NOTÍCIA
Projetos mostram como o tema pode ser abordado na escola, de experiências na educação infantil a currículo que discute experiência de mulheres negras
Aproximar crianças negras das ciências exatas, das ciências da natureza e da tecnologia é uma medida essencial para colocar em prática a educação antirracista. E as formas para transformar essa necessidade em ação são diversas, contemplando desde projetos na educação infantil até a inserção no currículo de discussões sobre a presença de mulheres negras nas ciências.
Durante o evento Educação Antirracista em Foco, realizado pela Fundação Santillana no Museu da Imigração, em São Paulo (SP), na quarta-feira (10), algumas dessas iniciativas foram apresentadas em mesa com mediação de Nilma Lino Gomes, ex-ministra do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, a primeira mulher negra a comandar uma universidade pública federal no Brasil ao ser empossada como reitora da Unilab, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira, em 2013, e consultora de Políticas Antirracistas para a Fundação Santillana.

Nilma Lino Gomes é ex-ministra do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e consultora de Políticas Antirracistas para a Fundação Santillana (Foto: Samp Mídia)
Entre os debatedores, e participação de Cristina Teodoro, professora adjunta da UNILAB e credenciada no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC; Ana Maria Canavarro Benite, professora titular da UFG e coordenadora do Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LPEQI); e Flávio Assis, geógrafo, escritor, músico e doutorando em Educação pela FEUSP-USP.
A professora Cristina Teodoro destacou a importância de que o acesso às ciências exatas e da natureza seja discutido desde a educação infantil, ainda na creche — onde também devem ter início práticas antirracistas.
“Desde bebês, as crianças são cientistas. Elas testam hipóteses, investigam a gravidade, calculam distância, diferenciam texturas e reagem às reações químicas do ambiente através dos seus sentidos. Garantir uma educação infantil com práticas antirracistas também articula as ciências e significa, portanto, descentralizar a lógica ocidental e colonial que separou o ser humano da natureza e que dita quem pode ou não produzir conhecimento”, afirmou.

Cristina Teodoro apresentou três experiências que unem ciência e práticas antirracistas na educação infantil (Foto: Samp Mídia)
A especialista lembrou que o racismo sistêmico atua de forma perversa ao afastar crianças negras do campo da ciência. “Há uma construção social racista que carimba o aluno, desde criança, como um inapto para a lógica, para a abstração matemática e para a investigação científica. Ao negarmos às crianças pretas e pardas o direito de investigar o mundo de forma qualificada, estamos empurrando novamente para a invisibilidade.”
Nesse sentido, Cristina apresentou três experiências que unem ciência e práticas antirracistas na educação infantil, realizadas em subprojeto coordenado por ela em São Francisco do Conde, na Bahia, no contexto do PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência).
A primeira, uma feira do brincar com elementos da natureza, permitiu que crianças conhecessem ramos de folhas (como alecrim e manjericão) e as testassem e experimentassem, aplicando o método científico e investigando propriedades botânicas. O projeto uniu ciência e ancestralidade. Depois, o projeto culminou na criação de uma horta lúdica e as crianças puderam explorar a biodiversidade e os saberes tradicionais das famílias de matriz africana e indígena.
A segunda foi a confecção de um chocalho, preenchido com milho branco e amarelo, feijão preto, sementes de girassol e sal grosso. Nela, as crianças investigaram a acústica e densidade do material. “Ao sacudirem os instrumentos, [as crianças] diferenciavam a massa, o peso e a ressonância gerada pelo atrito de diferentes corpos e sementes da natureza”, contou Cristina.
Por fim, também houve a criação de um ateliê fotográfico, em que as crianças aprenderam sobre ângulo e distância, por exemplo.
Já Ana Benite falou sobre o “Investiga, Menina!”, projeto de pesquisa e extensão ligado ao Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão da Universidade Federal de Goiás (UFG), que dá formação e acompanhamento pedagógico em escolas periféricas de Goiás. Hoje, são atendidos 4000 estudantes de escolas públicas — todas e todos podem participar, mas apenas meninas negras são bolsistas.
“A gente oferece o acompanhamento pedagógico em química, física, biologia e matemática. Acontece regularmente, toda semana, nas salas de aula das escolas”, conta, ressaltando que as professoras e professores dessas disciplinas atuam como parceiros. “A gente apresenta um currículo para as crianças, sobretudo para as meninas, baseado na experiência de mulheres negras.”

O professor Flávio Assis abordou o uso da música para inserir a educação antirracista em sala de aula e Ana Benite falou sobre o projeto “Investiga, Menina!” (Foto: Samp Mídia)
Ana exemplificou com o estudo sobre células. Além de abordar a estrutura celular, o projeto traz também uma discussão sobre a história de Henrietta Lacks, mulher negra dos Estados Unidos que teve células coletadas sem seu consentimento em 1951. A partir disso, há um debate sobre ética e o estudo da história da pesquisadora Célia Mariana Barbosa de Souza, que trabalha com o tema.
Por fim, Flávio Assis, que atua no ensino médio e é professor de Geografia e músico, falou sobre como usa a música para inserir a educação antirracista em sala de aula, usando a metáfora do “cavalo de Troia”. “Eu não vou dizer que é aula sobre antirracismo. Vou fazer o seguinte: ‘a nossa aula hoje é sobre espaço urbano’, e na medida em que eu tenho o espaço urbano, entro com Gilberto Gil”, conta.
“Na medida em que a música entra, o aluno vai ter todo o processo de desarme. Ele vai ser desarmado porque a gente acessa a partir de algo que é comum à experiência humana, que é a experiência do sensível na relação com o belo, com aquilo que me toca no coração”, explica. Assim, a educação antirracista entra em sala de aula por meio da arte, com o próprio professor cantando e tocando violão para os estudantes.