Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)
Publicado em 29/10/2026
Talvez a pergunta não seja como tornar os professores mais resilientes para lidar com adversidades, mas como construir condições para diminuí-las
Por Karen Cristine Teixeira, gerente de pesquisa do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto Ayrton Senna | Condições de trabalho, remuneração, saúde e bem-estar são alguns dos fatores que podem afetar a permanência de professores na educação básica. Segundo o novo relatório da OCDE – Education at a Glance, lançado em setembro, 10,3% dos professores brasileiros plenamente qualificados de escolas públicas deixaram a profissão em 2022, seja por aposentadoria ou abandono.
O percentual é superior à média da OCDE em 2024/2025, de 6,4%. Apenas 44,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental estão satisfeitos com suas condições de trabalho, 22,3% estão satisfeitos com sua remuneração e 21% relatam sentir muito estresse no trabalho. Esses dados ajudam a dimensionar algo que se traduz na realidade de muitas escolas: professores sobrecarregados, com a saúde e o bem-estar afetados e, em alguns casos, afastados e/ou pensando em não continuar.
Ao mesmo tempo, um estudo publicado em 2025 com mais de 43 mil professores de educação básica da rede pública brasileira, realizado por pesquisadores do Instituto Ayrton Senna, traz um resultado que chama atenção. Quanto maior a idade do professor, maior tende a ser sua resiliência ao estresse e sua capacidade de autorregular as emoções. Ao mesmo tempo, quanto mais anos de experiência docente, maior a redução observada nessas capacidades, redução que tende a se estabilizar após cerca de 15 anos de carreira.
Parece contraditório, mas esse padrão pode estar relacionado ao desgaste acumulado de uma profissão exercida, muitas vezes, em condições adversas, especialmente quando faltam apoio e condições adequadas por parte da gestão e do sistema educacional.

A literatura internacional caracteriza a resiliência docente como um fenômeno multidimensional, influenciado não apenas por recursos pessoais, mas também por relações entre colegas, apoio da gestão, cultura escolar e condições adequadas de trabalho (Foto: Shutterstock)
É possível que professores submetidos a essas condições e/ou que recebam menos suporte acabem deixando a profissão. Isso faz com que os professores mais velhos que permanecem na docência sejam, em parte, aqueles que conseguiram permanecer apesar dessas condições. Esse dado traz um risco: olhar para os
professores que continuam e concluir que “eles são os resilientes”, sem perceber que eles podem ser “sobreviventes” e que talvez muitos já tenham desistido pelo caminho. Por que precisamos que o professor seja tão resiliente?
A resiliência é, sem dúvida, uma qualidade importante. Ela ajuda a lidar com situações e emoções difíceis, recuperar-se de adversidades e encontrar caminhos diante dos problemas. O problema começa quando passa a ser tratada como uma espécie de “equipamento de proteção individual” contra problemas que também
deveriam ser enfrentados pela escola e pelo sistema educacional.
A literatura internacional caracteriza a resiliência docente como um fenômeno multidimensional, influenciado não apenas por recursos pessoais, mas também por relações entre colegas, apoio da gestão, cultura escolar e condições adequadas de trabalho. Estudos mostram também a relação entre a ausência desses fatores de proteção e o burnout. Portanto, desenvolver a resiliência não deveria significar
simplesmente ensinar professores a suportar melhor condições adversas.
Essa distinção é fundamental. Existe uma diferença entre desenvolver recursos para enfrentar os desafios da profissão e aumentar a capacidade individual de suportar condições de trabalho inadequadas. Uma formação
continuada que ensina estratégias de autorregulação pode ser relevante para o bem-estar docente. Seus efeitos, porém, serão limitados se não vier acompanhada de mudanças nas estruturas que produzem sobrecarga, isolamento profissional ou falta de apoio.
A resiliência precisa ser compreendida como resultado da interação entre características individuais e recursos disponíveis no ambiente de trabalho. Essa perspectiva amplia a discussão sobre o papel da gestão escolar e das redes de ensino.
A equipe gestora pode contribuir para criar ambientes de colaboração, oferecer apoio aos professores, organizar o trabalho de maneira mais sustentável e favorecer relações profissionais positivas. Mas gestores também estão condicionados por políticas mais amplas relacionadas a currículo, avaliação, financiamento, carreira, formação continuada e disponibilidade de profissionais. A construção de condições favoráveis à resiliência, portanto, não pode ser atribuída exclusivamente à escola ou ao professor: envolve diferentes níveis do sistema educacional.
Há ainda razões para tratar o bem-estar docente como uma questão educacional, e não apenas trabalhista. Estudos internacionais encontram associações entre burnout docente e resultados menos favoráveis de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes. Embora essas evidências não permitam afirmar que o adoecimento docente seja, isoladamente, causa de menor aprendizagem, elas indicam que o que acontece com quem ensina também pode afetar quem aprende.
A permanência docente na profissão resulta da interação entre recursos pessoais, relações profissionais, condições de trabalho e políticas educacionais. O desafio é aliar o desenvolvimento da resiliência acompanhado de apoio institucional, formação continuada, boas condições de trabalho e políticas de valorização profissional.
Afinal, a resiliência dos professores não deveria ser uma resposta à precariedade, mas uma força que possa florescer em ambientes que ofereçam cuidado, apoio e boas condições de trabalho.
*Karen Teixeira é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em avaliação psicológica em saúde e desenvolvimento pela Universidade Federal de Santa Catarina.
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