NOTÍCIA
Um dos primeiros estudos realizados em larga escala no país representa um marco para o debate sobre o ensino e a aprendizagem de crianças na pré-escola
Por Fausto Augusto Junior* | Após quatro anos de trabalho, em uma iniciativa que reuniu pesquisadores de diferentes universidades brasileiras e uma coalizão de instituições preocupadas com a questão da primeira infância no Brasil, foi publicado o documento ‘Aprendizagem, Bem-Estar e Desigualdade na Primeira Infância em Três Estados Brasileiros’. O estudo, um dos primeiros em larga escala realizados no país, representa um marco para o debate sobre o ensino e a aprendizagem de crianças na pré-escola.
A pesquisa avaliou habilidades em literacia e numeracia, bem-estar socioemocional e aspectos relacionados à aprendizagem e ao brincar. Esta é a primeira edição realizada no Brasil. Antes, o levantamento já havia sido aplicado em países como Inglaterra, Estônia, Estados Unidos, Holanda, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Bélgica e República Tcheca.
Resultado de uma parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o estudo foi desenvolvido no Brasil com a participação da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, do SESI, da Fundação Itaú e de outras instituições, no âmbito do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS).
Antes de refletir um pouco mais sobre os números, é preciso reconhecer os avanços alcançados pelo Brasil nas últimas décadas, que tornam possível discutir escola, aprendizagem e infância em outro patamar. Nos últimos 30 anos, o país reduziu de forma expressiva a mortalidade infantil, de 47,1 óbitos por mil nascidos vivos em 1990 para 12,4 em 2022, segundo dados do IBGE e do Unicef. Também ampliou o acesso à escola para perto da universalização e voltou a sair do Mapa da Fome, conforme relatório da FAO referente ao triênio 2022-2024.
Trata-se de um marco civilizatório sem precedentes e que não pode ser desconsiderado. O país, que antes dividia as discussões sobre educação entre mecanismo de garantia de segurança alimentar e inclusão escolar, agora pode focar na qualidade educacional.
Para isso, os dados da pesquisa precisam ser observados com cuidado. O estudo acompanhou 2.598 crianças de 210 escolas dos estados de Ceará, Pará e São Paulo, tendo o diálogo com os profissionais de educação e com mães, pais e responsáveis que interagem diariamente com esses estudantes como parte da metodologia. A partir daí, traçaram-se parâmetros que poderão nortear os próximos movimentos.
Entre outros, os dados apontam desempenho baixo em numeracia e um pouco acima da média em literacia em relação aos demais países pesquisados. Salta aos olhos a presença cada vez maior das telas no dia a dia das crianças, acompanhada de um contato ainda limitado com a leitura nos primeiros anos de vida. Enquanto mais de 50% das crianças analisadas têm contato regular com telas de tablets e celulares, menos de 15% são apresentadas à leitura por suas famílias de forma frequente.

“Apesar de mais telas e menos leitura, o desenvolvimento em literacia está acima da média, enquanto o de numeracia está abaixo. Como melhor avaliar isso?, questiona o autor (Foto: Everton Amaro)
A leitura desses resultados, entretanto, exige cuidado, especialmente em comparações com outros países. Realidades educacionais, sociais e culturais distintas não devem ser hierarquizadas de forma simplista. O desafio é identificar problemas e definir estratégias sem importar soluções prontas, aproximando as práticas de aprendizagem dos costumes, das experiências e das tradições de cada território.
Apesar de mais telas e menos leitura, o desenvolvimento em literacia está acima da média, enquanto o de numeracia está abaixo. Como melhor avaliar isso? É preciso entender, antes de tudo, como é que as diferentes culturas constroem os seus conhecimentos. Escapar de fórmulas únicas e pretensamente universalizantes e optar pelas práticas cotidianas, pelos hábitos locais, pelas vivências que estão presentes em cada localidade.
É essencial, portanto, compreender as práticas culturais e as ferramentas presentes nessa realidade para construir pontes entre a família e a educação escolar, recolocar no centro da infância as experiências do mundo físico, da convivência, da escuta e do fazer, em que a criança aprende a experimentar, imaginar e transformar abstrações em vivências significativas, ampliando suas possibilidades de compreender o mundo e ir mais longe.
Essas experiências estão nas práticas mais cotidianas, nos encontros de sábado, nas conversas familiares de domingo em torno da mesa e da cozinha, nas histórias que atravessam gerações e mobilizam uma tradição oral brasileira, com impacto direto na linguagem da criança. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer como a interação dessa mesma criança com a família no preparo dos alimentos pode ressignificar a cozinha como espaço potente de aprendizagem matemática.
Nesta fase, as interlocuções, as músicas, as rodas de conversa e as atividades em grupo constituem etapas importantes do desenvolvimento cognitivo. Esse olhar atento é importante também para interpretar a relação das famílias brasileiras com as telas. Antes de responsabilizar individualmente as famílias — que, segundo o Censo 2022 do IBGE, somam cerca de 10,3 milhões de lares chefiados por mães solo sem cônjuge —, é preciso considerar a realidade de uma mãe que não tem o hábito da leitura, sendo ela a única referência da criança.
Fato esse que sugere um dilema para a educação infantil: como ampliar, desde cedo, experiências familiares cotidianas que aproximem as crianças de noções de linguagem e matemática em um mundo com cada vez menos tempo para a vida fora do trabalho?
O caminho talvez passe, em grande medida, pelo reconhecimento do microcosmo de cada território, de suas formas próprias de sociabilidade e de suas práticas culturais, nas formas de valorizar cada pequeno momento do vivido.
Tem-se assim nesses resultados um ponto de partida interessante para análise da primeira infância em que a família e a comunidade desempenham um papel relevante na construção das aprendizagens pesquisadas, cabendo à escola contribuir nesse processo.
O desafio, que não é pequeno, é compreender como o Estado e as políticas públicas podem atuar para aproximar a escola das práticas familiares cotidianas, sem apagar os saberes que já circulam nas casas, nas cozinhas, nas conversas e nas redes de cuidado.
* Fausto Augusto Junior é professor, mestre e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).