NOTÍCIA
É justamente no horizonte mais amplo de cuidado e formação integral que a escola se afirma como um espaço de sentido
Por Beatriz Helena Gallian*, diretora acadêmica do colégio São Luís | O sinal da escola soou, anunciando o início de mais um ano letivo. Ele anuncia o tempo, orienta o ritmo, reúne a comunidade para a aprendizagem. Há outros sinais que também pedem atenção — mais silenciosos, porém profundamente reveladores. Refiro-me àqueles que emergem no corpo e nas emoções: o cansaço recorrente, a ansiedade, a dificuldade de concentração, indicando que algo em nós e ao nosso redor precisa ser escutado.
O cenário global ajuda a explicar esse sentimento. Guerras, crises climáticas, instabilidades políticas e econômicas e tensões sociais deixaram de ser notícias distantes para se tornarem parte do cotidiano. Inevitavelmente, esse contexto chega à escola — não apenas como tema de aula, mas como experiência vivida.
É frequente ouvir educadores de diferentes instituições de ensino relatando aumento da ansiedade entre estudantes, dificuldades de concentração, irritabilidade e alterações no sono. Esse quadro não é isolado. Dados indicam que 50% dos transtornos mentais tem início antes dos 14 anos, como apontam materiais produzidos pelo Instituto Ame Sua Mente, voltados ao contexto escolar.
Mais do que um dado quantitativo, essa informação reforça o papel estratégico da escola, tanto na prevenção quanto na promoção de saúde mental.
O que está acontecendo com nossos estudantes?
Alguns fatores do cotidiano andam impactando diretamente o bem-estar: rotinas desorganizadas, privação de sono, alimentação inadequada e uso excessivo de telas estão associados ao aumento da ansiedade e impulsividade.
Nem otimismo, nem pessimismo
O filósofo Byung-Chul Han oferece uma chave de leitura importante. Para ele, vivemos em uma sociedade marcada pelo medo — um medo difuso, que atravessa a vida cotidiana e molda nossas formas de pensar e agir.
Diante desse cenário, duas respostas se tornam comuns. De um lado, o pessimismo, que reconhece a gravidade da situação, mas paralisa. De outro, o otimismo simplista, que aposta em soluções rápidas e muitas vezes desconectadas da realidade.
Ambas, no entanto, são limitadas. Como argumenta o próprio autor, tanto o pessimismo quanto o otimismo tendem a obscurecer as possibilidades reais de ação. É nesse ponto que emerge uma terceira via: a esperança.
Por que a esperança importa na educação?
Falar de esperança não é adotar uma postura ingênua. Trata-se de reconhecer a complexidade do presente sem abdicar da construção do futuro.
Essa ideia dialoga com perspectivas mais amplas da educação contemporânea.
Na prática escolar, isso se traduz na criação de experiências que façam sentido para os estudantes.
O psiquiatra Viktor Frankl, ao refletir sobre a experiência humana em contextos extremos, já apontava que a busca por sentido é um elemento central da saúde psíquica. Sem essa dimensão, mesmo indivíduos em condições objetivamente favoráveis podem experimentar sofrimento.
Essa perspectiva abre espaço para pensar a chamada saúde existencial — uma abordagem que considera o ser humano em sua totalidade, incluindo dimensões frequentemente negligenciadas.
O que a escola pode fazer, na prática?
Se não há soluções simples, há caminhos possíveis.

Beatriz Helena Gallian cita Byung-Chul Han, “tanto o pessimismo quanto o otimismo tendem a obscurecer as possibilidades reais de ação. É nesse ponto que emerge uma terceira via: a esperança” (Foto: Arquivo pessoal)
Isso implica fortalecer práticas que promovam a escuta atenta, o vínculo e o cuidado com o outro e consigo mesmo. Implica também reconhecer limites, nomear emoções, criar tempos de pausa e favorecer experiências que integrem todas as dimensões do ser humano — compreendendo o sujeito em sua integralidade.
Ao mesmo tempo, é fundamental estimular a autonomia com responsabilidade, valorizando o erro como parte essencial do processo de aprendizagem. Soma-se a isso a promoção de hábitos saudáveis, como um sono adequado e o uso equilibrado das tecnologias, compondo um cenário mais favorável ao desenvolvimento integral dos estudantes.
É justamente nesse horizonte mais amplo de cuidado e formação integral que a escola se afirma como um espaço de sentido — um lugar em que não apenas se aprende, mas se interpreta e se ressignifica a própria experiência.
O currículo do colégio pode ser aproveitado como base para potencializar essas práticas. Nesse contexto, a arte, em suas diferentes manifestações, aparece como dinamizadora desse processo. e a literatura, de modo especial, oferece caminhos para elaborar experiências, lidar com emoções e construir identidade.
Não se trata de negar os desafios do presente, mas de formar sujeitos capazes de lidar com eles de maneira criativa e comprometida. Entre o pessimismo que paralisa e o otimismo que simplifica, a esperança aparece como um caminho mais exigente — e, justamente por isso, mais potente. Talvez seja esse o papel mais urgente da escola: não apenas ensinar conteúdos, mas ajudar a sustentar a vida — com sentido, com vínculos e com horizonte.
Nesse horizonte, algumas ações concretas se mostram fundamentais: instituir rotinas de escuta qualificada com os estudantes, como rodas de conversa e momentos de partilha; formar continuamente educadores para a identificação e o manejo inicial de sinais de sofrimento emocional; integrar, de modo intencional, práticas socioemocionais ao currículo; garantir a articulação com equipes de orientação e redes de apoio especializadas; e promover uma cultura escolar que valorize pausas, equilíbrio e relações respeitosas.
Pequenas escolhas cotidianas — como a forma de acolher uma turma, conduzir um conflito ou organizar o tempo — também se tornam potentes estratégias de cuidado, contribuindo para que a escola seja, de fato, um espaço de aprendizagem e de humanização.
* Beatriz Helena de Arruda Pereira Gallian é diretora acadêmica do colégio São Luís e membro da Comissão de Saúde Mental nas escolas do Educational Leaders