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Publicado em 11/06/2026

Aprendizagem socioemocional: o elo que a escola separou

"Há um certo delírio em ensinar educação socioemocional como se a vida digital da criança fosse outro assunto. É na tela que ela hoje sente, se relaciona e se machuca."

Por Jaime Ribeiro* | Em 1950, Alan Turing propôs um teste para decidir se uma máquina podia ser considerada inteligente. A ideia era simples: se, num diálogo, uma pessoa não conseguisse dizer se conversava com um humano ou com um computador, então a máquina teria passado no teste. Durante décadas, isso foi um quebra-cabeça para filósofos e engenheiros. Hoje virou rotina de qualquer criança com um celular na mão, e o mais inquietante é que muitas delas sequer se perguntam quem está do outro lado da conversa.

Acho essa virada fascinante e um pouco assustadora. Turing queria saber se a máquina conseguia parecer gente. A pergunta que sobra para nós, educadores, é outra e bem mais espinhosa: o que acontece com a formação de uma criança que cresce conversando com algo que parece gente, mas não é?

Um amigo, um chatbot e uma identidade emprestada

Vou começar por um adulto, porque o caso me marcou. Um amigo meu, empresário, homem de decisões rápidas e sem muito filtro, me confessou há algum tempo que tinha parado de responder mensagens sozinho. Antes de mandar qualquer coisa um pouco mais delicada, um retorno a um colega, uma resposta a um chefe, até um bilhete para a esposa, ele passava o texto por um chatbot e pedia que deixasse o tom mais gentil, menos áspero.

No começo achei engraçado. Depois ele me disse uma frase que não me saiu mais da cabeça: “já nem sei direito como eu falaria sem esse recurso”. Reparei ali que a tecnologia tinha feito algo mais profundo do que corrigir o tom de uma mensagem de texto. Ela tinha se metido entre o impulso dele e a palavra dele, e nesse espaço foi nascendo uma espécie de segunda versão do meu amigo, mais palatável, mais lisa, e um pouco menos ele. Uma identidade digital costurada por um algoritmo. Se isso acontece com um adulto de quarenta e poucos anos, com personalidade formada, imagine com uma criança que ainda está descobrindo qual é a própria voz.

 

Leia: O dilema da proibição

Dois territórios separados por um abismo

É aí que entra o problema que me trouxe a este artigo. A Base Nacional Comum Curricular reconhece, entre suas dez competências gerais, tanto a cultura digital, na Competência 5, quanto o autoconhecimento e a empatia, nas Competências 8 e 9. É um mérito da BNCC. Só que, quando isso desce para o chão da escola, a Competência 5 quase sempre vira aula de tecnologia, com um professor, e as outras viram projeto socioemocional, com outra equipe, outro material, outro horário. São dois mundos que mal se falam.

O problema é que a criança não vive esses dois mundos separadamente. O caso do meu amigo mostra isso bem: o sofrimento dele não era técnico, ele dominava perfeitamente a ferramenta. Era emocional. E os apuros das crianças no digital seguem a mesma lógica. Saber abrir um aplicativo, qualquer aluno sabe. O que ele não sabe é o que fazer quando o amigo posta uma foto que o humilha no grupo, ou como perceber que duas horas de rolagem num feed o deixaram irritado sem motivo aparente. Isso é emoção vivida em ambiente digital. Continuar ensinando as duas coisas em salas separadas é deixar a criança desprotegida exatamente no ponto de encontro entre elas.

O que a pesquisa já sabe e o que ainda ignora

Não estou falando de intuição. A meta-análise de Joseph Durlak e colegas, publicada em 2011 na Child Development, juntou 213 estudos e mais de 270 mil alunos para mostrar que programas bem estruturados de aprendizagem socioemocional melhoram o desempenho acadêmico em torno de onze pontos percentuais e reduzem problemas de conduta. O framework do Casel, hoje referência mundial, organiza tudo isso em cinco competências, da autoconsciência à decisão responsável. A escola que leva o socioemocional a sério está muito bem amparada pela ciência.

O que a pesquisa em socioemocional ainda não digeriu direito é a camada digital, e essa
camada não espera. A pesquisa TIC Kids Online Brasil mostra que a maioria das nossas
crianças entra na internet antes dos dez anos, em geral sem ninguém por perto. Nos Estados Unidos, um levantamento da Common Sense Media apontou em 2025 que boa parte dos adolescentes já conversou com companheiros de inteligência artificial, e que  muitos consideram essas conversas tão boas quanto, ou melhores que, as que têm com amigos de verdade. Não temos número parecido no Brasil ainda, mas quem está dentro das escolas sabe que o fenômeno já chegou.

 

Porque o companheiro de IA é outra coisa

Vale separar um companheiro de inteligência artificial de um buscador comum. O companheiro foi feito para criar vínculo. Ele concorda, acolhe, nunca se irrita, nunca cobra nada de volta. Foi isso que prendeu o meu amigo executivo, e é isso que prende um adolescente, com um agravante: o cérebro de um jovem ainda está em obra. O córtex pré-frontal, que cuida do controle dos impulsos e da noção de risco, só termina de amadurecer perto dos 25 anos. Oferecer a esse cérebro um companheiro que nunca o contraria é quase irresistível. Só que a vida real contraria o tempo todo, e é nesse atrito que a gente aprende a convencer, a esperar, a aceitar um não.

Daí minha implicância com a saída mais comum, que é proibir. Não sou ingênuo, entendo o impulso. Mas proibir uma tecnologia que se reinventa a cada poucos meses costuma ser um jeito elegante de adiar o problema. Prefiro apostar em formar na criança um senso crítico afiado o suficiente para que ela mesma perceba, no convívio, a diferença entre alguém que se importa e um sistema treinado para parecer que se importa.

Socioemocional

“Não vamos blindar ninguém de um mundo que nenhuma lei deixa totalmente seguro. O que dá para fazer é preparar a criança para atravessá-lo de olhos abertos” Foto: The Yuri Arcurs Collection – Magnific.com)

Três eixos que deveriam andar juntos

É nessa costura que tenho trabalhado na última década. A proposta junta três eixos que, na minha leitura, nunca deveriam ter sido separados. O primeiro é a aprendizagem socioemocional pensada dentro do mundo digital: trabalhar autoconsciência é também ajudar a criança a notar como a tela mexe com o humor dela; trabalhar decisão responsável é conversar sobre o que se publica e em quem se confia.

O segundo eixo é o letramento digital de verdade, que não para nas regrinhas de segurança e ensina a criança a entender por que o aplicativo mostra o que mostra, como funciona a economia da atenção e por que aquele companheiro virtual concorda com tudo o que ela diz. O terceiro, e que na minha experiência é o mais esquecido, é a educação das famílias.

A pesquisadora Sonia Livingstone, da London School of Economics, mostrou no projeto EU Kids Online que a mediação da família é o que melhor prevê se a criança vai encontrar mais risco ou mais oportunidade na internet. Não adianta a escola fazer a parte dela se, em casa, o celular continua sendo a chupeta que acalma a criança no restaurante.

Essa forma de trabalhar está hoje em mais de 600 escolas brasileiras. Não tenho a pretensão de chamar os resultados de prova científica, não fizemos ensaio controlado. Mas o que vejo em campo se repete: o clima das escolas melhora, as famílias participam mais e os professores deixam de reagir à tecnologia apenas tirando o celular do aluno para usá-la como assunto de aula, como matéria-prima de uma boa conversa.

 

Leia: Como o ECA Digital impacta o dia a dia escolar

Entre proteger e preparar

Em janeiro de 2024 o Brasil sancionou a Lei 14.811, que criou o marco legal de proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais. É um avanço que comemoro, mas que regula plataformas, e plataforma nenhuma forma caráter. Winnicott, lá atrás, já dizia que o papel de quem cuida não é poupar a criança de toda frustração, e sim oferecer um ambiente bom o bastante para que ela crie seus próprios recursos. Aplica-se como uma luva ao nosso problema. Não vamos blindar ninguém de um mundo que nenhuma lei deixa totalmente seguro. O que dá para fazer é preparar a criança para atravessá-lo de olhos abertos.

Foi o que faltou ao meu amigo executivo, guardadas as devidas proporções. Ninguém o preparou para usar aquela ferramenta sem terceirizar a ela um pedaço de quem ele era. É isso que me preocupa quando penso nas crianças: não que elas usem inteligência artificial, porque vão usar de qualquer forma, mas que cresçam sem nunca ter desenvolvido a voz própria que a IA se oferece, tão gentilmente, para substituir.

Volto a Turing para terminar. A essa altura, não me interessa mais saber se a máquina consegue passar por humana, porque ela consegue. Interessa saber se vamos formar crianças capazes de reconhecer, e de preferir, o encontro com outra pessoa de carne e osso, com tudo o que ele tem de imprevisível, de irritante e de insubstituível. Isso não cabe numa tela, e também não cabe numa única disciplina solta no horário. Pede que a escola, finalmente, volte a juntar o que andou separando.

Referências

CGI.br/NIC.br. Pesquisa TIC Kids Online Brasil. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Common Sense Media. Talk, Trust, and Trade-Offs: How and Why Teens Use AI Companions. 2025.

Durlak, J. A. et al. The impact of enhancing students’ social and emotional learning: A meta-analysis. Child Development, 82(1), 2011.

Livingstone, S. & Helsper, E. Balancing opportunities and risks in teenagers’ use of the internet. New Media & Society, 12(2), 2010.

Brasil. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação, 2018.

Brasil. Lei 14.811, de 12 de janeiro de 2024.

Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975

 

*Jaime Ribeiro é palestrante, CEO e cofundador da Educa e especialista em Inteligência Artificial e Educação pela PUC Minas. Criador de uma metodologia que integra aprendizagem socioemocional, letramento digital e educação parental, presente em mais de 600 escolas brasileiras. Autor de quatro livros, incluindo ‘Empatia: Por que as Pessoas Empáticas Serão os Líderes do Futuro?’ e ‘Dora, a Raça do Amor’, aprovado pelo PNLD do Ministério da Educação.

 

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