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Instituto Ayrton Senna

Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)

Publicado em 24/06/2026

A desigualdade na aprendizagem começa na largada

Por que discutir oportunidades sem considerar a desigualdade no ponto de partida produz uma visão incompleta do cenário de aprendizagem

Por Ana Carla Crispim* |  “É mais difícil de competir, porque parece que, de alguma forma, já estão ganhando de mim antes de começar”. Essa frase é narrada por uma personagem durante uma competição de natação no livro Um Lugar para Coraline, de Alexandre Rampazo. A personagem em questão, Coraline, uma menina negra e nadadora, começa a perceber que algumas crianças parecem chegar às competições já impulsionadas por vantagens que vão muito além do esforço individual: mais apoio, mais oportunidades, mais segurança e mais recursos para se desenvolver. A sensação de começar em desvantagem atravessa a narrativa de Coraline e ilumina um problema social que também marca a educação brasileira: a desigualdade de recursos e oportunidades desde o ponto de largada. 

Quando discutimos aprendizagem no Brasil, quase sempre olhamos para os resultados: notas, médias e indicadores de desempenho. Mas os números finais contam apenas parte da história. Antes mesmo da prova começar, estudantes chegam à escola com condições profundamente desiguais para aprender. Enquanto alguns contam com apoio, estabilidade, repertório cultural e acesso a oportunidades, outros precisam enfrentar barreiras que atravessam sua trajetória escolar desde cedo.

Isso fica evidente nos dados. Um estudo do Todos pela Educação, com dados da PNAD Contínua, mostrou que 74,3% dos jovens concluíram o Ensino Médio em 2025, um aumento de 19,8% em relação a 2015. No entanto, quando colocamos esses números sob a lente da desigualdade socioeconômica, a realidade muda de forma significativa: entre os jovens mais ricos, 94,2% concluíram essa etapa da educação básica em 2025; entre os mais pobres, esse percentual é de 60,2% (Todos pela Educação, 2025). 

 

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Os números revelam uma verdade incômoda. Na corrida da educação, o ponto de partida ainda influencia fortemente quem consegue avançar, e quem acaba ficando para trás. Ou seja, durante a trajetória escolar, a desigualdade socioeconômica se torna, também, desigualdade educacional.

Mas os efeitos dessa desigualdade não aparecem apenas na conclusão da trajetória escolar. Eles também se refletem diretamente na aprendizagem. Em pesquisa conduzida por Jaloto e Primi (2021) foi identificado que estudantes menos vulneráveis socioeconomicamente apresentavam melhores desempenhos no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil. E esse padrão também se estende para exames realizados durante a educação básica. 

 

Desigualdades

A sensação de começar em desvantagem: na educação brasileira, há desigualdades de recursos e oportunidades desde o ponto de largada (Foto: Shutterstock)

 

Em avaliação realizada com mais de 33 mil estudantes do 2º e 3º anos do Ensino Médio em quatro estados brasileiros, em parceria entre o Instituto Ayrton Senna, a Fundação CAEd e secretarias estaduais de Educação foi encontrado que estudantes com mais recursos socioeconômicos tendem a apresentar melhores desempenhos em Língua Portuguesa e Matemática.

Esses dados ajudam a evidenciar uma questão importante: se as desigualdades do ponto de partida continuam influenciando quem aprende mais, o que pode ajudar a reduzir parte dessa distância? 

É justamente nesse ponto que os resultados da avaliação revelam um aspecto reflexivo. Além dos recursos socioeconômicos, estudantes com maior desenvolvimento socioemocional também tenderam a apresentar melhores desempenhos acadêmicos. Competências como abertura ao novo estiveram associadas a resultados mais altos em todos os níveis socioeconômicos. 

Em alguns casos, inclusive, estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, mas com níveis mais altos de desenvolvimento socioemocional, alcançaram desempenhos semelhantes aos de estudantes com mais recursos econômicos. O que indica que recursos emocionais e sociais não são acessórios, mas sim parte fundamental das condições que sustentam os processos de aprendizagem e desenvolvimento. 

 

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Isso significa reconhecer que aprender não depende apenas de capacidade acadêmica individual ou esforço pessoal. Muitas vezes, estudantes em situação de maior vulnerabilidade precisam dividir sua atenção entre a escola e preocupações relacionadas à sobrevivência, à segurança ou à própria permanência nos estudos. 

Enquanto alguns conseguem direcionar grande parte de sua energia para explorar, experimentar e aprender, outros precisam gastar seus recursos emocionais tentando lidar com medos, incertezas e pressões cotidianas que decorrem de desafios sociais mais amplos. 

Nesse contexto, falar sobre equidade na educação exige ir além da discussão sobre conteúdo ou desempenho acadêmico. Exige compreender que condições emocionais, sociais e materiais também atravessam quem consegue se engajar, persistir e avançar ao longo da trajetória escolar.

Essa discussão nos obriga a repensar a forma como interpretamos desempenho escolar, por exemplo. O que realmente queremos dizer quando afirmamos que um estudante “foi mais longe”? Relembrando a história de Coraline, na sua reflexão, ela percebeu que algumas crianças pareciam se mover com mais facilidade na piscina não apenas por questões individuais, mas porque chegaram àquela competição carregando um repertório mais amplo de acesso a recursos físicos, emocionais, sociais, econômicos e culturais. A piscina era a mesma para todos, mas os recursos disponíveis no momento da largada eram profundamente diferentes. 

Na educação acontece o mesmo. Alguns estudantes conseguem avançar porque correram com impulso, seja emocional, social, econômico, cultural. Outros avançam apesar das barreiras e desigualdades. E, frequentemente, chegar ao mesmo lugar exige um esforço muito maior daqueles que partiram de contextos mais vulneráveis. 

 

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Na história de Coraline, isso aparece em um ensinamento trazido por sua mãe: quando ela vai bem na prova, significa que precisou ser “melhor duas vezes”, melhor do que ela mesma e melhor do que aqueles que já começaram a corrida com vantagem. 

Por isso, discutir aprendizagem sem discutir desigualdades significa observar apenas parte da corrida. Se quisermos construir uma educação mais equitativa, não basta medir quem chegou primeiro. É preciso compreender quais estudantes precisaram correr distâncias maiores, enfrentar mais obstáculos e sustentar esforços muito mais intensos apenas para permanecer na disputa.

 

Referências: 

Jaloto A, Primi R. Fatores socioeconômicos associados ao desempenho no Enem. Em Aberto. 2021. Disponível em: http://emaberto.inep.gov.br/ojs3/index.php/emaberto/article/view/5002

Todos pela Educação. Estudo conclusão da educação básica: avanços e desigualdades da última década. 2025. Disponível em: https://todospelaeducacao.org.br/wordpress/wp-content/uploads/2025/11/estudo-conclusao-na-educacao-basica-todos-pela-educacao.pdf & https://todospelaeducacao.org.br/noticias/conclusao-da-educacao-basica-estudo-sobre-avancos-e-desigualdades-na-ultima-decada/

 

*Ana Carla Crispim é gerente de pesquisa no Instituto Ayrton Senna e membra do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto. 

 

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