NOTÍCIA
Espalham-se pelo país projetos de iniciação científica no ensino médio que revolucionam a forma como alunos se relacionam com o conhecimento, em parcerias ainda incipientes entre escolas e instituições de pesquisa
O professor de biologia Galileu da Silva Pires sofria com a falta de acolhimento e apoio às alunas que muitas vezes tinham sua primeira menstruação durante as aulas ou mesmo no trajeto dos barcos que fazem o transporte escolar na Amazônia, ficando envergonhadas e alvo dos comentários dos colegas. Assim nasceu o projeto Jaci, em Manacapuru (AM), para orientar e apoiar as adolescentes vítimas da pobreza menstrual, com palestras, rodas de debate e outras ações educativas envolvendo os alunos e alunas do ensino médio. E poderia ter terminado assim mesmo, como uma bela iniciativa em que a educação encontra sentido na transformação da vida real dos alunos. Mas era apenas o primeiro passo.

O amazonense projeto Jaci fez o professor de escola pública Galileu da Silva Pires concorrer ao ‘Nobel’ da Educação (Foto: Arquivo pessoal)
Ao longo dos meses seguintes, com a participação de quatro alunas do 1º ano do ensino médio, nasceram projetos científicos surpreendentes até mesmo para Galileu, professor que, ao chegar à escola, há 10 anos, teve de recuperar o laboratório, limpando e lavando o espaço. Suas alunas da Escola Estadual José Mota idealizaram e prototiparam inéditos absorventes, dotados de uma fita reagente que permite monitorar a saúde, e ainda um dispenser automatizado para recolhê-los.

Aluna de Galileu, Geimile Gabriel atua hoje em pesquisas de aparelho
auditivo bucal e filtragem de água (Foto: Arquivo pessoal)
A turma de Galileu não parou por aí. Nesse momento, Geimile Gabriel Magalhães Garcia, 17 anos, cria sites e aplicativos para o Projeto Jaci e atua em novas iniciativas, como o Fala Comigo — aparelho auditivo bucal que pode ser usado até por crianças pequenas, sem necessidade de implante, por meio de uma chupeta —, e o ArapaimAtivo, que parte da ossada do peixe pirarucu para produzir biocarvão para filtrar a água.
“Eu contribuo como pesquisadora, ajudando na construção de ideias e no aprimoramento do projeto”, diz Geimile. “Essas pesquisas vão me ajudar muito futuramente por serem projetos maravilhosos”, acredita.

Por conta do projeto Jaci, que combate a pobreza menstrual, a estudante de escola pública Sophia Batista sonha com bolsa internacional (Foto: Arquivo pessoal)
Da mesma forma, sua colega Sophia Batista sonha com uma bolsa internacional para um dia se tornar uma grande profissional da tecnologia, em centros internacionais de inovação. “Por meio desses projetos estou construindo o caminho necessário para alcançar os meus objetivos.”
O Projeto Jaci foi finalista em dois prêmios nacionais — a Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente (2024) e o Solve for Tomorrow Brasil, promovido pela Samsung no mesmo ano. Levou ainda Galileu a Paris, para um evento de inovação social, e o colocou entre os Top 50 do Global Teacher Prize, considerado o ‘Nobel’ da Educação.
O professor vê, assim, um movimento transformador em curso — não apenas para os alunos, mas com impacto em toda a comunidade. Na base de tudo estão projetos em que a ciência e a educação formam uma dupla inseparável. “Hoje, a iniciação cientifica vem estimulando alunos e professores a se engajarem em novos projetos”, comemora Galileu, que só contou com os laboratórios da escola, mas ainda não perdeu a esperança de encontrar uma parceria com a universidade.
Projetos de iniciação científica com pesquisadores de todas as idades têm ganhado espaço pelo país. Prova desse movimento é a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), uma das principais mostras brasileiras de projetos científicos de escolas de educação básica. Promovida pela Escola Politécnica da USP e realizada pelo Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico (LSI-TEC), a Febrace reuniu quase 300 projetos finalistas na edição 2026 — que se somam a quase 7,2 mil apresentados desde a primeira edição, em 2003.
O objetivo da Febrace representa princípios que estão na raiz dos sonhos de um país que almeja ser desenvolvido e socialmente justo: trata-se de estimular o interesse em ciências e engenharia por jovens da educação básica, engajar professores na inovação curricular e aproximar as escolas das universidades, por meio do contato entre os estudantes e professores com a comunidade universitária. Quando a universidade consegue conversar com as escolas, metade do caminho está pavimentado.
As escolas querem, os jovens adoram, e as universidades? Para estimular as universidades a se abrirem para essa possibilidade, o CNPq criou, em 2010, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio, o PIBIC EM. Com duração de 12 meses e ciclos de três anos, o programa dá bolsas a alunos para projetos de iniciação científica em cooperação entre as universidades federais, institutos tecnológicos e escolas.
Atualmente, há 5.600 bolsas concedidas a jovens do ensino médio. Mas, por conta própria, algumas instituições vêm ampliando a oferta de oportunidades — como é o caso da Universidade Federal do Pará (UFPA), que desde 2021 complementa as bolsas do CNPq com recursos próprios, adicionando mais 60 bolsas às 20 já oferecidas pelo órgão federal.
Da mesma forma, em 2021, foram implementadas bolsas de ação afirmativa na iniciação científica, para ampliar a presença da juventude negra e indígena. A iniciativa é um dos orgulhos da gestão do reitor Gilmar Pereira da Silva. Doutor em Educação, Gilmar foi operário da construção civil e concluiu o ensino médio supletivo. Hoje, aposta na educação para transformar a vida de jovens da educação básica. ”No Brasil, não há essa cultura de diálogo entre instituições universitárias e escolas. Aqui na UFPA, temos a maior escola de aplicação do Brasil, desde a educação infantil, atuamos muito na formação de professores e assim temos diálogo permanente com a rede de ensino”, diz o reitor.

No geral, falta diálogo entre universidades e escola, reconhece o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, que tem quebrado essa falta de proximidade (Foto: Divulgação)
A UFPA investe também na diversidade — 70% dos alunos são negros, pardos, indígenas e quilombolas, segundo o reitor. “É uma universidade que vem se reinventando, e a ação afirmativa tem por objetivo que os jovens vejam na universidade um espaço possível, em que possam ser acolhidos e onde todos têm os mesmos direitos que as demais populações e classes sociais”, avalia o reitor.
Universidades estaduais também vêm aderindo ao programa de bolsas e ampliando o seu alcance, como a Universidade de São Paulo (USP). Logo que soube do programa de bolsa para iniciação científica, a psicóloga Andréia de Conto Garbin, da Faculdade de Saúde Pública da USP, quis participar. Recém-chegada ao quadro da universidade e com uma história de vida ligada à educação, inclusive na Educação de Jovens e Adultos, Andréia viu no programa de bolsas a oportunidade de contribuir para aproximar alunos e alunas do universo das ciências.
Agora, orienta dois alunos — Maria Clara e Carlos, de escolas da Baixada Santista – em uma pesquisa sobre as produções acadêmicas relacionadas à saúde do trabalhador desde 1990. Andréia nota com clareza o impacto da iniciação científica nos jovens, que agora abrem os olhos para a universidade e veem pela primeira vez na pesquisa um possível projeto de vida.
Mas, ao mesmo tempo que mostra a potência dos projetos, a trajetória de Andréia é exemplo dos desafios vividos pela difusão científica. Não bastam bolsas (que apenas os alunos recebem, diga-se), é preciso um ecossistema funcionando para que tudo não dependa da boa vontade de quem adere à causa.
Em primeiro lugar, porque não há tantos professores na universidade dispostos a acrescentar em sua jornada diária, já sobrecarregada, a orientação de jovens alunos de escolas públicas. “Todos nós estamos com sobrecarga, são muitas demandas de projetos grandes, parcerias internacionais, interinstitucionais, que envolvem reuniões, conversas, horários…”, compartilha a pesquisadora. “Nas escolas públicas parceiras, acontece o mesmo, não está fácil, por isso nossas reuniões são feitas à noite”, diz.
Além disso, é preciso encontrar escolas interessadas para, então, chegar aos alunos. Andréia fez o percurso todo: candidatar-se ao programa, buscar escolas interessadas, conversar com diretores e professores, para então construir uma ponte até os alunos.
“Consegui dois alunos e duas professoras”, orgulha-se.
O desafio não termina aí: é preciso encontrar tempo em todas as agendas. E, por isso, os encontros semanais acontecem muitas vezes virtualmente, entremeadas por visitas à universidade para que os jovens conheçam os departamentos, seus laboratórios e conversem com os demais pesquisadores.
O esforço compensa. “Os alunos mostram um potencial incrível”, alegra-se. Andréia comemorou quando um dos seus orientandos se interessou por um livro que viu na universidade e, assim, fez questão de fazê-lo chegar à sua casa. Em breve, o trabalho dos jovens será apresentado em um evento, na Faculdade de Saúde Pública da USP, da qual participarão como autores. Haja orgulho.
Onde há recursos, estrutura, professores com tempo para se dedicar aos projetos, parceria com universidades, o céu é o limite. Esse é caso do programa Cientista Aprendiz, realizado há 20 anos pelo Colégio Dante Alighieri, em São Paulo.
Envolvendo mais de 200 alunos do 4º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, o projeto só cresce. São inúmeros os casos de pesquisas que geraram patentes, premiações internacionais e mesmo projetos de vida de novos empreendedores e cientistas.

Professor do Colégio Dante Alighieri, SP, Wayner de Souza Klen com o ex-aluno Heitor Santos Garcia, autor do ELPIS: criação de robôs para localização de vítimas em incêndios urbanos (Foto: Divulgação)
A diretora Valdenice Minatel chama a atenção para uma das características mais importantes do programa — a sua longevidade. “Infelizmente, há muitas iniciativas que são voo de galinha, pois esbarram na necessidade de investimentos e na prioridade curricular”, lembra.
No caso do Dante, a iniciação científica tem um lugar central. “Consideramos a base estruturante de uma educação de excelência”, diz Valdenice, que ressalta a importância de se colocar os alunos frente a problemas complexos e reais. “Eles aprendem a fazer ciência, o que envolve ler, reler, testar, errar, refazer, registrar”, destaca.
Recentemente, o Dante comemorou mais um prêmio na Febrace e também a participação em um evento em Taiwan, em que duas alunas apresentaram pesquisas sobre a glândula do Timo, desenvolvidas em parceria com o Instituto Fiocruz, um dos mais importantes centros de pesquisa do país. Além da Fiocruz, são parceiros o Instituto Butantan e algumas das principais universidades paulistas.
O colégio não apenas participa das principais mostras nacionais e internacionais, como tem seu próprio evento — a Feira de Ciência e Tecnologia das Nações do Colégio Dante Alighieri, aberta a outras escolas públicas e privadas. No evento de três dias que acontecerá em setembro, estão previstos 135 projetos finalistas, com 500 participantes. O público chega a 3 mil pessoas, que vêm de várias partes do país. “Mais do que fazer, precisamos publicizar o que é feito, para que a ciência chegue à ponta, não fique no laboratório”, conclui Valdenice.
Chave de ouro
Em alguns casos, a escala dos projetos de iniciação científica envolve muitas escolas. É o caso da Rede Bom Jesus, no Paraná. São 58 colégios da rede, além de sete escolas públicas convidadas. Criado em 2012, o Programa de Iniciação Científica do Bom Jesus nasceu com a visão de antecipar uma etapa que, normalmente, só ocorreria na faculdade. “Hoje, a iniciação científica é a chave de ouro para quem busca universidades no exterior. É o diferencial que transforma um estudante em um cidadão global. Funciona como um convite ao mundo da descoberta”, diz o professor Adalberto Scortegagna, coordenador do projeto.

“Iniciação científica é a chave de ouro para quem busca universidades no exterior”, afirma o educador Adalberto Scortegagna, da Rede Bom Jesus, no PR (Foto: Divulgação)
Algumas pesquisas são desenvolvidas ao longo de três a quatro anos — que podem até mesmo continuar na universidade. “O foco é a autonomia: os alunos dedicam tempo extra semanal para se transformarem em jovens pesquisadores, desenvolvendo competências que unem teoria e prática desde cedo”, diz Adalberto.
A figura dos professores orientadores sempre é fundamental. No caso do Bom Jesus, o foco da orientação é a metodologia científica. “Muitas vezes, o professor não precisa ser um especialista na área de pesquisa do aluno”, explica. Além disso, os jovens cientistas também podem contar com as parcerias formais estabelecidas com universidades, como a Universidade Federal do Paraná.
O Bom Jesus também faz suas feiras de iniciação científica: são três edições, conforme as etapas de ensino, em outubro. Na última edição, participaram 697 jovens pesquisadores, com 419 trabalhos apresentados.