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Cultura Oceânica

Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula

Publicado em 21/05/2026

Por que a merenda escolar pode ensinar mais sobre o oceano do que uma aula de geografia?

Incorporar o pescado, dos rios e do oceano, na merenda escolar pode ser um bom caminho para fortalecer a chamada Cultura Oceânica

 

Por Ana Vitória Tereza de Magalhães*| Você se lembra do que comia na época da escola? Qual era a merenda que fazia parte do seu dia a dia como estudante? E, mais importante: de onde vinha esse alimento?

À primeira vista, essas perguntas podem parecer irrelevantes. Muitos de nós crescemos com cantinas escolares onde, até meados dos anos 80 e 90, havia de tudo: salgadinhos ultraprocessados em embalagens coloridas até quitutes fritos como coxinhas, risoles e pastéis, itens que, em muitas escolas, formavam longas filas. Sem esquecer do famoso refrigerante.

De lá para cá, muita coisa mudou no mundo da alimentação oferecida nas escolas. O ano de 2009 foi o marco crucial para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no Brasil, que estabeleceu novas diretrizes, incluindo a obrigatoriedade da presença de nutricionistas, foco na compra de alimentos da agricultura familiar e a prioridade para alimentos in natura ou minimamente processados.

O fato é que alimentação na escola é tema que gera longas discussões e incontáveis debates nas reuniões com pais. Mas, afinal, por que o que se come na escola gera tanto burburinho? E por que é um início de discussão sobre sustentabilidade?

Na verdade, a alimentação vai muito além da comida em si.

É na hora de comer que nos atualizamos, conversamos e socializamos. É o momento do “recreio”, que os alunos têm para despressurizar, para fazer uma pausa e para cultivar seu círculo próximo de amigos. 

 

Merenda escolar

A merenda escolar pode ser, ao mesmo tempo, uma estratégia de saúde pública, desenvolvimento local e educação ambiental, conectando, de forma concreta, o prato dos alunos ao oceano (Foto: Shutterstock)

 

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Por este motivo, a cantina escolar, em muitos cantos do mundo, tem se tornado um espaço reformulado, e isso passa até pelo uso de um novo nome, com muitas instituições renovando o espaço com o nome “restaurante”. Isso porque o local vai além do consumo de alimentos, mas é, por muitos cientistas da educação, considerado como um espaço de troca e aprendizagem social, assim como uma oportunidade educativa estendida, tão importante quanto uma disciplina aprendida na sala de aula. 

Também aqui, o oceano

Muitas famílias enfrentam dificuldades para incluir peixe na alimentação das crianças, principalmente por causa do incômodo com as espinhas quando o alimento não está bem triturado ou cortado. É nesse ponto que a escola pode desempenhar o importante papel de introduzir o alimento desde cedo, ajudando a quebrar preconceitos, diversificar o paladar e valorizar atividades essenciais como a pesca e a aquicultura.

Paradoxalmente, o peixe está entre os alimentos mais desperdiçados no ambiente escolar. Isso se deve a uma combinação de fatores: desafios logísticos, dificuldade na aquisição de peixe fresco, baixa aceitação por parte dos alunos e, em alguns casos, falta de preparo adequado das equipes de cozinha, que sequer sabem cozinhar certas espécies, especialmente em regiões afastadas do litoral. 

Mas esses desafios também representam oportunidades. Incorporar o pescado, tanto dos rios, quanto do oceano, de forma consciente na merenda escolar pode ser um bom caminho para fortalecer a chamada Cultura Oceânica, aproximando os estudantes dos sistemas alimentares aquáticos e da importância da sua conservação.

Nesse sentido, políticas públicas recentes apontam avanços importantes. Em 2025, o Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e o Ministério da Pesca e Aquicultura, firmou um acordo de cooperação técnica para ampliar a presença de pescado na alimentação escolar. 

 

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A iniciativa busca não apenas aumentar a oferta e o consumo de peixe de qualidade, mas também capacitar pescadores artesanais e produtores da aquicultura familiar, além de formar gestores, nutricionistas, merendeiras e conselheiros de alimentação escolar.

Unida com o esforço do Ministério da Educação, no âmbito do Currículo Azul, de mesclar o tema do oceano nos conteúdos educacionais, a iniciativa reforça que a alimentação escolar pode ser, ao mesmo tempo, uma estratégia de saúde pública, desenvolvimento local e educação ambiental, conectando, de forma concreta, o prato dos alunos ao oceano.

Alimentação no currículo escolar

O preparo das refeições também pode ser incorporado de forma ampla ao currículo escolar. Em 2018, tive a oportunidade de visitar a Green School Bali, uma escola internacional localizada às margens do rio Ayung, em Badung, na ilha de Bali, na Indonésia. Premiada entre as “Melhores Escolas Verdes” de 2021 e classificada no Top 10 do prêmio de Melhor Escola do Mundo em Ação Ambiental, a instituição é um exemplo prático de como alinhar alimentação e aprendizagem.

Tudo começa na horta, onde os alunos compreendem, na prática, de onde vem o alimento. Nos arredores da escola, cultiva-se um pouco de tudo: batata, cenoura, tomate, alface, rabanete, além de frutas, legumes e hortaliças locais da região. São os próprios alunos que cuidam desse espaço, plantam, regam, acompanham o crescimento e fazem a colheita.

O que é produzido segue diretamente para a cantina e se transforma nas refeições servidas. Nesse processo, o aluno aprende biologia: observa os brotos, compara espécies, entende ciclos de crescimento, sazonalidade, relações entre solo e raízes, fixação de nitrogênio e até conceitos como a Fotossíntese. Tudo isso deixa de ser abstrato e passa a fazer parte do cotidiano. 

 

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É um ensino que não tem nada de distante da realidade. Uma horta escolar pode ser implementada em diferentes contextos. Onde não há terra disponível, é possível recorrer à hidroponia, que é o cultivo de plantas na água. Experimentos simples, como o tradicional cultivo do feijão no algodãozinho ou a germinação de uma semente de abacate em água, já abrem portas para discussões mais amplas, desde a alimentação do futuro até o uso eficiente de recursos e o cultivo em espaços reduzidos.

Essas práticas também criam conexões diretas com os sistemas da água, fundamentais para a vida e para a produção de alimentos. E é justamente aí que surge uma ponte natural com o oceano: compreender ciclos, fluxos e interdependências ajuda a perceber que o que acontece na terra não está isolado do ambiente marinho. E aqui também abrimos portas para discutir alimentos do futuro, o papel do oceano na alimentação e as comidas inovadoras e ricas em proteínas, como as algas. 

Alimentos do oceano: revisados

O Brasil é o maior consumidor de carne de tubarão do mundo, embora grande parte desse consumo aconteça de forma disfarçada, sob o nome “cação”, um termo genérico que oculta a verdadeira origem do produto.

Do ponto de vista da saúde, a carne de tubarão está entre as que apresentam maiores concentrações de metilmercúrio encontradas em peixes. Trata-se de uma neurotoxina potente, que não é eliminada pelo cozimento e pode causar danos cerebrais permanentes, perda de memória e problemas no desenvolvimento de fetos e crianças.

Há também a questão ambiental. A pesca de tubarões contribui diretamente para o declínio das suas populações em todo o mundo, incluindo espécies já ameaçadas de extinção. Em outras palavras, trata-se de uma prática claramente insustentável que afeta várias outras espécies no meio ambiente marinho.

 

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Tanto é assim que diversos países e territórios adotaram medidas rigorosas para proteger os tubarões. A Polinésia Francesa, por exemplo, proibiu desde 2006 a pesca e o comércio de todas as espécies de tubarão. Já as Ilhas Marshall estabeleceram um vasto santuário marinho, vetando a pesca comercial desses animais.

Diante desse cenário, o consumo de “cação” deixa de ser apenas uma escolha alimentar e passa a envolver questões de saúde pública, transparência e preservação ambiental. Uma investigação da Mongabay, em 2025, revelou a existência de diversos contratos de instituições públicas relacionados com a compra de carne de tubarão para escolas e hospitais. Isso evidencia que ainda há um longo caminho a percorrer.

Mais do que nunca, torna-se essencial expandir a chamada cultura oceânica para além dos alunos, envolvendo também professores, funcionários e, sobretudo, quem gere contratos e fornecedores. É nesse contexto que iniciativas como as Escolas Azuis, coordenada no Brasil pelo Maré de Ciência, fazem a diferença: tiram as escolas da zona de conforto e estimulam reflexões que vão desde o uso da água e a gestão de resíduos até ao consumo responsável, incluindo, inevitavelmente, o que chega ao prato dos alunos.

Aprendizagem integrada

O conceito de Whole School Approach, ou abordagem integrada, trata-se de integrar alimentação saudável e sustentável em todos os aspectos da vida escolar: da gestão à sala de aula, da cozinha à comunidade.

Três pilares sustentam essa abordagem:

  • Sustentabilidade: refeições mais saudáveis, locais e conscientes
  • Aprendizagem: comida como ferramenta pedagógica
  • Comunidade: envolver famílias, produtores e território.

Com esta abordagem, o refeitório deixa de ser apenas um espaço funcional para se tornar uma verdadeira extensão da sala de aula. Surge, assim, uma oportunidade concreta de reforçar a coerência entre o que se ensina e o que se pratica, alinhando o discurso pedagógico com as escolhas alimentares do dia a dia.

Para as escolas e respetivas administrações, não é necessário se assustar ou implementar muitas mudanças radicais. Iniciar um projeto “Escola Azul” com foco na alimentação pode ser um primeiro passo acessível. Neste contexto, os professores desempenham um papel fundamental: são agentes mobilizadores que introduzem o tema no debate escolar, inspiram os alunos e, através deles, alcançam também as famílias, trazendo o tema de forma consistente para o centro da comunidade educativa.

Cada escola encontrará o seu próprio percurso. No entanto, é com uma mentalidade orientada para pequenos passos e impactos significativos que se constroem mudanças duradouras.

 

Ana Vitória Magalhães

*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul.Especialista em cultura oceânica, currículo e carreiras para Economia Azul

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