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Débora Garofalo

Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo

Publicado em 01/06/2026

Educação em tempos de IA: como formar humanos em um mundo hiperconectado

O debate atual não deve ser apenas sobre tecnologia nas escolas, mas sobre o tipo de humanidade que queremos formar em uma sociedade profundamente mediada por telas, dados e algoritmos

Vivemos uma das maiores transformações da história. A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, produz músicas, responde perguntas complexas e toma decisões que impactam diretamente a vida das pessoas. Em poucos segundos, algoritmos conseguem organizar informações, prever comportamentos e personalizar conteúdos para milhões de usuários ao redor do mundo. Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão urgente discutir o papel da educação.

O debate atual não deve ser apenas sobre tecnologia nas escolas, mas sobre o tipo de humanidade que queremos formar em uma sociedade profundamente mediada por telas, dados e algoritmos.

A escola precisa compreender que ensinar tecnologia não basta. É preciso ensinar discernimento, ética, pensamento crítico, responsabilidade digital e consciência social. Porque o maior risco da inteligência artificial não é a máquina pensar como humanos. É os humanos deixarem de pensar criticamente.

Segundo relatório da UNESCO, mais de 80% dos estudantes em idade escolar já utilizam algum tipo de ferramenta baseada em inteligência artificial, mesmo sem perceber. Plataformas digitais, redes sociais, mecanismos de busca e aplicativos educacionais utilizam algoritmos constantemente para orientar conteúdos, comportamentos e decisões. Ao mesmo tempo, pesquisas internacionais apontam crescimento significativo dos índices de ansiedade, hiperestimulação digital, dificuldade de concentração e sofrimento emocional entre crianças e adolescentes.

Estamos diante de uma geração conectada o tempo todo, mas, muitas vezes, desconectada de si mesma.

A hiperestimulação causada pelo excesso de telas, notificações e informações rápidas tem impactado diretamente a capacidade de foco, de escuta e de aprofundamento. Crianças e jovens acostumados a conteúdos instantâneos têm dificuldade em lidar com processos longos, com a leitura crítica e com a frustração. Soma-se a isso a cultura da comparação social intensificada pelas redes digitais, que afeta a autoestima, a saúde emocional e as relações interpessoais.

 

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Por isso, falar de educação hoje também é falar de saúde mental.

A escola precisa se tornar um espaço de acolhimento, escuta e desenvolvimento socioemocional. Precisamos ensinar crianças e adolescentes a lidar com as emoções, a estabelecer relações saudáveis com a tecnologia e a compreender os impactos do ambiente digital em suas vidas. Educação emocional não pode mais ser tratada como algo secundário. Ela é central para a aprendizagem.

Mas os desafios não param aí. A ascensão da inteligência artificial também acarreta questões éticas profundas. Quem produz a informação? Quem controla os algoritmos? Como diferenciar verdade de manipulação? Como combater fake news em um mundo em que imagens, vídeos e textos podem ser facilmente fabricados?

Mais do que ensinar estudantes a utilizar ferramentas digitais, precisamos ensiná-los a questioná-las.

É fundamental discutir autoria, privacidade, vieses algorítmicos e responsabilidade digital dentro das escolas. Os algoritmos não são neutros. Eles refletem interesses, escolhas e padrões da sociedade. Quando não compreendidos criticamente, podem reforçar preconceitos, desigualdades e exclusões. Nesse contexto, uma das habilidades mais importantes do futuro será a capacidade de fazer boas perguntas.

 

Inteligência Artificial

A escola precisa compreender que ensinar tecnologia não basta. É preciso ensinar discernimento, ética, pensamento crítico, responsabilidade digital e consciência social (Foto: Shutterstock)

 

A inteligência artificial pode fornecer respostas rápidas, mas apenas seres humanos conseguem formular perguntas profundas, éticas e transformadoras. Por isso, talvez uma das frases mais importantes para a educação contemporânea seja:

“Precisamos ensinar os alunos a perguntar melhor, não apenas a buscar respostas mais rápidas.”

Essa mudança exige uma transformação nas práticas pedagógicas. O modelo tradicional, baseado apenas na transmissão de conteúdo, já não responde às necessidades do presente. Hoje, a informação está disponível em qualquer dispositivo. O diferencial da escola passa a ser a capacidade de transformar informação em conhecimento significativo.

 

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Isso implica trabalhar com metodologias mais investigativas, colaborativas e criativas.

Projetos interdisciplinares, cultura maker, aprendizagem baseada em problemas, debates éticos e experiências mão na massa ajudam os estudantes a desenvolver autonomia, criatividade e protagonismo. Quando crianças constroem soluções, investigam problemas reais e utilizam tecnologia para criar (e não apenas consumir), elas passam a compreender seu papel no mundo de forma mais crítica e ativa.

A inteligência artificial também pode contribuir positivamente para a educação quando utilizada com propósito pedagógico. Ferramentas adaptativas, por exemplo, podem auxiliar na personalização da aprendizagem, respeitando os ritmos, as dificuldades e as potencialidades individuais dos estudantes. Isso pode representar avanços importantes na recomposição da aprendizagem e no acompanhamento pedagógico.

No entanto, personalizar não significa automatizar completamente o ensino.

Nenhuma tecnologia substitui o vínculo humano entre professor e estudante. Nenhum algoritmo consegue compreender integralmente as emoções, os contextos sociais ou os sonhos de uma criança. O professor continua sendo peça central da aprendizagem justamente porque educar é uma experiência humana, relacional e afetiva.

E quando falamos em tecnologia na educação, também precisamos falar sobre desigualdade.

Existe a falsa ideia de que inclusão digital significa apenas distribuir equipamentos ou garantir acesso à internet. Mas o acesso tecnológico, sem formação crítica, aprofunda desigualdades em vez de reduzi-las.

A inclusão digital envolve repertório, mediação pedagógica, oportunidade, formação docente e acesso significativo ao conhecimento.

Muitos estudantes possuem celulares, mas não sabem utilizá-los para a criação, a investigação ou a produção de conhecimento. Muitas escolas possuem equipamentos, mas ainda carecem de formação adequada para integrar inovação às práticas pedagógicas.

Por isso, democratizar tecnologia não significa apenas conectar máquinas. Significa conectar pessoas a possibilidades.

A experiência brasileira mostra que inovação educacional não depende necessariamente de estruturas sofisticadas. Projetos de cultura maker, robótica com sucata, pensamento computacional desplugado e aprendizagem criativa demonstram que é possível desenvolver competências atuais mesmo em contextos de baixa infraestrutura.

 

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A verdadeira transformação acontece quando o estudante percebe que pode criar, experimentar, resolver problemas e impactar sua comunidade. Esse talvez seja o papel mais importante da educação contemporânea: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo digital sem perder o que nos torna humanos.

Porque, no fim, a grande pergunta não é se a inteligência artificial vai transformar a educação. Ela já está transformando.

A pergunta central é: que tipo de sociedade queremos construir a partir disso?

Precisamos de escolas que ensinem tecnologia, mas também humanidade. Que trabalhem a programação, mas também a ética. Que discutam inteligência artificial, mas fortaleçam a empatia, a criatividade e a responsabilidade social.

O futuro da educação não será definido apenas pelas máquinas que criamos, mas também pela capacidade humana de usar o conhecimento com consciência, propósito e sensibilidade.

E talvez, justamente em um mundo cada vez mais automatizado, o que mais precisaremos preservar seja aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir por completo: o olhar humano, a escuta, o afeto e a capacidade de transformar vidas por meio da educação.

 

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