momentos mais complexos de sua história. Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) continuam a apontar desafios significativos em leitura, matemática e ciências. Dados recentes mostram que milhões de estudantes apresentam defasagens importantes de aprendizagem, agravadas pelos impactos da pandemia e pelas desigualdades históricas que atravessam o país.

Ao mesmo tempo, as escolas passaram a assumir responsabilidades que vão muito além da aprendizagem acadêmica. Hoje, espera-se que a escola ensine conteúdos curriculares, promova a saúde mental, trabalhe competências socioemocionais, enfrente a violência, desenvolva a cidadania digital, previna o cyberbullying, acolha situações familiares complexas, discuta a diversidade, prepare para o mercado de trabalho e ainda responda aos desafios trazidos pela Inteligência Artificial e pelas novas tecnologias.

 

Educação

“A escola continua sendo uma das instituições mais importantes para a construção de uma sociedade democrática, justa e desenvolvida” (Foto: Shutterstock)

 

Nunca se exigiu tanto da escola! E talvez ela nunca tenha recebido tão pouco apoio proporcional aos desafios que enfrenta. 

A verdade é que a educação é um fenômeno coletivo. Nenhuma escola, por melhor que seja, consegue transformar sozinha uma realidade marcada pela desigualdade social, pela insegurança alimentar, pela exclusão digital, pela ausência de políticas públicas consistentes e pelo enfraquecimento de algumas redes de apoio fundamentais ao desenvolvimento de crianças e jovens.

 

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Quando observamos os sistemas educacionais mais bem-sucedidos do mundo, percebemos um elemento comum: a educação é tratada como uma responsabilidade compartilhada. Família, escola, governo, comunidade, universidades, setor produtivo e sociedade civil atuam de forma articulada em torno de um projeto comum. No Brasil, muitas vezes, ocorre o contrário.

Enquanto a escola tenta responder a problemas cada vez mais complexos, assistimos à fragmentação das responsabilidades. A família transfere demandas para a escola. A sociedade transfere demandas para a escola. As políticas públicas, em muitos contextos, também transferem demandas para a escola. No final, sobra para professores e gestores a tarefa quase impossível de resolver desafios que extrapolam os limites da educação.

Isso não significa eximir a escola de sua responsabilidade. Pelo contrário. A escola continua sendo uma das instituições mais importantes para a construção de uma sociedade democrática, justa e desenvolvida. Mas reconhecer seu papel não significa ignorar os limites do que ela pode fazer sozinha.

Outro aspecto importante diz respeito à velocidade das transformações contemporâneas. Os estudantes que hoje frequentam nossas escolas viverão em um mundo profundamente diferente daquele para o qual a maioria dos sistemas educacionais foi concebida. A Inteligência Artificial, a automação, as mudanças climáticas, as novas formas de trabalho e as transformações culturais exigem competências que vão além da memorização de conteúdos.

Pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, colaboração, ética digital, capacidade de aprender continuamente e inteligência emocional tornaram-se competências essenciais para a vida e o trabalho. No entanto, ainda encontramos escolas organizadas segundo modelos que pouco dialogam com essas demandas.

A solução, entretanto, não está em substituir tudo o que existe, nem em acreditar que a tecnologia resolverá os problemas educacionais. A verdadeira transformação passa pela construção de uma nova cultura de aprendizagem.

 

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Precisamos fortalecer a formação de professores e gestores para lidar com as novas realidades educacionais. Precisamos criar ambientes em que a inovação seja compreendida não como modismo, mas como capacidade de responder aos desafios reais dos estudantes. Precisamos investir em infraestrutura, conectividade, recursos pedagógicos e desenvolvimento profissional contínuo. Mas, acima de tudo, precisamos recuperar o sentido coletivo da educação!

A escola não pode ser vista como uma ilha cercada de problemas por todos os lados. Ela precisa ser reconhecida como parte de uma rede de proteção, desenvolvimento e aprendizagem que envolve diferentes atores sociais.

É necessário aproximar as famílias da vida escolar. Fortalecer parcerias entre escolas, universidades, organizações sociais e setor produtivo. Construir políticas públicas de longo prazo que sobrevivam às mudanças de governo. Garantir condições de trabalho dignas para os profissionais da educação. E, principalmente, ouvir aqueles que vivem a escola todos os dias.

Existe uma geração inteira esperando que os adultos assumam essa responsabilidade. Os estudantes não precisam apenas de currículos modernos ou de novas tecnologias. Precisam de escolas que façam sentido. Precisam de professores valorizados. Precisam de comunidades que acreditem na educação. Precisam de políticas que reduzam as desigualdades e ampliem as oportunidades.

A escola brasileira enfrenta desafios enormes, mas também carrega uma potência extraordinária. Todos os dias, milhões de educadores entram em salas de aula acreditando que a educação continua sendo o caminho mais poderoso para transformar vidas.

Talvez o primeiro passo para reconstruirmos a educação seja justamente abandonar a lógica da culpa e assumir a da corresponsabilidade. Porque a escola não fracassou sozinha. E também não será sozinha que ela encontrará os caminhos para transformar o futuro.

 

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