NOTÍCIA

321

Autor

Revista Educação

Publicado em 08/07/2026

O currículo invisível da violência

Educar para a igualdade desde cedo é a estratégia mais eficaz para romper as microestruturas que sustentam a violência e garantir que futuras gerações ocupem espaços com segurança

Por Mariana Braga* | Casos de violência sexual que envolvem figuras poderosas, como o escândalo do  estadunidense Jeffrey Epstein, costumam ser tratados como exceções absolutas — histórias distantes, ocorridas em ilhas privadas, aviões particulares ou mansões frequentadas por celebridades e políticos. Por outro lado, episódios de estupro coletivo cometidos por adolescentes e jovens de classe média em escolas e comunidades brasileiras são frequentemente interpretados como ‘desvios juvenis’, atribuídos ao consumo de álcool ou a uma suposta ‘cultura local’.

À primeira vista, esses dois mundos parecem não ter nenhuma relação. Mas, quando olhamos de perto, percebemos algo que raramente entra na discussão pública: ambos se sustentam em microestruturas de poder — redes pequenas, informais e cotidianas que normalizam, protegem e reproduzem a violência sexual.

Essas estruturas não dependem apenas de força física. Elas se apoiam em prestígio, influência, lealdade entre pares, silenciamento das vítimas e, muitas vezes, omissão institucional. No caso Epstein, isso incluía o uso de riqueza, conexões internacionais e relações políticas para acobertar abusos durante anos. No contexto escolar brasileiro, vemos adolescentes com capital social — prestígio entre colegas, apoio de grupos masculinos, proteção familiar — sendo blindados por redes que minimizam denúncias, desacreditam vítimas ou desencorajam qualquer responsabilização.

Embora muito diferentes na escala e no alcance, os dois cenários têm algo em comum: a manutenção de hierarquias de gênero que colocam meninas e mulheres em posições de vulnerabilidade e dependência, enquanto reforçam modelos de masculinidade baseados em competição, dominação e cumplicidade.

 

Desnaturalizar hierarquias

O que Epstein fazia por meio de propriedades privadas, acordos silenciosos e recrutamento de meninas, criando verdadeiros territórios de controle, também aparece em versões menores e dispersas no cotidiano escolar e universitário.

Festas, trotes, apartamentos usados por grupos de amigos, conversas online e dinâmicas de pressão entre adolescentes podem se transformar em ambientes onde normas internas justificam ou escondem agressões. Essa engrenagem começa a ser montada muito antes da adolescência. O ‘currículo invisível’ se manifesta na divisão binária de funções e expectativas de meninas e meninos. 

 

Leia: O silêncio dos meninos

 

Frequentemente, no cotidiano escolar, meninos são convocados para tarefas que demandam força física ou liderança espacial, como carregar equipamentos ou liderar filas, enquanto às meninas são delegadas funções de cuidado, organização e estética, como a decoração da sala ou a gestão de materiais pedagógicos.

Essas escolhas, embora pareçam banais, enviam uma mensagem poderosa: a de que o espaço público e o poder de decisão são atributos masculinos, enquanto o feminino deve se restringir ao suporte e ao zelo. Essa socialização precoce pavimenta o caminho para a manutenção das hierarquias de gênero que, na adolescência e vida adulta, se traduzem na cumplicidade entre pares masculinos e na subalternidade das mulheres. Desnaturalizar essas hierarquias desde a educação infantil é o primeiro passo para impedir que o ambiente escolar se torne um território de controle e silenciamento.

Ao desnaturalizar papéis de gênero rígidos na escolha de brinquedos, na divisão de tarefas e na linguagem, a escola promove uma cultura de equidade. Educar para a igualdade desde cedo é a estratégia mais eficaz para romper as microestruturas que sustentam a violência e garantir que futuras gerações ocupem espaços com segurança.

Um outro padrão também se repete: as vítimas raramente encontram canais seguros para denunciar e, quando o fazem, frequentemente se deparam com descrença, vergonha ou medo de retaliação. Isso vale tanto para meninas levadas a encontros supostamente privados e surpreendidas por múltiplos agressores, quanto para jovens estrangeiras economicamente vulneráveis envolvidas nas tramas de Epstein.

Recentemente, numa escola do Rio de Janeiro, um caso envolvendo estudantes do ensino médio ilustrou esse mecanismo. Depois que uma vítima teve coragem de denunciar, outras famílias procuraram a polícia relatando que suas filhas haviam passado pela mesma situação, com o mesmo grupo de meninos, seguindo o mesmo ‘roteiro’. Esse padrão revela que a violência não surge do nada: ela é repetida, ensinada e reforçada nos laços de grupo.

 

Leia: Caminhos para combater a violência escolar

 

Compreender essas microestruturas de poder é fundamental para romper o ciclo. Não basta punir casos individuais, é preciso enxergar os ambientes que tornam esses crimes possíveis, as redes de silêncio que os sustentam e as desigualdades que os alimentam.

 

Estratégias pedagógicas 

A seguir, detalho, brevemente, como a integração de algumas estratégias educativas pode transformar essa realidade.

A inclusão de conteúdos relacionados à Educação Integral em Sexualidade deve ser compreendida como um direito que promove o autoconhecimento e o respeito mútuo. Não deve ser reduzida à dimensão biológica ou à prevenção de riscos em saúde — por exemplo, a prevenção do HIV ou de gravidez adolescente.

 

Violência

O ‘currículo invisível’ se manifesta na divisão binária de funções e expectativas de meninas e meninos (Foto: Shutterstock)

Ao abordar a sexualidade de forma integral, a escola oferece ferramentas para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam o pensamento crítico e a capacidade de tomar decisões informadas. No contexto da violência de gênero, essa estratégia atua como um pilar de proteção, ensinando a identificar limites corporais, consentimento e a importância de relações baseadas na autonomia, e não na dominação.

Embora existam avanços normativos, no Brasil, há lacunas significativas na implementação de diretrizes que conectem a educação à segurança de gênero no ambiente digital. É imperativo que as políticas educacionais integrem o combate à misoginia online e ao assédio como competências transversais, como habilidades para a vida. 

A ausência de protocolos robustos para o manejo de denúncias e para a incorporação de estratégias educativas faz com que as escolas, muitas vezes, reproduzam o silenciamento das vítimas em vez de oferecer acolhimento. A responsabilização real de quem silencia é um passo pedagógico essencial para desnaturalizar a impunidade.

 

Leia: A responsabilidade preventiva da escola privada

 

O desafio que se coloca para o Brasil e para o mundo é construir respostas que não se limitem ao escândalo, mas que transformem, de fato, as relações de gênero e os sistemas que protegem agressores — estejam eles em mansões milionárias ou em salas de aula.

Isso inclui políticas públicas mais eficazes, escolas preparadas para enfrentar a violência, responsabilização real de quem silencia e, principalmente, uma mudança cultural profunda que desnaturalize práticas abusivas e rompa com as hierarquias de gênero, substituindo o ‘currículo invisível’ da cumplicidade por estratégias pedagógicas que promovam a equidade desde a primeira infância, visando a saída da cultura da cumplicidade para a entrada da cultura do cuidado e da justiça.

 

*Mariana Braga é psicóloga, especialista e pesquisadora em gênero e educação. É doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade de Coimbra.

 

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