NOTÍCIA
Gestão da arquitetura urbana, psicologia e desafios contemporâneos, Euclides da Cunha revisitado em aula de ciências e a saúde mental dos adolescentes são temas em destaque
Como a dinâmica das cidades contemporâneas, que excluem e desrespeitam as necessidades e ritmos dos mais novos, impacta a qualidade de vida de quem está no entorno?
Com essa pergunta em mente, a jornalista Regina Cintra, mestre em políticas públicas e especialista em infância e educação, concebeu o tema para o seu mestrado e para o livro Cidades que Abraçam Infâncias – O que é possível aprender com territórios que incluíram crianças em seus planejamentos urbanos (ed. Dialética). O objetivo principal da autora é o de difundir experiências bem-sucedidas.

Livro de Regina Cintra traz entrevistas com gestores e especialistas de cidades que tiveram sucesso na criação de espaços urbanos acolhedores (Foto: Divulgação)
A pesquisadora selecionou quatro cidades e foi a campo: Jundiaí, cidade rica com alto IDH, no interior paulista; Recife, a capital pernambucana com alto índice de famílias vivendo em extrema vulnerabilidade e com uma topografia desafiadora; Boa Vista, considerada ‘a capital da primeira infância’ e Medellín, um caso de sucesso internacional, promovido ao longo de duas décadas, diferentes governos e com enorme impacto positivo que se tornou perene.
Com ilustrações de Erika Teixeira e mais 70 fotos, Cidades que Abraçam Infâncias reúne oito entrevistas com gestores públicos e profissionais que estão na ponta dessa temática: Teresa Surita, da cidade de Boa Vista, Luciana Lima e Murilo Cavalcanti, de Recife; Marcelo Peroni, de Jundiaí; Claudia Vidigal, da Fundação Van Leer no Brasil; Rodrigo Mindlin Loeb, arquiteto urbanista e autor de Cidade, Gênero e Infância; Vital Didonet, assessor para assuntos de políticas públicas para Rede Nacional Primeira Infância; e Santiago Uribe, arquiteto de Medellín, um dos responsáveis pela transformação urbana na cidade colombiana.
Para Regina, “não é suficiente oferecer serviços se o chegar é tão exaustivo à parte da população”. Entretanto, a partir das experiências coletadas no livro, ela acredita que é possível fazer diferente, criar espaços mais calmos e acolhedores. Há experiências interessantes espalhadas pelo Brasil, a baixo e médio custo, com realização possível em um curto espaço de tempo. Para isso, “a gestão tem que atuar para remover obstáculos, facilitar o dia a dia, proporcionar efetivamente o acesso. A integração dos equipamentos e proximidade entre eles pode ser um fator decisivo para o exercício de certos direitos”, concluiu.

Intervenção ‘Mais vida nos morros’, experiência relatada em Cidades que Abraçam Infâncias (Foto: Andréa Rêgo Barros/Pref.Recife)
O livro Psicologia e educação: cultura de paz, diversidade e direitos humanos (Cortez ed.) reúne pesquisas e reflexões que colocam em evidência o papel dos processos formativos, diante do avanço de discursos autoritários e da naturalização de desigualdades historicamente construídas nos espaços escolares.

Livro evidencia papel dos processos formativos diante da naturalização de desigualdades
construídas nos espaços escolares (Foto: Divulgação)
A organização da obra é da doutora em Psicologia Ana Flávia do Amaral Madureira. A partir de um olhar crítico, psicólogos, pedagogos e educadores convidam o leitor a repensar práticas e conceitos que perpassam o sistema educacional.
Em diferentes contextos do ensino, da formação básica ao nível superior, o livro evidencia a produção de normas e hierarquias sob a ótica da psicologia. Longe de ser uma ciência neutra, a área é apresentada como uma ferramenta potente de questionamento e transformação social.
Organizado em quatro partes que dialogam entre si, os textos iniciais discutem a cultura de paz, explorando como experiências estéticas podem contribuir na formação de valores e no enfrentamento de preconceitos. Em seguida, a coletânea volta-se às questões étnico-raciais, com reflexões sobre psicologia indígena, formação afrocentrada no ensino superior e os desafios contemporâneos da luta antirracista no Brasil.
Na terceira parte, os especialistas analisam desigualdades sociais, examinando políticas públicas, processos de exclusão e experiências vividas por sujeitos historicamente invisibilizados. Por fim, o debate sobre diversidade é ampliado com estudos que abordam gênero, sexualidade e neurodiversidade no contexto escolar, sempre a partir de uma perspectiva comprometida com os direitos humanos.
A Guerra de Canudos, um dos marcantes episódios da história do Brasil, ganha nova vida em Era uma vez uma guerra na Caatinga (ed. Outra Margem), livro da escritora e educadora fluminense Fabiana Corrêa. Diferente de uma adaptação, a obra é uma narrativa autônoma que se passa dentro do universo de Os sertões, de Euclides da Cunha, e tem como protagonista e narrador um inusitado personagem: o calango Sertanejo, que testemunhou e agora conta tudo o que viu.

A Guerra de Canudos, ganha nova vida em obra de Fabiana Corrêa (Foto: Divulgação)
Durante anos, Fabiana levou o tema para suas aulas de ciências e biologia. “Para substituir minha persona de professora contadora de histórias, escolhi um representante da fauna da Caatinga baiana, o calango Sertanejo, aquele que tudo ouviu, viu e tudo irá contar.” Inclusive, em diferentes trechos, a autora coloca a força desse bioma como personagem central.
Cada capítulo é precedido e finalizado com trechos selecionados de Os sertões, criando uma ponte natural entre a narrativa de Fabiana e a linguagem complexa de Euclides da Cunha. “Preciso ressaltar que essa não é uma adaptação do texto original, mas uma história contada que conduzirá o leitor à leitura da obra do escritor em seu próprio tempo”, explica. “Pelo menos, é esse o meu desejo: que essa seja uma história chamariz do desejo do leitor pelas palavras escritas por Euclides da Cunha.”

Obra traz análise centrada no acolhimento como ferramenta para reduzir comportamentos autodestrutivos (Foto: Divulgação)
Os números assustam: casos de autolesão entre jovens de 10 a 24 anos cresceram 29% ao ano no Brasil entre 2011 e 2022, segundo a Fiocruz. No livro Suicídio na adolescência: uma abordagem psicanalítica (ed. Juruá), a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro apresenta uma análise centrada no acolhimento como uma das principais ferramentas para reduzir episódios de autolesão e comportamentos autodestrutivos entre adolescentes.
Segundo a autora, o que realmente faz diferença na hora de prestar apoio é a combinação entre tempo e escuta. “Não se trata de um protocolo ou um diagnóstico rápido, mas a capacidade de estar presente de verdade diante de um jovem em crise e de resistir à pressa dos tempos curtos. Num mundo que não tolera a espera, dar ao adolescente o tempo de ser ouvido pode ser decisivo”, afirma.
Carolina não parte da perspectiva epidemiológica, psiquiátrica ou baseada em protocolos de prevenção, mas esmiúça o que está em jogo no psiquismo do adolescente que passa a enxergar a morte como única saída. Unindo experiência e teoria, a autora percorre casos clínicos reais, conceitos de Sigmund Freud e Jacques Lacan e uma leitura da série 13 Reasons Why (Netflix) como espelho do que acontece em consultórios e escolas brasileiras.