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Cultura Oceânica

Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula

Publicado em 02/02/2026

O que são as Escolas Azuis e por que essa ideia tem se espalhado pelo mundo

Ao compreender como o oceano influencia sua vida cotidiana, o aluno passa a enxergar o próprio território de outra forma

Por Ana Vitória Tereza de Magalhães* | Algumas ideias se espalham rapidamente porque resolvem um problema antigo de um jeito novo. Outras porque, finalmente, dão nome a algo que muita gente já sentia, mas não sabia como explicar. O movimento das Escolas Azuis faz um pouco das duas coisas, e talvez seja por isso que tenha conquistado educadores, alunos e formuladores de políticas públicas em mais de 50 países.

À primeira vista, o conceito parece simples: escolas que trabalham o oceano de forma integrada às disciplinas. Na prática, porém, trata-se de um modelo educacional mais profundo, que usa o oceano como fio condutor para repensar o aprendizado, espaços educativos e como o ensino é realizado, conectando disciplinas. As Escolas Azuis preparam jovens para lidar com desafios climáticos, sociais e econômicos em um mundo cada vez mais conectado e com mudanças que acontecem de forma abrupta.

 

O oceano e sua influência na vida cotidiana

No Brasil, falar de oceano ainda soa, para muitos, como um assunto distante, quase exclusivo de quem vive no litoral. Mas é justamente essa percepção que as Escolas Azuis ajudam a desmontar. Mesmo em estados sem acesso direto ao mar, como Minas Gerais, Goiás ou Mato Grosso, decisões cotidianas relacionadas à água, à produção agrícola, à energia, ao consumo e à gestão de resíduos impactam diretamente o oceano. O café que exportamos, os minérios que seguem para os portos, o regime de chuvas regulado pelos sistemas oceânicos, tudo passa pelo mar, ainda que ele não esteja visível da janela.

As Escolas Azuis partem dessa relação local-global, ou melhor, “glocal”. Ao compreender como o oceano influencia sua vida cotidiana, o aluno passa a enxergar o próprio território de outra forma. Entender o oceano passa a ser entender o lugar onde se vive, com o que seus pais trabalham, o país que se habita e o mundo do qual se faz parte, desenvolvendo senso de pertencimento, responsabilidade e cidadania.

 

Leia: Brasil avança na difusão da cultura oceânica nas escolas e redes de ensino

 

Venho de Minas Gerais, terra de montanhas, café e rios que deságuam no Atlântico. Quando concluí o ensino médio, em 2008, o oceano praticamente não existia na escola. Falava-se de meio ambiente de forma genérica e distante, sem conexão com a vida real. Nenhum colega seguiu carreira ligada às ciências do mar. Aos 15 anos, porém, um livro de Amyr Klink encontrado na estante do meu pai abriu uma fresta de curiosidade. A travessia solo da Namíbia ao Brasil revelou algo essencial: mesmo longe da costa, estávamos profundamente conectados a um planeta coberto por água.

Essa conexão invisível me levou a estudar a água como motor da vida e a questionar como cidades, escolas e políticas públicas poderiam ser pensadas de forma mais integrada. Como decisões tomadas longe da costa produzem impactos globais sobre o oceano? Essa pergunta acabou me levando a trabalhar com educação oceânica em escala internacional, apoiando escolas no desenvolvimento de projetos Escola Azul. Hoje, vivendo em Portugal, nos Açores, e vendo o oceano todos os dias, essa certeza se reforça: o oceano é vida, e precisamos compreendê-lo melhor. 

 

O que são as Escolas Azuis?

Diferentemente de iniciativas pontuais, extracurriculares ou ações restritas a datas comemorativas, as Escolas Azuis trabalham com projetos estruturados e contínuos, nos quais o oceano conecta alunos de diferentes idades, professores de diferentes áreas e a comunidade ao redor da escola. O foco não é decorar conceitos, mas desenvolver competências essenciais, como pensamento sistêmico, consciência crítica, responsabilidade coletiva e capacidade de transformar conhecimento em ação. Isso se traduz em projetos de ciência cidadã, monitoramento ambiental, produções artísticas, clubes ambientais, ações comunitárias e parcerias com universidades, empresas, ONGs e até governos.

Um elemento central desse movimento é a certificação Escola Azul, feita pelo programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela reconhece escolas que assumem um compromisso institucional com a educação oceânica, adotando uma abordagem verdadeiramente integral, de 360 graus. Cada país conta com uma entidade certificadora responsável por avaliar os projetos a partir de critérios claros e adaptados ao seu contexto educacional. Na prática, isso significa integrar o oceano não apenas ao currículo, mas também à gestão escolar, aos espaços físicos, à cultura da escola e à relação com a comunidade. A certificação assegura que a educação oceânica não seja uma iniciativa pontual ou individual, e sim um processo contínuo, que passe a ser trabalhado ao longo do ano e com metas definidas, protagonismo estudantil e alinhamento com valores como inclusão, sustentabilidade e bem-estar.

 

Conheça o programa Escola Azul Brasil

 

Em muitos projetos realizados por professores, o oceano também aparece fora da sala de aula. Ele aparece na arquitetura das escolas, nos espaços educativos, pensados para promover conexão com a natureza, na alimentação escolar, com escolhas mais sustentáveis e responsáveis, no recreio, nas artes, na literatura, na música e na educação física, com incentivo a esportes aquáticos sempre que possível. A diversidade cultural e territorial dos alunos é valorizada, garantindo acesso ao conhecimento em ambientes acolhedores e inclusivos.

Portugal foi o primeiro país a criar uma rede nacional de Escolas Azuis, em 2017. O modelo se espalhou rapidamente pela Europa e, hoje, está presente em mais de 50 países do Caribe à África. Em 2024, o programa foi oficialmente endossado no âmbito da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, consolidando seu papel como referência internacional. O que chama atenção é sua capacidade de adaptação, de pequenas escolas rurais no interior do Brasil a grandes centros urbanos como Nova York ou Paris, o foco continua o mesmo: trazer os holofotes para o oceano.

 

Currículo Azul

O Brasil deu um passo histórico ao integrar a cultura oceânica a um currículo nacional, posicionando o país não apenas como guardião da Amazônia Azul, mas como formador das próximas gerações que irão decidir sobre o uso do oceano. As Escolas Azuis fazem parte deste processo e dialogam com o futuro do trabalho, aproximando estudantes de temas como biodiversidade marinha, energia renovável, transporte marítimo, pesca responsável, turismo costeiro e inovação, criando pontes com a economia azul.

Enquanto milhares de escolas já adotam modelos de escolas verdes, a educação oceânica ainda permanece à margem do debate sobre sustentabilidade. Nesse contexto, a Escola Azul surge como um passo natural e necessário. O oceano regula o clima, sustenta economias inteiras e influencia diretamente a qualidade de vida no planeta, e ainda assim permanece, em grande parte, fora do currículo escolar. Talvez o maior acerto das Escolas Azuis seja este, o oceano deixa de ser apenas um conteúdo e passa a ser uma experiência educativa.

Ana Vitória MagalhãesSe eu pudesse voltar aos meus 15 anos, em Minas, pegaria novamente aquele livro de Amyr Klink, mas desta vez com a certeza de que poderia trazer o oceano e minha experiência para dentro da escola, nas escolhas cotidianas e na formação de uma geração capaz de cuidar do planeta como extensão da própria vida.

 

*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul.

 

Um jornalismo azul

“A revista Educação compreende a importância do oceano para a regulação climática e, por muitas razões, para a sobrevivência do planeta em que vivemos. Diante de uma crise ambiental cada vez mais alarmante, a publicação reconhece a necessidade de se abrir para um jornalismo azul, com espaço para pautas que possam levar educação oceânica com informação de qualidade aos leitores. Por isso, a revista dá início à coluna ‘Cultura Oceânica’, um lugar para que especialistas compartilhem conhecimento de maneira descomplicada.”

Gustavo Lima, editor web.

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