NOTÍCIA
IATIVA: o método que ensina o aluno a pensar com a IA, não a copiar dela
Por Beatriz Bonadiman* | O Brasil é o país onde os estudantes mais usam inteligência artificial no mundo. Não é força de expressão: segundo o Adobe Digital Insights de 2025, lideramos a adoção global de IA entre estudantes, à frente até da Índia. Internamente, a pesquisa da Fundação Itaú confirma a escala — 84% dos estudantes brasileiros já usaram ferramentas de IA.
E não é só o aluno. A mesma pesquisa da Fundação Itaú aponta que 79% dos professores brasileiros já recorreram à IA.
Olhando esses números, parece que vencemos. Não vencemos. Lemos errado.

Pesquisa da Fundação Itaú confirma — 84% dos estudantes brasileiros já usaram ferramentas de IA (Foto: Shutterstock)
Porque adoção não é método. A OCDE entrega o problema de bandeja. Quando se pergunta para que o professor brasileiro usa IA, as respostas no topo da lista são gerar planos de aula e atividades (77%), ajustar a dificuldade dos materiais (64%) e resumir um tópico de forma eficiente (63%). Lá no fim, o que de fato mudaria a aula: avaliar o trabalho do aluno (36%), gerar devolutivas (39%), acompanhar o desempenho (42%).
Traduzindo: o professor brasileiro usa IA para produzir. Não para ensinar.
E que bom que usa para produzir, isso já alivia o tempo de quem vive exausto. Mas montar prova mais rápido não é inovar o ensino. É dar a mesma aula de sempre com uma ferramenta nova segurando o giz.
O que eu vejo na prática confirma o número. O professor monta a aula e, em algum momento, encaixa a IA como bengala: “agora usem o ChatGPT para verificar”, “peçam uma ideia para a IA”. Um apêndice. Um tempero jogado no fim do prato — nunca o ingrediente que estrutura a refeição. A IA entra como acessório de uma metodologia que continua exatamente a mesma.
Em 2026, finalmente, o poder público se mexeu e rápido. Em poucos meses, o MEC lançou o documento orientador “Inteligência Artificial na Educação Básica”, o CNE aprovou e levou à consulta pública as primeiras Diretrizes Orientadoras para o uso de IA na educação brasileira, o primeiro marco regulatório do país sobre o tema na escola e o CNPq publicou a Portaria 2.664/2026, regulando o uso de IA generativa na pesquisa. Saímos, em menos de meio ano, do vazio normativo para uma pilha de documentos cobrindo todos os níveis de ensino.
Mas isso não basta. E aqui não se pode confundir as coisas. Uma diretriz diz o que pode e o que não pode. Diz que a IA é apoio e não substituta, que o professor segue no centro, que o aluno precisa de uso crítico. Tudo certo e tudo insuficiente. Porque nenhum desses documentos diz ao professor como dar a aula de segunda-feira de manhã.
Regulação aponta a direção. Não entrega o método.
A UNESCO já tinha avisado disso em 2023, no primeiro guia global para o uso de IA na educação e na pesquisa, ao convocar o mundo a repensar como avaliamos e validamos a aprendizagem. Foi dessa inquietação que nasceu, ainda em 2024, antes de qualquer diretriz brasileira, a metodologia IATIVA. Eu não esperei o documento oficial para agir. Hoje, o documento confirma a direção; a IATIVA entrega o caminho.
A premissa é dura, e eu a sustento: a metodologia ativa, na forma como a praticamos, morreu. Não porque fosse ruim ela a base do que defendo. Mas foi desenhada para um mundo sem IA. Colar uma ferramenta por cima dela não a atualiza; apenas adia o vencimento.
A IATIVA parte de outro lugar. A IA não é um momento da aula, é parte integrada de todo o processo de aprendizagem. E, principalmente, ela avalia o processo, não o produto final. O texto bem escrito, o slide impecável, o relatório bem diagramado: qualquer aluno entrega isso hoje com três prompts. O que ainda significa alguma coisa são as evidências de construção intelectual, as perguntas que o aluno fez, as hipóteses que descartou, os erros que corrigiu, as escolhas que defendeu. O caminho, não o destino.
E o foco é claro: desenvolver as competências que mais importam hoje, pensamento crítico e criativo com IA. A IATIVA estimula metacognição, cocriação e autoria. O aluno não terceiriza o pensamento para a máquina; ele pensa com a máquina e aprende a fazer isso bem.
Para sair do conceito e chegar à sala, a metodologia se organiza em dois níveis.
As rotinas diárias são microintervenções de pensamento crítico que o professor aplica todos os dias, em qualquer disciplina, sem reinventar o planejamento. É a IA virando rotina pedagógica, e não um evento isolado.
Os cinco instrumentos são o que o professor leva para dentro da sala, conforme o que quer provocar:
Em todos, o fio condutor é o mesmo: quem pensa é o aluno. A IA não retira o esforço cognitivo — exige mais dele, e expõe quem não o fez.
É essa a diferença entre usar IA e ter um método. A primeira já está acontecendo, em massa, mal feita. A segunda dá trabalho — e é a única que ainda merece o nome de educação.

Beatriz Bonadiman (Foto: divulgação)
Esse é um dos temas que vou aprofundar no CIAPE – Congresso de IA para Profissionais da Educação, nos dias 4 e 5 de setembro, em Florianópolis, no Hotel Intercity.
Acesse o site agora: https://congressociape.com/
Os números já dizem que adotamos a IA. Os documentos de 2026 já dizem como ela deve ser tratada.
Falta o mais difícil, dizer ao professor como fazer. É disso que eu vou tratar.
*Este conteúdo é apresentado por Beatriz Bonadiman, especialista em IA pelo MIT e autora da metodologia e do livro IAtiva.