Professor de língua portuguesa e orientador educacional
Publicado em 24/04/2026
A língua pode ser usada como instrumento de dominação, mas nunca deixa de oferecer a possibilidade de escapar, de criar, de conectar
Há um país que escreve para caber e outro que fala para existir. Entre esses dois, a língua portuguesa no Brasil não se limita a comunicar: ela regula, seleciona, exclui. Quem define o ‘certo’ não organiza apenas frases: organiza lugares de prestígio, permissões e proibições. E, ironicamente, aqueles que apontam deslizes alheios — até alguns do próprio povo — internalizam a dominação, transformando variantes naturais e gírias em “desvios” a serem corrigidos. Manuel Bandeira já avisava: a sintaxe lusitana que tantos imitam é uma máscara de formalidade, não a vida da língua. Em “Evocação do Recife”, ele desmonta a hierarquia com precisão: “língua errada do povo / língua certa do povo”. O erro, ao que parece, não está na fala — mas na régua.
A dominação não desce apenas da elite; ela se infiltra em todos os estratos sociais e se adapta com eficiência. Cada jovem que produz textos inflados, cheios de palavras que mais parecem enfeites de vitrine, acredita estar mostrando erudição. Mas nada comunica. A grandiloquência vazia revela mais ritual de prestígio do que qualquer conteúdo: o “saber” que parece exibir é só verniz. Adoniran Barbosa, em seu samba, trataria isso como simples adequação ao viver, não erro. E a vida, ao contrário do juridiquês acadêmico — esse idioma paralelo que transforma o simples em inacessível — não se mede por dicionário nem por sentenças que impressionam mais do que explicam.
Oswald de Andrade já desmontava esse mecanismo com ironia suficiente para atravessar qualquer formalidade: “Dê-me um cigarro, diz a gramática… / Mas o bom negro e o bom branco… dizem: me dá um cigarro.” A norma ordena; o uso resolve. E resolve sem pedir autorização. O problema nunca foi a clareza — foi quem pode parecer claro sem ser corrigido.
O Museu da Língua Portuguesa valoriza sotaques, gírias, variações e a história viva do português. Ao completar duas décadas de existência, reafirma seu papel de guardião da democracia linguística — reconhecendo que a língua no Brasil é plural, marcada por heranças coloniais, imposições históricas e resistências cotidianas. Celebrar vinte anos de uma instituição que expõe, e não reprime, é um gesto político: mostra que preservar a diversidade linguística é também preservar a liberdade de expressão e a memória cultural.

Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, valoriza sotaques, gírias, variações e a história viva do português (foto: Daniel Deák/ SPTuris)
Mesmo nesse cenário, a língua insiste em escapar do controle. Noel Rosa, em “Não Tem Tradução”, ironiza com precisão: “o samba não tem tradução no idioma francês”. Não é apenas sobre idioma — é sobre inadequação deliberada. Nem tudo deve ser traduzido, nem tudo precisa se adaptar. E ele reforça: “tudo aquilo que o malandro pronuncia… é brasileiro, já passou de português”. A língua viva não pede licença à origem, ignora regras impostas e sobrevive de improviso, cadência e humor.
Caetano Veloso, em “Língua”, radicaliza essa ideia: “minha pátria é minha língua”. E não há submissão aí — há invenção: “quero me dedicar a criar confusões de prosódias”. A língua não é instrumento dócil; é território em disputa, onde poesia, cotidiano e resistência se encontram. O desfecho, quase debochado, reafirma: “deixa que digam, que pensem, que falem”. Ela se movimenta mesmo quando se pretende controlá-la.
A dominação se revela nos detalhes — e nas estruturas. O jovem imita a norma vazia; vendedores ambulantes reproduzem uma sintaxe que não lhes pertence; líderes religiosos filtram símbolos e reorganizam a linguagem conforme doutrinas; a mídia simplifica ou complica de acordo com interesses; políticos alternam entre o popular performático e o tecnicismo opaco. Em todos esses casos, a língua deixa de ser apenas meio: torna-se instrumento de poder. E há um ponto central que sustenta tudo isso: a inacessibilidade como forma de dominação.
O juridiquês não existe por acaso; ele delimita quem entende e quem depende de explicação. Certos discursos religiosos não esclarecem — interpretam por você. A mídia escolhe o que traduz, e o político obscurece propositalmente. Não se trata de comunicar menos; trata-se de controlar mais.
O efeito é corrosivo: norma rígida, vocabulário empolado, traduções parciais, discursos filtrados, heranças coloniais ainda operando — e o povo que improvisa continua marginalizado. Forma-se uma lógica silenciosa e eficiente: quanto menos acessível, mais legítimo; quanto mais direto, mais suspeito. A linguagem vira fronteira. Entender deixa de ser direito e passa a ser privilégio.
Ainda assim, a língua viva resiste. No samba de Adoniran, nas gírias cotidianas, nos versos que recusam domesticação. Como indicava Bandeira, não é a gramática que sustenta a língua — é o uso. Comunicar não é obedecer; é criar, reinventar, aproximar. É também escapar — às vezes discretamente, às vezes com ironia, às vezes com riso.
O Museu da Língua Portuguesa, os compositores, os escritores contemporâneos e todos aqueles que tratam a palavra como prática viva mostram que a língua não é apenas norma, nem apenas herança — é disputa, resistência e invenção. E, mesmo quando se tenta controlá-la por meio da dificuldade, da exclusão ou da formalidade rígida, ela insiste em se refazer na simplicidade, reaparecendo nas gírias, no samba, na ironia do cotidiano. Talvez seja esse o ponto mais incômodo — e mais revelador: a língua pode até ser usada como instrumento de dominação, mas nunca deixa de oferecer, simultaneamente, a possibilidade de escapar, de criar, de conectar.