COLUNA

Coluna

João Jonas Veiga Sobral

Professor de língua portuguesa e orientador educacional

Publicado em 27/08/2026

A escola e o excesso do mundo

Tem ganhado força a suposição de que os conflitos humanos seriam anomalias corrigíveis pela escola — expectativas que não lhe pertencem integralmente. Como se a vida social pudesse ser ajustada por uma instituição específica

No cotidiano das escolas contemporâneas, torna-se cada vez mais visível uma sobreposição de tensões que não se originam nelas, mas que ali se condensam. Agressões entre estudantes — incluindo bullying e conflitos identitários —, desgaste emocional crescente entre professores, conflitos com famílias, dificuldades de convivência e os efeitos da sociabilidade digital formam um conjunto heterogêneo, mas recorrente.

Não se trata de casos isolados, mas de manifestações de um mesmo campo de sobrecarga social. A escola passou a ocupar um lugar singular no imaginário contemporâneo: o da instância capaz de conter, corrigir ou reduzir as múltiplas violências da vida social. Espera-se que medie conflitos, enfrente desigualdades, acolha sofrimentos psíquicos e organize formas cada vez mais instáveis de convivência. Trata-se de uma atribuição que ultrapassa a capacidade de qualquer instituição.

Essa posição se apoia numa suposição recorrente: a de que os conflitos humanos seriam anomalias corrigíveis pela educação. Como se a vida social pudesse ser ajustada por uma instituição específica. O que se observa, porém, é outra dinâmica: tensões não esaparecem quando concentradas institucionalmente; deslocam-se, mudam de forma e retornam sob novas configurações. Em termos diretos, o que a escola enfrenta não é apenas o conflito, mas sua necessária reorganização contínua.

 

Escola

Espera-se que a escola medie conflitos, enfrente desigualdades, acolha sofrimentos psíquicos e organize formas cada vez mais instáveis de convivência (Foto: Shutterstock)

Correção de mundo?

É nesse ponto que a noção de cultura precisa ser explicitada. Cultura não é ornamento nem suplemento formativo. Em sentido rigoroso, designa o conjunto de recursos culturais — instituições, linguagens, narrativas e formas de interpretação — que tornam possível a convivência, apesar da permanência das divergências.

Esses recursos operam em dois registros: o das normas — leis, regras e instituições — e o das formas simbólicas — linguagem, arte, literatura, história e filosofia. Um organiza a vida coletiva; o outro permite compreender, interpretar e elaborar aquilo que excede qualquer organização.

De forma simples, leis regulam o convívio; cultura ajuda a elaborar aquilo que a regulação, sozinha, não consegue resolver. Quando essa função é deslocada, a escola passa a ser tratada como instância de correção do mundo — uma infraestrutura improvisada de contenção do social. Nesse movimento, recebe expectativas que não lhe pertencem integralmente: espera-se que resolva violências que surgem fora dela, mas que ali se tornam intensas e visíveis.

 

Leia: Saúde mental: “Não é papel do educador diagnosticar nada”

 

Esse excesso aparece em espaços marcados por hostilidades persistentes, em episódios de humilhação entre estudantes, em relações pedagógicas tensionadas pelo desgaste e em encontros com famílias marcados por expectativas diferentes e simultâneas de proteção, desempenho e disciplina. 

Também se manifesta no trabalho docente, permeado por exigências crescentes e desgaste emocional acumulado. Muitos educadores reconhecerão aqui uma experiência familiar: a sensação de que tudo chega à escola ao mesmo tempo, sem mediações proporcionais e razoáveis.

Contudo, a escola não apenas recebe essas tensões. Ela também as reorganiza. Ao atravessar regras institucionais, relações pedagógicas e hierarquias próprias, os conflitos se reconfiguram. O que entra não retorna intacto: parte se intensifica, parte se desloca, parte se atenua.

Forma-se assim um circuito instável. O sofrimento circula entre estudantes, alcança professores, reaparece nas interações com as famílias e se expressa nas pressões da gestão. Mas não apenas entre grupos: percorre cada uma dessas posições por dentro, sem origem única e sem direção estável.

Alunos sofrem e também produzem sofrimento. Professores são submetidos a pressões institucionais e muitas vezes também as reproduzem. Famílias chegam com demandas simultâneas de proteção e exigência. Gestores operam sob exigências incompatíveis de acolhimento, eficácia e controle. Por isso, o que parece problema individual ou disciplinar é frequentemente efeito de um circuito mais amplo de tensões sociais.

O viver em sociedade 

Nos últimos anos, esse circuito se intensifica em paralelo ao enfraquecimento dos recursos culturais de elaboração. Quando diminuem os meios pelos quais uma sociedade transforma conflitos em compreensão, sofrimento em experiência compartilhável e agressividade em expressão simbólica, aquilo que não encontra elaboração retorna com maior força sobre instituições como a escola.

 

Leia: Luiz Antonio Simas: reencantar o processo de aprendizagem

 

É claro que leis e instituições continuam organizando a vida coletiva, mas sua capacidade de simbolização do vivido não acompanha a intensidade dos conflitos contemporâneos. Arte, literatura, história e pensamento crítico — formas históricas de elaboração da experiência — tendem a ocupar, infelizmente, um lugar mais periférico ou instrumental. 

Não porque outras agendas sejam menos importantes, mas porque uma sociedade perde parte de sua capacidade de compreender a si mesma quando enfraquece os recursos simbólicos pelos quais interpreta sua experiência. Isso vale também para conflitos centrais do presente — racismo, misoginia, violências identitárias, ambiente digital ou convivência democrática. Todos exigem intervenção educativa. Mas dificilmente podem ser reduzidos à gestão de comportamentos ou à transmissão de informações. Sem recursos culturais capazes de lhes conferir interpretação e significado, tendem a reaparecer sob formas mais imediatas e mais destrutivas.

A escola não está fora da cultura. Ela é um de seus pontos mais expostos: um lugar onde se torna visível o que uma sociedade consegue ou não elaborar de si mesma. Isso impede duas leituras simplificadoras. A primeira é a idealização da escola como solução dos conflitos sociais. A segunda é sua desqualificação como instituição impotente.

Entre ambas, há uma compreensão mais exigente: a escola participa do mesmo tecido de tensões que tenta organizar, sem poder esgotá-las. Talvez a maturidade de uma sociedade não se meça pela eliminação dos conflitos, mas pela forma como consegue organizá-los sem destruir os vínculos que a sustentam.

E com isso, perde-se o essencial: a escola não existe para resolver esse excesso, mas para oferecer formas de elaboração dele. Seu papel é ampliar linguagens, interpretações e recursos simbólicos que tornem a convivência menos destrutiva, mesmo quando o conflito não aparece. 

 

Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica

 

Assista ao nosso podcast:

 

 


Leia mais

Lonely,Sad,Schoolgirl,While,All,Her,Classmates,Ignored,Her.,Social

A escola e o excesso do mundo

+ Mais Informações
Top,Down,View:,Children,In,A,School,Use,Tablets,And

A inteligência artificial chegou à escola. Mas quem está formando o...

+ Mais Informações
The,Child,Learns,English,Letters.,Selective,Focus.,Kid.

Qual o futuro da aprendizagem?

+ Mais Informações
Chaiyaphum,,Thailand,,February,,2019.,There’re,Elementary,Students,Walking,Into,Their

O desafio coletivo de reconstruir a educação brasileira

+ Mais Informações

Mapa do Site