NOTÍCIA
Alfabetização não se resume ao ensino do código escrito: é preciso promover o letramento literário, fundamento essencial para formar leitores
Formar leitores é promover uma alfabetização significativa, pautada em práticas de letramento literário e em uma pedagogia que respeite a inteligência das crianças. Definir a leitura apenas como a decodificação de signos é reduzir seu potencial. Aprender a ler é também aprender a questionar, refletir e ser capaz de pensar em soluções para questões internas e externas.
Nesse sentido, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, é preciso articular o processo de alfabetização ao letramento literário, entendendo que ambos se complementam no processo de formação leitora. Ao vivenciar práticas de leitura de textos da literatura infantil, em especial do livro ilustrado, e ser parte integrante de uma comunidade leitora, a criança amplia suas formas de ver o mundo, acessa múltiplas experiências humanas e constrói sentido para o que lê.
Assim, alfabetizar letrando é ir além do ensino do código escrito: é possibilitar o contato com a bibliodiversidade e promover mediações que formem leitores sensíveis, criativos e críticos.
É no contato com a leitura literária que os leitores em formação são convidados a ler a palavra, mas também são direcionados para além dela, amplificando sua leitura de mundo e avançando criticamente como sujeitos. Ao serem inseridos em comunidades leitoras, as crianças ampliam a exploração estética das linguagens verbal e visual dos livros a que tem contato, por meio da troca de impressões com outros leitores, além de construírem ou consolidarem pontos de vista e, também, ao compartilharem suas subjetividades.
Dessa forma, é papel da escola promover o encontro com diferentes formas de narrar, interpretar e ressignificar a experiência humana. Ao montar a curadoria de um acervo para turmas de alfabetização, a bibliodiversidade deve ser priorizada, garantindo diversidade de temas, formatos, estilos e gêneros.

(Foto: Pexels)
A diversidade de temas é essencial para ampliar o repertório cultural e afetivo das crianças. Ao promover o contato com histórias variadas, que abordam diferentes culturas, experiências e perspectivas, propicia-se o desenvolvimento da empatia e do pensamento crítico, incentivando a curiosidade.
Essa multiplicidade de temas também estimula a criatividade, fortalece o interesse pela leitura e contribui para a formação de leitores conscientes e capazes de se relacionar de maneira significativa com o mundo ao seu redor.
Como forma de garantir essa diversidade temática, clique nos títulos e leve novos livros para a sala de aula.
Livros com materialidade e formatos variados também têm papel fundamental nesse processo, pois incentivam a exploração sensorial. Ao interagir com livros de diferentes tamanhos, texturas, papéis ou com elementos visuais e táteis, as crianças ampliam a percepção do que é leitura, desenvolvem atenção e criatividade. Essa diversidade contribui ainda para formar leitores mais engajados com a percepção estética e sensíveis às múltiplas possibilidades que os livros oferecem.
Explore livros interativos e convide as crianças a novas formas de ler e brincar.
Livros com textos em caixa alta podem ser importantes na alfabetização e no letramento literário, especialmente nos primeiros contatos com a leitura. Eles ajudam as crianças no reconhecimento de palavras e facilitam tentativas de leitura autônoma. Além disso, quando combinadas com textos curtos e rimados, as letras em caixa alta promovem uma experiência significativa, apoiando a apropriação da leitura e da escrita ao facilitar a associação entre grafema e som.
A presença de livros de gêneros diversos na prática de alfabetização e letramento literário amplia o repertório cultural e textual das crianças. Diferentes gêneros — como poesia, narrativa, quadrinhos e textos informativos — permitem explorar múltiplas estruturas, linguagens e estilos, incentivando a interpretação crítica e a compreensão das variadas formas de comunicar ideias. Essa diversidade contribui para formar leitores mais flexíveis e capazes de interagir de maneira significativa com os textos e, consequentemente, com o mundo ao seu redor.
O letramento literário se consolida como um caminho primordial para desenvolver a sensibilidade estética, o pensamento crítico e a escuta atenta às múltiplas vozes presentes na literatura. Cabe, então a difusão da literatura como direito, oferecendo aos leitores vivências que favoreçam o desenvolvimento de múltiplos letramentos, permitindo uma atuação crítica e significativa nas diversas práticas sociais mediadas e moldadas por diferentes formas de linguagem. A literatura, ao integrar essas práticas, torna-se um espaço de formação humana e cidadã, no qual o leitor aprende a ler o texto e, com ele, o mundo. Portanto, assegurar às crianças não apenas o domínio da linguagem, mas também o acesso à cultura, à imaginação e à possibilidade de agir no mundo de forma crítica e transformadora, é papel da escola e de todos os agentes envolvidos em processos de alfabetização.
Amanda Alves é especialista em alfabetização e livro infantil e juvenil, mediadora de leitura e editora pedagógica de literatura no grupo Multiverso das letras.