NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Revista Educação

Publicado em 11/05/2026

Sem telas, a redescoberta do mundo real

Quando tiramos as telas, após curto período de adaptação, começa a emergir algo poderoso: a redescoberta do prazer pelas interações humanas genuínas

Por Kito Vivolo*, sócio fundador da NR Intercâmbio | Ao longo de mais de 30 anos trabalhando com educação experiencial e acompanhando milhares de crianças e adolescentes em atividades fora da sala de aula,  percebemos que algo que se repete de maneira quase invariável: bastam alguns dias longe das telas para que uma transformação visível comece a acontecer.

Vivemos em um tempo em que muitos adultos acreditam que as novas gerações mudaram profundamente. Que são menos sociáveis, menos interessadas em relações humanas, menos abertas à convivência e mais fechadas em seus próprios mundos digitais. Mas a experiência prática, observando jovens em ambientes de imersão social, mostra algo diferente: talvez eles não tenham mudado tanto assim. Talvez estejam apenas excessivamente condicionados a estímulos artificiais, imediatos e constantes.

Telas

“No fundo, brincar, conversar, rir, explorar, se conectar e pertencer continuam sendo necessidades humanas profundamente presentes nesta geração também”, afirma Kito Vivolo (Foto: Arquivo pessoal)

Quando retiramos, ainda que temporariamente, celulares, videogames e dispositivos eletrônicos do centro da rotina, o que se vê nos primeiros momentos é quase sempre um pequeno desconforto. Há inquietação, estranhamento e, por vezes, ansiedade. Afinal, estamos falando de crianças e adolescentes acostumados a uma dinâmica de hiperestimulação contínua, recompensas instantâneas e entretenimento permanente ao alcance de um toque.

Mas esse desconforto inicial costuma durar pouco.

Após um curto período de adaptação, começa a emergir algo extremamente poderoso: a redescoberta do prazer pelas interações humanas genuínas. Aos poucos, crianças que chegaram retraídas começam a conversar mais. Jovens inicialmente inseguros passam a se integrar com naturalidade. Pequenos grupos se formam espontaneamente. Risadas aumentam. Histórias surgem. Brincadeiras aparecem sem que ninguém precise instruí-las.

É como se, na ausência do estímulo digital, o ser humano retomasse um comportamento que sempre lhe foi natural.

Porque, no fundo, brincar, conversar, rir, explorar, se conectar e pertencer continuam sendo necessidades humanas profundamente presentes nesta geração também. Elas apenas muitas vezes estão abafadas pelo excesso de estímulos que competem o tempo inteiro por atenção.

 

Leia: Entre telas e conversas: o papel das famílias na educação digital e na saúde mental dos jovens

 

Outro aspecto que chama atenção nesses contextos é a mudança emocional observada após alguns dias. Muitos jovens demonstram uma desaceleração clara. Tornam-se mais leves, mais presentes, mais espontâneos. Dormem melhor. Riem mais facilmente. Participam mais intensamente das experiências ao seu redor. Existe uma espécie de reorganização emocional que acontece quando a mente deixa de operar em estado constante de alerta e estímulo.

Também é nesses ambientes que emergem aprendizados silenciosos, porém extremamente valiosos. Quando longe de casa, mesmo acompanhados por adultos preparados, crianças e adolescentes passam a assumir pequenas responsabilidades pessoais que nem sempre exercem em sua rotina habitual: organizar seus pertences, cuidar de seus horários, lembrar de seus compromissos, administrar sua higiene, tomar pequenas decisões práticas do cotidiano.

 

Telas

“No fundo, brincar, conversar, rir, explorar, se conectar e pertencer continuam sendo necessidades humanas profundamente presentes nesta geração também” (Foto: Pexels)

 

Esse exercício de autonomia, ainda que simples, tem enorme valor formativo. Ele fortalece autoconfiança, senso de responsabilidade e independência de maneira orgânica, sem discursos teóricos ou lições formais.

Mas talvez um dos maiores ganhos esteja em algo cada vez mais raro: o resgate do exercício da fala e da escuta. Em um tempo marcado por mensagens curtas, áudios acelerados, vídeos rápidos e interações fragmentadas, muitos jovens já não estão tão habituados ao processo completo de ouvir com atenção, esperar sua vez, elaborar pensamentos e sustentar conversas mais profundas. Quando inseridos em ambientes de convivência real e contínua, eles gradualmente retomam essa habilidade e, mais do que isso, redescobrem o prazer nela.

Isso tudo reforça uma convicção que a prática me ensinou ao longo das décadas: as crianças e adolescentes de hoje continuam carregando dentro de si o mesmo desejo de conexão, pertencimento, aventura e descoberta que sempre existiu nas gerações anteriores. O que mudou não foi sua essência, mas o ambiente em que estão inseridos.

Quando oferecemos oportunidades adequadas, estímulos saudáveis e espaços seguros para convivência real, essa essência reaparece com enorme força.

 

Leia: Imediatez é inimiga número um do pensamento crítico

 

Talvez o problema nunca tenha sido uma geração menos humana, menos sociável ou menos interessada no mundo real. Pode ser que o desafio esteja apenas em lembrarmos que, por trás de toda tecnologia, ainda existem crianças querendo exatamente aquilo que sempre quiseram: viver, brincar, se conectar e sentir que pertencem a algo maior do que uma tela.

Em um mundo cada vez mais digital, talvez educar também signifique lembrar nossas crianças de que a vida mais transformadora ainda acontece offline.

 

* Kito Vivolo é mestre em psicologia, sócio fundador da NR Intercâmbio e diretor de produtos do NR Acampamentos e Viagens Educacionais. Pioneiro na introdução do conceito de edutainment no Brasil, é criador do English & Action. 

 

Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte:

Academia Líderes de Educação 

 


Leia Academia Líderes de Educação

pexels-kampus-7965813

Sem telas, a redescoberta do mundo real

+ Mais Informações
Confiança

Escolas não perdem alunos, perdem confiança

+ Mais Informações
Liderar

Para liderar é preciso mais do que experiência docente

+ Mais Informações
Colégio Humboldt

Colégio Humboldt recebe Academia Líderes de Educação

+ Mais Informações

Mapa do Site