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Débora Garofalo

Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo

Publicado em 06/11/2026

A inteligência artificial não vai salvar a educação se não prepararmos os professores

É necessário construir uma política de desenvolvimento profissional que reconheça os professores como protagonistas

A inteligência artificial já chegou às escolas, às universidades e à rotina de estudantes e professores. Está presente na produção de textos, na pesquisa, na elaboração de atividades, na tradução de conteúdos e em ferramentas que prometem personalizar a aprendizagem. Diante dessa expansão, a pergunta que a educação precisa fazer não é apenas como utilizar a inteligência artificial, mas a serviço de quem ela será utilizada, com quais objetivos e sob quais princípios. Afinal, nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, transforma a educação por conta própria. Sem intencionalidade pedagógica, formação docente e políticas públicas consistentes, o risco é modernizarmos as ferramentas sem transformar as experiências de aprendizagem.

A inteligência artificial generativa oferece possibilidades importantes. Pode apoiar o planejamento das aulas, ajudar na adaptação de materiais para diferentes necessidades de aprendizagem, ampliar o acesso a informações e favorecer novas formas de criação. Também pode contribuir para reduzir parte do trabalho operacional dos professores, permitindo que dediquem mais tempo ao acompanhamento dos estudantes. Mas essas possibilidades não se realizam automaticamente. Dependem das condições concretas das escolas, dos objetivos educacionais e, sobretudo, da capacidade dos profissionais de compreender a tecnologia, avaliar seus resultados e decidir quando faz sentido utilizá-la.

O relatório de monitoramento global da educação da UNESCO, publicado em 2023, alerta que as evidências sobre os benefícios das tecnologias educacionais ainda são limitadas e desiguais. O documento destaca que a rapidez das mudanças tecnológicas dificulta a avaliação de seus efeitos e que parte significativa das evidências disponíveis vem de países de maior renda. A recomendação é clara: antes de incorporar uma solução tecnológica, é necessário avaliar sua adequação, equidade, sustentabilidade e efetiva contribuição para a aprendizagem. Não basta a ferramenta ser inovadora; ela precisa responder a uma necessidade educacional real. 

 

Professor

Investir em inteligência artificial sem investir nas pessoas é inverter as prioridades (Foto: Shutterstock)

 

No Brasil, os dados também reforçam a necessidade de olhar para a formação docente. A pesquisa TIC Educação 2024, realizada pelo Cetic.br, aponta que 54% dos professores de escolas de Ensino Fundamental e Médio participaram de atividades de formação continuada sobre tecnologias digitais aplicadas ao ensino e à aprendizagem nos 12 meses anteriores à pesquisa. O percentual foi de 43% entre docentes das escolas municipais. O levantamento também mostra que o uso de inteligência artificial em atividades educacionais já aparece entre os temas abordados nas formações. Esses números revelam avanços, mas também evidenciam que o acesso à preparação profissional não alcança todos os educadores da mesma maneira.

 

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Esse cenário nos coloca diante de uma questão essencial: como exigir que professores orientem crianças e jovens em um ambiente tecnológico em rápida transformação sem garantir tempo, recursos e oportunidades para que eles próprios aprendam? Não podemos atribuir aos educadores, individualmente, a responsabilidade de acompanhar todas as novidades, experimentar ferramentas, identificar riscos e redesenhar suas práticas, como se isso pudesse acontecer sem investimento e apoio institucional. A formação docente precisa anteceder a adoção de novas tecnologias ou, quando elas já estão presentes, acompanhar sua implementação de maneira contínua, crítica e contextualizada.

Isso significa ir além de oficinas que ensinam a escrever comandos para uma plataforma ou a produzir uma atividade com poucos cliques. É importante compreender, ainda que em níveis diferentes de aprofundamento, como a inteligência artificial funciona, de onde vêm os dados que alimentam seus sistemas, quais são seus limites e por que suas respostas podem conter erros, informações inventadas ou visões distorcidas da realidade. O professor precisa desenvolver critérios para avaliar conteúdos gerados por IA, proteger dados pessoais, orientar os estudantes sobre desinformação e decidir quando o uso dessas ferramentas favorece a aprendizagem e quando pode comprometer o desenvolvimento da autonomia intelectual.

Há uma dimensão que não pode ficar de fora dessa conversa: a tecnologia não é neutra. Sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos a partir de escolhas humanas, bases de dados, critérios de treinamento, interesses comerciais e decisões sobre quais informações serão priorizadas. Esses processos podem reproduzir preconceitos sociais, invisibilizar determinados grupos, privilegiar perspectivas culturais e linguísticas ou apresentar como verdade respostas que parecem convincentes, mas estão incorretas. Quando uma escola utiliza essas ferramentas sem questioná-las, pode acabar reproduzindo desigualdades sob uma aparência de eficiência e objetividade.

Por isso, a educação digital não pode se limitar ao domínio instrumental. Precisamos formar professores e estudantes capazes de perguntar quem desenvolveu determinada tecnologia, quais dados sustentam suas respostas, quais vozes estão representadas e quais foram deixadas de fora. A inteligência artificial deve ser também objeto de estudo, investigação e reflexão ética. Isso exige aproximar a cultura digital da educação midiática, do pensamento computacional, da cidadania e da capacidade de analisar criticamente as informações que circulam na sociedade.

 

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A UNESCO, em seu Marco de Competências em Inteligência Artificial para Professores, publicado em 2024, organiza essa formação em cinco dimensões: mentalidade centrada no ser humano, ética da IA, fundamentos e aplicações da tecnologia, pedagogia com IA e desenvolvimento profissional. A proposta reforça que os educadores precisam não apenas conhecer ferramentas, mas compreender suas implicações, preservar a autonomia humana e utilizar a tecnologia de forma segura, ética e pedagogicamente fundamentada. 

Essa perspectiva também nos ajuda a enfrentar uma preocupação crescente: a autoria. Se estudantes utilizam a inteligência artificial para produzir respostas, textos e projetos, a escola precisa criar oportunidades para que aprendam a formular perguntas, verificar informações, comparar perspectivas, revisar resultados e justificar suas escolhas. Proibir indiscriminadamente a tecnologia não desenvolve essas competências. Tampouco basta aceitar qualquer conteúdo produzido por ela. O caminho é construir práticas pedagógicas que tornem visíveis os processos de pensamento, valorizem a autoria e ensinem a utilizar a IA como apoio, sem transferir a ela a responsabilidade de pensar.

O mesmo princípio vale para os professores. A inteligência artificial pode sugerir caminhos, mas não conhece integralmente a realidade de uma turma, as relações construídas em sala de aula, os desafios de cada território ou as necessidades que emergem da convivência cotidiana. É o educador quem interpreta essas circunstâncias, estabelece vínculos, faz escolhas e assume a responsabilidade pedagógica. A tecnologia pode ampliar suas possibilidades de atuação, mas não deve reduzir sua autonomia nem transformar o ensino em uma sequência de tarefas automatizadas.

Para que isso aconteça, precisamos de políticas públicas articuladas. A formação inicial e continuada deve incorporar a inteligência artificial de forma crítica e prática, com acompanhamento, experimentação e espaços de troca entre professores. As redes de ensino precisam garantir infraestrutura, conectividade, orientações claras sobre privacidade e proteção de dados, além de critérios transparentes para a contratação e a avaliação de soluções tecnológicas. Também é necessário assegurar que a adoção dessas ferramentas não aprofunde as desigualdades entre escolas com diferentes condições de acesso e funcionamento.

 

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Investir em inteligência artificial sem investir nas pessoas é inverter as prioridades. O debate sobre inovação educacional precisa considerar o custo das ferramentas, mas também o tempo de formação, as condições de trabalho, a qualidade dos materiais e a capacidade de avaliar resultados. Mais do que distribuir plataformas, é necessário construir uma política de desenvolvimento profissional que reconheça os professores como protagonistas das decisões, e não como simples usuários de tecnologias definidas por terceiros.

A inteligência artificial fará parte do presente e do futuro da educação. A questão é se permitiremos que sua entrada nas escolas seja conduzida apenas pela velocidade do mercado ou se seremos capazes de orientá-la por um projeto educativo comprometido com a equidade, a autoria, a ética e a aprendizagem. Para isso, precisamos deslocar o foco da novidade para o propósito, da ferramenta para a formação e da promessa de eficiência para a qualidade das experiências educativas.

Não é a inteligência artificial que, sozinha, vai transformar a educação. São as pessoas, as escolhas pedagógicas e as políticas públicas que determinarão o sentido dessa transformação. Preparar os professores para compreender a tecnologia, reconhecer seus limites e explorar suas possibilidades não é uma etapa complementar da inovação. É uma condição para que ela tenha significado. Antes de ensinar com inteligência artificial, precisamos garantir que os educadores tenham condições de compreendê-la, questioná-la e decidir, com autonomia, quando e por que utilizá-la. É assim que a tecnologia poderá estar a serviço da educação, e não o contrário.

 

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