NOTÍCIA
Estados e municípios têm até 2027 para incluir a crise climática em seus planos de educação; tema volta ao centro do debate com a COP31, que começa dia 9
As redes de ensino do país terão de planejar como suas escolas vão enfrentar calor extremo, enchentes e secas. O novo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em abril, exige que ao menos 60% das redes tenham planos de prevenção, mitigação e adaptação às mudanças do clima até 2031, e todas até 2036.
A regra está no objetivo 8 da Lei 15.388, de 2026, incluído durante a tramitação no Congresso. Ele também determina que todas as escolas tenham conforto térmico e promovam educação ambiental até o fim da vigência do plano. O primeiro prazo é mais curto: os estados têm até 14 de abril de 2027, e os municípios até 14 de julho de 2027, para elaborar ou adaptar seus planos de educação à nova lei.
O tema ganha atualidade com a COP31, a conferência do clima da ONU, que acontece de 9 a 20 de novembro em Antália, na Turquia, sob presidência compartilhada entre o país anfitrião e a Austrália, segundo a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Os negociadores herdam de Belém, sede da COP30, impasses sobre o abandono dos combustíveis fósseis e sobre a promessa de triplicar até 2035 o dinheiro para adaptação. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os 11 anos entre 2015 e 2025 são os mais quentes em 176 anos de medição.
Para as escolas brasileiras, o risco já é concreto. Quase 90% das crianças e adolescentes do país estão expostos a pelo menos um risco climático, e 370 mil estudam em escolas localizadas em áreas de risco nas capitais, segundo nota técnica publicada em outubro pelo Unicef, pelo Instituto Alana e pelas entidades que reúnem secretários e conselhos municipais de educação (Undime e Uncme).
O documento orienta as redes a começar por um diagnóstico do próprio território, a investir em soluções como árvores, telhados verdes e captação de água da chuva e a envolver os alunos na elaboração dos planos. “É preciso garantir espaços escolares mais resilientes”, diz no comunicado Mônica Dias Pinto, chefe de Educação do Unicef no Brasil.

Quase 90% das crianças e adolescentes do país estão expostos a pelo menos um risco climático, e 370 mil estudam em escolas localizadas em áreas de risco nas capitais (Foto: Shutterstock)
Algumas escolas particulares paulistas já fazem parte do que a nota recomenda. Na Escola Villare, em São Caetano do Sul, no ABC, a captação de chuva nasceu de uma pergunta de crianças de 4 e 5 anos, que notaram a água escorrendo pelas calhas e sumindo nos ralos. A turma visitou a cisterna do Sesc São Caetano, entrevistou os responsáveis e desenhou uma proposta, que o setor de manutenção aprovou. A cisterna foi construída em 2024, e a água que ela recolhe até hoje é usada pela escola. “A intenção dos projetos da escola é que o conhecimento produzido pelos alunos ultrapasse os limites da sala de aula e tenha utilidade para toda a comunidade”, diz Gabriel Pironeli, coordenador pedagógico da educação infantil.

Alunos do ensino fundamental da Escola Vera Cruz estudam os rios canalizados e soterrados da capital e relacionam o crescimento da cidade, a impermeabilização do solo e o sistema de drenagem às enchentes (Foto: arquivo Escola Vera Cruz)
Na Escola Vera Cruz, na zona oeste de São Paulo, o diagnóstico do território virou conteúdo. Alunos do ensino fundamental estudam os rios canalizados e soterrados da capital e relacionam o crescimento da cidade, a impermeabilização do solo e o sistema de drenagem às enchentes. O trabalho faz parte de um currículo de alfabetização climática que vai da educação infantil ao ensino médio e inclui o exame crítico das informações sobre o clima. “O estudante precisa entender que cada decisão individual está ligada a processos ecológicos, sociais e econômicos”, diz o biólogo André Reinach, responsável pelo currículo.
No Colégio Magno/Mágico de Oz, na zona sul da capital, o prédio virou material de aula. Na unidade Sócrates, 273 painéis solares servem para explicar a relação entre fontes de energia e emissões, e biodigestores que transformam restos orgânicos em biogás entram nas aulas sobre decomposição. A escola também deixou de usar copos descartáveis, que chegavam a 125 mil por mês.
É do Magno a estudante que vai acompanhar a COP31 neste ano. Anne Schiffer Kansog, aluna da 1ª série do ensino médio, embarca nesta sexta-feira (6) para Antália com um trabalho sobre o calor e a seca em São Paulo e as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Ela participa do #Decarbonize, programa de educação climática do The Centre for Global Education que reúne escolas de dezenas de países, e viaja com a coordenadora de Ciências, Daniela Camargo, e com Milton Ribeiro, gestor do programa de sustentabilidade da escola. O colégio envia alunos às conferências do clima desde 2019. “Queremos que o estudante consiga compreender uma notícia, reconhecer evidências e discutir propostas considerando seus efeitos ambientais e sociais”, diz Daniela.