NOTÍCIA
Há um movimento entre educadores e profissionais da escrita que vem recomendando cada vez mais a escrita à mão, na tentativa de reverter o desuso dessa prática, especialmente da escrita cursiva
Em 1977, o economista John Kenneth Galbraith lançou um livro de grande sucesso: A era da incerteza, em que descreve a imprevisibilidade no cenário econômico mundial. Não dá para afirmar que ele se inspirou no ‘princípio da incerteza’, termo cunhado décadas antes pelo físico Werner Heisenberg, mas pode-se arriscar dizer que nenhum dos dois vislumbrou esse cenário dominando, também, os sistemas educacionais. Afinal, o que aconteceu? Enquanto a digitalização crescia, os aparatos tecnológicos das neuropesquisas também se sofisticaram a ponto de revelar o que acontece em nosso cérebro quando digitamos ou escrevemos à mão.
O resultado impressiona e está redirecionando certas ‘verdades’ a respeito do uso exclusivo ou excessivo de dispositivos eletrônicos nos processos educacionais. Sim, está havendo um movimento entre educadores e profissionais da escrita que vem recomendando cada vez mais a escrita manual, na tentativa de reverter o desuso dessa prática, especialmente da escrita cursiva.
Em parte, pelo que as neuroimagens revelam — uma íntima e dinâmica conexão entre mãos e cérebro durante a escrita manual. Tal movimento também se respalda pela observação cotidiana de quem lida com textos, dentro ou fora da escola. Ser alfabetizado e logo entrar na digitação é como não cuidar do alicerce sobre o qual infinitas paredes poderão se erguer.
A neuropsicóloga, psicopedagoga e diretora da Neuroconecte, Adriana Fóz, afirma: “crianças que pulam a etapa manual podem apresentar, de modo geral, maior superficialidade na leitura, dificuldades na ortografia e menor retenção do conteúdo. Isso ocorre, segundo Adriana, porque do ponto de vista neurocognitivo, “a escrita à mão treina um processamento mais profundo do conteúdo, uma ativação multimodal, a memória de longa duração e uma integração sensório-motora, tão importantes no desenvolvimento neuropsicomotor.
Por outro lado, a digitação leva a um processamento mais rápido, a uma ativação do córtex mais restrita — a memória nem sempre chega ao estágio da consolidação (e retenção) e é mais automatizada”. Bem antes das atuais pesquisas, Rudolf Steiner (1861- 1925), educador, filósofo e fundador da antroposofia, já preconizava a relação mão-cérebro. Dizia que “as mãos que trabalham” criam conexões neurais importantes. A pedagogia Waldorf, criada por ele e que se expande até hoje mundo afora, não apoia o intelectualismo precoce, enfatizando a arte e o lúdico.

Na pedagogia Waldorf, o ponto de partida para cada letra se dá por uma história criada pelo docente, diz Cristina Mansberger, professora na Faculdade Rudolf Steiner, em SP (foto: Arquivo pessoal)
Segundo Steiner, as atividades manuais unem o pensamento (planejar o projeto), o sentimento (apreciar as cores/texturas) e a vontade (fazer o esforço físico de criar), promovendo um crescimento integral. O currículo Waldorf tem algumas peculiaridades por vezes incompreendidas, como aulas de tricô e crochê desde cedo, com o intuito de desenvolver, justamente, a coordenação motora fina. Esse é o ponto divisor de águas entre escrita manual e digital — a coordenação motora.
É bom esclarecer que escrita manual não se refere apenas à letra cursiva, aquela em que letras são conectadas de modo que a palavra pode ser escrita sem levantar a caneta. Há também a letra de imprensa, em que as letras são separadas e desenhadas de forma mais simples, similar à escrita de livros e impressos. Um desafio importante ao trabalhar escrita manual relaciona-se à quase total falta de hábito de escrever à mão entre os nativos digitais, que acham entediante e sem sentido essa prática.
Esse distanciamento não é de hoje. “Sinto que há uma certa fadiga quando o ato de escrever se faz manualmente, já que, atualmente, uma boa parte dos alunos tem acesso a meios digitais, como tablet. Os alunos têm preferido os meios eletrônicos pois acreditam que esses sejam mais interessantes e dinâmicos”, considera Luciano Dantas, professor de Língua Portuguesa e Redação, do Colégio Amadeus, em Aracaju, (SE).
Contudo, diz ele, “o texto manuscrito é a forma mais autoral, no sentido de imprimir um caráter mais subjetivo e até mesmo poético. A letra cursiva, simbolicamente, traz muito da personalidade e da forma como o aluno se expressa genuinamente. Isso tem se perdido no espaço, infelizmente, porque a ‘invasão’ dos eletrônicos carrega em si uma mecanização no processo de pensar e elaborar a produção textual”.

Texto manuscrito é mais autoral, imprime caráter mais subjetivo e até mesmo poético, avalia Luciano Dantas, professor do Colégio Amadeus, em Aracaju (foto: Arquivo pessoal)
Antes de desenhar a letra no papel, os alunos Waldorf passam por uma vivência lúdica com o alfabeto. Cristina Mansberger, professora de Alfabetização do curso de Pedagogia da Faculdade Rudolf Steiner (FRS), em São Paulo, explica que, na pedagogia Waldorf, a alfabetização se assemelha ao método global. “Partimos das unidades maiores como texto, frase, palavra, sílaba até as letras. Crianças amam histórias e o ponto de partida para cada letra se dá por uma história criada pelo professor ou professora, que utiliza frases e palavras-chave com a sonoridade das letras a serem trabalhadas.”
Do ponto de vista do letramento, a velocidade da digitação pode até facilitar o registro rápido, mas, segundo Cristina Mansberger, “não garante que a criança esteja, de fato, se apropriando da linguagem escrita como forma de expressão e comunicação. A escrita manual, por exigir maior envolvimento corporal, atenção e planejamento, contribui para que a criança compreenda a escrita como um ato intencional, ligado ao pensamento e à produção de sentido”.
Nas escolas Waldorf, as crianças começam o processo de escrita pela letra de fôrma/bastão maiúscula, depois do desenho de formas (linhas retas e curvas) e muita oralidade, conta a educadora e alfabetizadora Susana Nicolas, coordenadora de pós-graduação em pedagogia Waldorf da FRS. “O foco é no gesto, no traçado bem-formado. Por volta do final do 2º ano e no 3º ano é quando a criança vai aprender a desenhar a letra cursiva. Uma curiosidade é que a caligrafia cursiva é responsável por contribuir para a fluência da criança de maneira mais eficiente que a bastão. O processo da cursiva também começa com o desenho de formas, fazendo movimentos de ondas e laçadas que favorecem um pensar mais conectado e menos fragmentado”, conclui Susana.
Ler e escrever não são inatos. Adriana Fóz explica que “a leitura nasce de um cérebro que já integrou a percepção com a ação, pois aprende a ler quando já faz o ato motor da letra. A escrita é que cria um encaixe entre ver e fazer. A escrita ativa o loop ou exercício grafomotor — uma atividade pedagógica e terapêutica focada no desenvolvimento da coordenação motora fina, essencial para a preparação da escrita”.

“Escrever à mão desacelera, exige mais das redes neurais por envolver múltiplos sistemas”, conta a autora de ‘O cérebro extraordinário’, Adriana Fóz (Foto: Arquivo pessoal)
Em seu mais recente livro, Cérebro extraordinário (ed.Gen Benvirá), ela ensina que o loop grafomotor consiste em traçar linhas contínuas, geralmente curvas, espirais ou laços, sem levantar o lápis do papel, integrando planejamento motor, memória de trabalho e a própria linguagem. Ademais, “escrever à mão desacelera, exige mais das redes neurais por envolver múltiplos sistemas, ativa o foco gerando processamento mais profundo e melhorando a consolidação da memória”.
Evidências confirmam que educadores do mundo inteiro buscam uma fórmula de convívio equilibrado entre o digital e o manual. Lembrando a recente reversão do Efeito Flynn (queda no QI das novas gerações), Cristina acredita que “o papel da escola não é nem resistir de forma negacionista à tecnologia, nem aderir a ela de modo acrítico, mas atuar como um espaço de mediação consciente, formativa e ética do uso do digital”.
Na mesma reflexão caminha o professor Luciano: “Na sala de aula do século 21, ignorar a importância dos eletrônicos é inimaginável. Não permitir que o aluno e a aluna façam uso dessa ferramenta é ir contra a inovação, mas sabemos que a escrita manuscrita não pode, jamais, ser deletada, inclusive, porque os processos de admissão em universidades ainda são feitos por meio da escrita não digitalizada, a exemplo da redação do Enem”.
A visão da neuropsicóloga Adriana também é convergente: “Diante da demanda educacional e dos desafios de hoje, precisamos de ambos os processos. A escola poderá customizar o conhecimento que já temos para aplicar e sempre avaliar para o melhor desenvolvimento integral do estudante. Negligenciar um deles pode gerar consequências negativas”.
A fórmula não está pronta, não será igual para todos, tampouco será imutável, pois, além das incertezas, vivemos tempos líquidos, como bem escreveu Bauman. Uma abordagem na base do ‘isso’ ou ‘aquilo’ é limitar a questão. Um marinheiro diria: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. A própria natureza mostra que o convívio de diferenças não só é possível como pode ser bem fértil — o encontro das águas do Rio Negro e do Rio Solimões é um exemplo. Eles correm lado a lado sem se misturar, dialogando por seis quilômetros entre curvas e marolas. Quando se entendem, nasce o Rio Amazonas, o maior do mundo em volume e extensão. Talvez estejamos na fase das curvas e marolas.
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