NOTÍCIA
Em um cenário marcado pela concorrência da atenção com múltiplas telas, o livro oferece ordem, coerência e propósito pedagógico ao processo de aprendizagem
Por Ângelo Xavier* | Há muitas formas de se desenvolver uma nação ou o indivíduo, mas quase nenhuma, em sociedades contemporâneas, que passe à margem do livro. Ao longo da história, o livro comprovou ser uma tecnologia de baixo custo e alto impacto. É base para a formação de capital humano e para o crescimento econômico sustentável.
Tratar o livro como gasto é um equívoco que compromete o futuro. Em qualquer país que valoriza o conhecimento, o acesso estruturado à leitura deve ser compreendido como investimento essencial, tão estratégico quanto o desembolso para áreas como infraestrutura ou tecnologia.
No Brasil, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) cumpre justamente esse papel de longo prazo: não apenas fornece anualmente cerca de 150 milhões de livros utilizados por alunos das escolas da rede pública de ensino, mas sustenta uma política contínua de formação de leitores.
Países que tratam educação como infraestrutura colhem ganhos em produtividade e inovação. E o livro didático funciona como um dos principais pilares na construção e aperfeiçoamento desse aprendizado permanente, especialmente em contextos de desigualdade, como o brasileiro.
Mais do que garantir acesso ao material didático, o PNLD cria condições para algo mais profundo e duradouro: o hábito da leitura. A presença constante do livro no cotidiano escolar estabelece rotinas, desenvolve familiaridade com o texto e contribui para o desenvolvimento de competências e atributos fundamentais, como domínio da leitura, compreensão textual e autonomia intelectual. Formar leitores não é resultado de ações pontuais, mas de exposição sistemática e orientada ao longo do tempo.
Nesse sentido, o livro didático deve ser compreendido como uma tecnologia pedagógica consolidada. Em um cenário marcado pela concorrência da atenção com múltiplas telas e pelo bombardeio de informações, muitas vezes sedutoras e igualmente irrelevantes ou até nocivas à formação e à saúde das novas gerações, o livro oferece ordem, coerência e propósito pedagógico ao processo de aprendizagem. Estrutura percursos, conecta conteúdos e reduz a fragmentação, funcionando como fio condutor da experiência educacional, inclusive em sintonia com recursos digitais.
O investimento em livros também produz efeitos que vão além da sala de aula. Ao fortalecer a cadeia editorial, incentivar a produção de conhecimento e ampliar a circulação de referências culturais, o PNLD contribui para o desenvolvimento de um ecossistema educacional mais robusto. O impacto, portanto, além de pedagógico, é cultural e econômico; é renda e motor de inovação social, capacidade crítica e participação cívica.

Formar leitores exige tempo, continuidade e previsibilidade. É um processo cumulativo, que depende de políticas públicas estáveis e bem estruturadas (Foto Shutterstock)
Formar leitores exige tempo, continuidade e previsibilidade. Trata-se de um processo cumulativo, que depende de políticas públicas estáveis e bem estruturadas. Interrupções, atrasos ou incertezas, como a falta de um orçamento obrigatório para o PNLD, uma das bandeiras da Abrelivros, comprometem não apenas a logística de distribuição, mas a própria construção de vínculos com a leitura ao longo da trajetória escolar e de vida.
Por isso, é preciso inverter a lógica do debate: o verdadeiro custo não está no investimento em livros, mas na sua ausência. A falta de acesso qualificado à leitura aprofunda desigualdades, limita o desenvolvimento cognitivo e reduz as oportunidades futuras de milhões de estudantes.
O preço da omissão é muito mais alto, para o indivíduo e para o país. Sociedades que melhoraram significativamente sua educação básica tiveram aumentos relevantes no Produto Interno Bruto (PIB) de longo prazo, o que mostra uma correlação robusta entre capital humano e crescimento.
Com as devidas ressalvas, é o caso da Finlândia e de países escandinavos, como Suécia e Noruega, onde o livro e a educação, há pelo menos um século, foram priorizados como estratégia nacional. Acesso universal a livros, com um sistema de bibliotecas públicas altamente capilarizado, formaram um ecossistema educacional potente, com forte incentivo à leitura. O modelo criou as bases para uma economia com produtividade e alta capacidade de inovação, algo fundamental em tempos de constantes mudanças tecnológicas.
Há uma relação direta entre letramento, pensamento crítico e capacidade de inovar. A falta de investimento em livros, e logo, em capital humano, molda a própria estrutura econômica. O setor de serviços representa grande parte do Produto Interno Bruto tanto no Brasil – onde corresponde a mais de 70% do PIB — quanto em países avançados — mas com diferenças cruciais. Enquanto no Brasil a predominância, em muitas situações, é de serviços de baixa produtividade, nos países desenvolvidos o maior peso é de serviços intensivos em conhecimento e valor (como design, tecnologia, finanças, P&D).
Qual é a diferença central? A qualificação da mão de obra está diretamente ligada à educação e à leitura. Cada ano adicional de escolaridade, segundo estimativas do World Bank, pode aumentar a renda individual em cerca de 8% a 10%. A Coreia do Sul é outro caso exemplar, que se transformou de país agrário em potência tecnológica em poucas décadas, graças à educação e ao acesso a materiais didáticos como base da estratégia de desenvolvimento.
Ao garantir a presença do livro nas escolas públicas, o PNLD não apenas distribui materiais didáticos: ele estrutura uma política de formação de leitores e, consequentemente, de cidadãos mais críticos, autônomos e preparados para os desafios da vida política e econômica que terão em suas vidas. Investir em livros é, em última instância, investir na capacidade de uma nação de compreender, inovar e se desenvolver.
* Ângelo Xavier é presidente da Abrelivros – Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais