NOTÍCIA
A premissa é clara: assim como um ortopedista precisa entender sobre ossos e um cabeleireiro sobre cabelos, a escola precisa entender sobre o funcionamento do cérebro humano, já que é onde se dá a aprendizagem e o processamento das emoções
Por Tatiana D’Angelo*, coordenadora pedagógica do Colégio Escalada, SP, e embaixadora da Academia Líderes de Educação| Quando a escola moderna começou a se estruturar, por volta do século XVI, foi necessário pensar em como transmitir conhecimentos, de qual forma agrupar os estudantes e por quanto tempo eles deveriam estar no ambiente escolar.
De forma empírica, esses e outros ajustes foram realizados ao longo dos séculos, levando em consideração as diferentes culturas e suas necessidades. Hoje, porém, temos estudos que corroboram, ou contradizem, o que tem sido feito durante décadas.
Um exemplo muito prático diz respeito à atividade física, que aumenta a neurogênese no hipocampo, beneficiando a cognição. Ou seja, exercícios aeróbicos nas escolas incrementam a capacidade de aprendizagem. Diante destes estudos, as escolas que oferecem o momento do parque ou aulas de educação física somente uma vez por semana deveriam repensar suas práticas.

(Foto: Shutterstock)
Outra contribuição da neurociência é tornar o erro do aluno parte integrante do processo de aprendizado — o que é chamado de Feedback do Erro por Stanislas Dehaene. Quando o erro é naturalizado, novas teorias podem ser construídas, além de engajar mais os alunos pela implicação de cada um no processo do raciocínio e manter a emocionalidade controlada ao aceitar pensamentos e ações incorretas.
Isso nos provoca a refletir sobre as escolas que não realizam as correções juntamente com os alunos, pois, sem o envolvimento ativo e reflexivo do estudante, perdem uma janela preciosa de consolidação sináptica.
Ademais, uma das formas mais eficazes de acelerar o aprendizado e consolidar memórias é a estimulação de diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo, combinando diferentes sentidos e funções cognitivas, favorecendo a criação de diversas sinapses. Sendo assim, é mais do que urgente aposentar as aulas puramente passivas em que o professor fala e o aluno escuta ou a forma de estudo que se baseia exclusivamente em ler um texto e responder às questões sobre ele. Em vez disso, que tal aprender por meio de projetos e vivências?

“A neurociência prova que a escrita cursiva é muito além do que um treino motor, ela ativa simultaneamente áreas ligadas à linguagem, memória e coordenação motora fina”, aponta a autora (Foto: divulgação)
E sobre a letra cursiva, o que a neurociência tem a dizer? Na contramão do que algumas escolas têm feito ao priorizar a fluência na digitação e uso de teclados, a neurociência prova que a escrita cursiva é muito além do que um treino motor, ela ativa simultaneamente áreas ligadas à linguagem, memória e coordenação motora fina, funcionando como um treino cognitivo complexo, além de propiciar maior retenção do conteúdo.
Entretanto, há o momento certo para iniciar essa prática. Segundo Franco Boscaini, uma das maiores referências em psicomotricidade, a própria escola pode ser a origem de algumas disgrafias enquanto, na tentativa, muitas vezes precoce, de estimular a criança, pode bloqueá-la.
Da mesma forma, inúmeros estudos mostram que o tempo de atenção varia com a idade e o desenvolvimento cerebral, portanto cada faixa etária possui um tempo médio esperado de concentração. A partir disso, podemos repensar o tempo destinado para cada proposta em sala de aula, pois possivelmente o foco dos alunos não durará até o momento de o sinal tocar, especialmente se o tempo previamente definido for os mesmos 50 minutos para diferentes idades.
Para além do aspecto cognitivo, a neuroeducação lança luz sobre a dimensão afetiva. Sabe-se que o estresse excessivo, medo ou ansiedade podem fazer a amígdala cerebral, que é o centro das emoções, entrar em estado de alerta máximo, bloqueando a concentração, o raciocínio e a consolidação do aprendizado.
Todos os profissionais da escola, então, devem estar atentos e preparados para acolher os sentimentos dos alunos a qualquer momento; na maioria das vezes não é possível esperar o dia ou o momento da aula sobre socioemocional.
Igualmente importante é todo o conhecimento que já temos sobre o impacto de diferentes nutrientes no cérebro: o quanto a falta de alimentos catalisadores pode prejudicar a aprendizagem e o quanto o excesso de alimentos inibidores causam fadiga mental e reduzem a capacidade de concentração e memorização.
Portanto, além de realizar um constante trabalho de educação alimentar, a escola não deveria permitir a venda de refrigerantes, sucos de caixinha e qualquer alimento ultraprocessado na cantina, mesmo que isso impacte diretamente nas vendas.
Em suma, a premissa é clara: assim como um ortopedista precisa entender sobre ossos e um cabeleireiro sobre cabelos, a escola precisa entender sobre o funcionamento do cérebro humano, já que é onde se dá a aprendizagem e o processamento das emoções. Então, que venham mais e mais descobertas e que o diálogo entre a ciência e a pedagogia continue desbravando novos caminhos para uma educação verdadeiramente humana e eficiente.
*Tatiana D’Angelo é pedagoga e bióloga, especialista em neuroeducação e gestão escolar pela USP, coordenadora pedagógica do Colégio Escalada, SP.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte:
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