COLUNA

Coluna

José Pacheco

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

Publicado em 01/05/2026

Prova é perda de tempo

Fazer prova era como medir a temperatura. O termômetro que registava a febre não fornecia um diagnóstico, nem prescrevia a terapêutica

23 de dezembro de 2045

Não resisto a recuperar uma cartinha escrita, há alguns anos, para falarmos de…avaliação. A pergunta surgiu bem maliciosa: “Na sua escola, não fazem avaliação?” Respondi que fazíamos avaliação, mas que não aplicávamos o instrumento de avaliação ‘prova’, porque a prova pouco ou nada provava.

As ‘provas’ foram prodigamente utilizadas até meados da década de 30, embora os sistemas de ensino que as utilizavam não lograssem melhorar a aprendizagem. Reconhecidas como precários instrumentos, quase inúteis e até mesmo prejudiciais, desapareceram, para dar lugar à avaliação formativa, contínua e sistemática.

A prova não era formativa, nem contínua, nem sistemática. Era perda de tempo e origem de sutis corrupções. Medir não era sinônimo de mais qualidade no ensino.Muitos alunos chegavam ao ensino médio incapazes de fazer uma interpretação de texto, além disso, apenas 15% dos titulares de diploma de Direito conseguiam aprovação no exame da Ordem dos Advogados, mas havia uma crença ingênua nas virtudes das provas.

Um sistema burocratizado impunha estruturas curriculares rígidas e obsoletos modos de organização do trabalho escolar. As escolas exigiam decoreba de ‘piroclásticas’e ‘crivos de Eratóstenes’, que, depois do ‘vômito pedagógico’ numa prova, os alunos esqueceriam.

Para um ensino excludente, uma avaliação seletiva. Confundia-se avaliação com classificação. A reprovação baseada em nota continuava a produzir sucedâneos de desculpabilização curricular, que, como as classes de reforço, excluía e deixava marcas para o resto da vida. A ‘avaliação’ que se fazia nas salas de aula desse tempo era geradora de uma longa lista de absurdos, da qual vos deixo alguns excertos, prescindo de comentário, porque os absurdos falam por si.

 

Leia: A dominação da língua e a língua viva

 

Sabíamos de encobertos e ilegais vestibulinhos, reprodutores de darwinismo social. sabíamos de alunos consumidores de Lexotan antes de cada prova. Tínhamos notícia de perda de bolsas, porque havia alunos que não conseguiam obter ‘boas notas’. Escutámos um político que, solenemente, afirmava que, se não se aplicasse cada vez mais provas, poderíamos “estar a formar analfabetos”, como se a aplicação de mais provas fosse solução para 14 milhões de analfabetos funcionais que a ensinagem produzira.

 

 

Provas

(Foto: Pexels)

Um secretário de Educação obrigou as escolas a colocar na porta da unidade a nota que obtiveram no Índice da Educação Básica (Ideb), expondo os alunos a vexames vetados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Uma secretaria estadual propôs a elaboração de um banco de itens, para que os professores aplicassem provas a cada dois meses. Identificada a necessidade de ‘recuperação’, sugeria que essa ‘recuperação’ fosse feita no contraturno, ou que se paralisassem as aulas durante uma semana para a…’recuperação’ — a educação estava nas mãos de ignorantes autoritários.

A mesma secretaria criou (mais) uma prova padronizada, para aplicar no meio do ano letivo, ‘com o intuito de melhorar o desempenho dos alunos a meio do ano’. Isto é: reestabeleceu-se a ideia do ciclo, sem romper com o modelo seriado. Outra secretaria de Educação confundia progressão continuada com ‘aprovação automática’ e adotava ‘períodos de recuperação trimestral’, insistindo na lógica das classes de ‘reforço’.

Fazer prova era como medir a temperatura. O termômetro que registava a febre não fornecia um diagnóstico, nem prescrevia a terapêutica. Apenas sinalizava o estado febril. A solução não estava no termômetro — a preocupação com o termômetro não fazia baixar a temperatura.

 

Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica

 

Assista ao nosso podcast

 


Leia mais

pexels-this-and-no-internet-25-288559-31155018

Prova é perda de tempo

+ Mais Informações
Cuidar

Quando cuidar do estudante começa por cuidar do professor

+ Mais Informações
Museu da Língua Portuguesa, São Paulo.17.05.2023 - Fotos do Museu da Língua Portuguesa, localizado na Estação da Luz, na região central de São Paulo. Público de estudantes de diversas escolas da cidade de São Paulo.Fotos: Daniel Deák/SPTuris

A dominação da língua e a língua viva

+ Mais Informações
Composite,Photo,Collage,Of,Hands,Hold,Rebellion,Placard,Stop,Bullying

E se o bullying fosse evitável?

+ Mais Informações

Mapa do Site