Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)
Publicado em 20/04/2026
Intervenção socioemocional em escolas públicas de uma cidade do Nordeste resultou em redução relativa de cerca de 45% nos relatos de bullying
Por Ana Carla Crispim* | Em abril, quando se marca o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, o debate sobre convivência escolar ganha ainda mais visibilidade. Em meio a esse contexto, evidências recentes ajudam a deslocar a discussão do diagnóstico para a ação. Em apenas um ano, uma intervenção socioemocional implementada em escolas públicas de uma cidade do Nordeste resultou em redução relativa de cerca de 45% nos relatos de bullying entre estudantes do 6º ano, em comparação com estudantes do mesmo ano escolar avaliados anteriormente.
Esse dado aponta para algo extremamente relevante: o bullying não é um fenômeno inevitável, ele pode ser prevenido e reduzido quando decisões educacionais são orientadas por evidências. Mas o que, exatamente, mudou nas escolas para que esse resultado fosse possível?
O achado relatado parte de um estudo de campo que contou com a implementação da solução Diálogos Socioemocionais como intervenção para o desenvolvimento de competências como respeito, empatia e confiança. Participaram mais de 4 mil estudantes, distribuídos entre um grupo que participou do Diálogos Socioemocionais, com cerca de 1.800 alunos, e um grupo de comparação avaliado anteriormente na mesma rede escolar.
A implementação envolveu a comunidade escolar como um todo, contou com formação das equipes, conscientização sobre o desenvolvimento socioemocional e integração de práticas e metodologias ativas ao currículo, à rotina e uso de avaliações formativas. Após a intervenção, foi observado um avanço consistente na forma como os estudantes se relacionam.
Na prática, estudantes passaram a se aproximar de níveis mais elevados de respeito, cooperação e consideração pelo outro. Do ponto de vista estatístico e educacional, um avanço significativo, e que acompanha o padrão observado em intervenções socioemocionais ao redor do mundo, conforme a meta-análise da pesquisadora Christina Cipriano e colegas (2023).
Esse efeito não ficou restrito a um grupo específico de estudantes. Tanto meninas quanto meninos se beneficiaram da intervenção, ainda que enfrentem desafios desenvolvimentais distintos ao longo da adolescência. Enquanto meninas frequentemente lidam com questões relacionadas à autoestima e regulação emocional, meninos tendem a enfrentar maiores desafios associados à organização e ao controle de impulsos e responsabilidades. Em ambos os casos, o fortalecimento de relações de apoio entre pares se mostrou um elemento-chave, favorecendo a construção de vínculos mais seguros e redes de suporte que contribuem para processos de corregulação emocional.
O mesmo padrão também se repetiu entre estudantes de diferentes contextos socioeconômicos. A intervenção apresentou efeitos positivos tanto entre estudantes em contextos socioeconômicos mais favorecidos quanto entre aqueles em situação de maior vulnerabilidade, indicando seu potencial de adaptação e impacto em diferentes realidades educacionais. Esse tipo de progresso não é trivial: ele se traduz em menos espaço para violências e mais espaço para a aprendizagem.
Achados como estes dialogam diretamente com o que a literatura científica tem mostrado sobre como o bullying se estabelece e se mantém e, principalmente, sobre como pode ser reduzido. Estudos ao redor do mundo ajudam a entender que a redução do bullying que, na prática, envolve situações repetidas de agressão ou humilhação entre estudantes, depende de um conjunto de ações: desde a conscientização de toda a comunidade escolar e familiar, passando por uma gestão clara de encaminhamentos e pela criação de espaços de escuta ativa, até o desenvolvimento de atitudes empáticas e responsáveis entre todos. Mas não só. Também é fundamental que os estudantes se percebam como agentes capazes de intervir nas situações que presenciam.

O bullying não é um fenômeno inevitável, ele pode ser prevenido e reduzido quando decisões educacionais são orientadas por evidências (foto: Shutterstock)
Isso envolve a construção coletiva de uma compreensão sobre o bullying e a violência, bem como formas de agir diante destas situações, o que passa pelo desenvolvimento de competências socioemocionais. Ou seja, é necessário que eles tenham e desenvolvam recursos para prevenir e/ou lidar com esses eventos, algo que pode ser construído no contexto escolar.
É justamente nesse ponto que entra a importância de uma abordagem sistêmica para construir um ambiente seguro. Desenvolver essas competências também não depende de uma ação isolada, mas de um conjunto articulado de políticas públicas e ações consequentes que envolvem todo ecossistema educacional e dialogam com os desafios reais vividos no cotidiano.
Na prática, isso significa mobilizar e formar educadores e demais profissionais da escola, em diálogo com diretrizes e políticas educacionais, em torno da relevância do desenvolvimento integral dos estudantes, e, a partir disso, promover ações que estruturam o desenvolvimento das competências ao longo do tempo, engajam os estudantes de forma intencional e deixam claros os objetivos e as expectativas de aprendizagem. É esse conjunto estruturado e sustentado que cria as condições para que os estudantes desenvolvam e coloquem em prática essas habilidades.
Neste contexto, as evidências deixam uma mensagem clara: reduzir o bullying é possível. No entanto, exige foco, intencionalidade e investimento em estratégias que desenvolvam competências e ampliem a capacidade de ação dos estudantes e da comunidade escolar de forma articulada. Agora, a pergunta é: como usaremos isso, de forma concreta, para transformar o dia a dia nas escolas?
*Ana Carla Crispim é gerente de pesquisa no Instituto Ayrton Senna e membra do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto