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Débora Garofalo

Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo

Publicado em 26/10/2026

Educação digital precisa tornar-se política estruturante

Precisamos ensinar a viver no mundo digital. Afinal, existe uma distância entre discutir tecnologia e educar para ela

A escola brasileira passou os últimos anos tentando responder a uma pergunta aparentemente simples: o celular deve ou não estar dentro da escola? Em janeiro de 2025, a Lei 15.100 restringiu o uso, por estudantes, de aparelhos eletrônicos pessoais nas instituições de educação básica, inclusive durante aulas, recreios e intervalos, com exceções previstas na própria legislação. 

A medida busca proteger a saúde, favorecer a aprendizagem e recuperar os espaços de convivência. É uma discussão necessária. Mas precisamos ir além dela. Tirar o celular das mãos do estudante não significa prepará-lo para o mundo digital. O aparelho pode estar dentro da mochila, mas os algoritmos continuam disputando sua atenção, as redes sociais influenciam comportamentos, a desinformação circula e a inteligência artificial produz textos, imagens e respostas. 

O mundo digital não fica do lado de fora dos muros da escola. É justamente por isso que a nova edição da TIC Educação, divulgada pelo Cetic.br em agosto de 2026, traz uma contribuição importante para esse debate. Os dados mostram que as escolas brasileiras estão avançando na discussão sobre os impactos das tecnologias.

Em 2025, 80% das instituições de ensino fundamental e médio discutiram os efeitos das tecnologias digitais sobre a saúde mental dos estudantes. Em 2024, eram 62%. Também aumentou a proporção de gestores que conversaram sobre tecnologia com professores e outros profissionais, passando de 68% para 86%, e com familiares, de 60% para 75%.

São avanços importantes. A escola está percebendo que tecnologia não é apenas uma ferramenta, mas que é também um elemento que transforma relações, comportamentos, aprendizagens e a própria sociedade.

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Formar quem ensina

Mas ainda existe uma distância entre discutir tecnologia e educar para ela. Segundo a TIC Educação 2025, apenas 65% das escolas desenvolvem alguma ação voltada à educação digital, à educação midiática e à cidadania digital. Entre os principais obstáculos estão a falta de materiais e recursos de apoio, dificuldades de infraestrutura, baixa participação das famílias e a falta de habilidades dos professores.

E aqui está uma questão que não podemos ignorar: como formar estudantes para um mundo digital se ainda não garantimos as condições necessárias para formar quem ensina? O debate precisa mudar de pergunta. A discussão sobre o celular não deveria terminar em ‘pode ou não pode?’. A pergunta mais importante é outra. Que educação precisamos oferecer para que crianças e adolescentes saibam utilizar as tecnologias com autonomia, criticidade, criatividade, segurança e responsabilidade?

Educação digital

Não podemos esperar que o professor seja especialista em cada nova ferramenta que surge. Precisamos garantir formação continuada, tempo, acompanhamento pedagógico e condições para experimentar (Foto: Shutterstock)

Estabelecer limites faz parte da educação. A escola precisa ser um espaço de concentração, convivência, leitura, brincadeira, movimento e interação. Não há nada de retrógrado em reconhecer que crianças e adolescentes precisam de momentos protegidos da hiperconectividade. O problema é imaginar que a questão termina quando o aparelho é guardado. A própria TIC Educação revela uma realidade a ser considerada. Entre as escolas que permitem que os estudantes levem seus celulares, 66% autorizam o uso desses celulares em atividades pedagógicas.

Em regiões como o Norte e o Nordeste, esse percentual é ainda maior. Isso também nos lembra de que o debate sobre tecnologia é, em essência, um debate sobre equidade. Para alguns estudantes, o celular é apenas uma distração; para outros, pode ser o principal dispositivo disponível para acessar conteúdos, pesquisar, produzir e aprender. Por isso, não podemos construir políticas educacionais ignorando as desigualdades brasileiras. Não existe educação digital de qualidade sem equidade digital.

 

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Da tecnologia como ferramenta à tecnologia como linguagem

Durante muito tempo, falar de tecnologia na escola significava falar de equipamentos, como computadores, tablets, lousas digitais, laboratórios e plataformas. Esses recursos continuam importantes, mas já não são suficientes.

Precisamos avançar da lógica do consumo para a lógica da autoria. Educar digitalmente é ensinar a pesquisar e verificar informações, compreender como funcionam os algoritmos, reconhecer manipulações, proteger dados pessoais, produzir conteúdos, criar soluções e utilizar a inteligência artificial de maneira ética.

A educação digital não pode ser uma palestra anual sobre os perigos da internet. Precisa estar presente no cotidiano escolar: na língua portuguesa, ao analisar uma notícia falsa; na matemática, ao interpretar dados; em ciências, ao discutir os impactos das tecnologias; em história, ao compreender transformações sociais; em projetos de programação e robótica, ao transformar estudantes de consumidores em criadores.

A escola precisa ensinar não apenas a usar a tecnologia, mas também a compreendê-la. O professor é a peça central. Nenhuma política de educação digital será consistente se a formação docente continuar a chegar depois da tecnologia.

A TIC Educação 2025 confirma esse desafio. Entre os obstáculos ao desenvolvimento de iniciativas de educação digital estão justamente a falta de habilidades dos professores e de materiais e recursos educacionais de apoio. 

Não podemos esperar que o professor seja especialista em cada nova ferramenta que surge. Precisamos garantir formação continuada, tempo, acompanhamento pedagógico e condições para experimentar. E a formação digital do docente não pode significar apenas ensinar a apertar botões. É preciso discutir currículo, metodologias, ética, cidadania digital, proteção de dados, inteligência artificial, autoria, avaliação e pensamento crítico. O professor precisa saber como utilizar uma tecnologia, mas, principalmente, quando utilizá-la, por qual motivo utilizá-la e quando não. Uma boa aula não acontece apenas porque há uma tela. Ela ocorre quando há intencionalidade pedagógica.

 

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A inteligência artificial acelera a urgência

A tecnologia já chegou; a política pedagógica ainda está chegando. Chama a atenção o fato de que 37% das escolas permitem que os estudantes utilizem inteligência artificial em tarefas educacionais. Não estamos mais falando de uma tecnologia do futuro. Ela já faz parte da realidade escolar.

Se queremos uma escola preparada para o nosso tempo, a educação digital precisa deixar de ser um projeto complementar e tornar-se uma política estruturante. Isso exige quatro movimentos. Primeiro, infraestrutura: conectividade de qualidade, dispositivos, acessibilidade, segurança e manutenção. Segundo, formação docente: contínua, contextualizada e acompanhada, com tempo para estudar, planejar, experimentar e compartilhar práticas. Terceiro, currículo: educação digital, midiática e cidadania digital precisam atravessar as áreas do conhecimento e estar relacionadas a situações reais. Quarto, participação das famílias: não podemos transferir exclusivamente à escola uma responsabilidade que deve ser compartilhada por toda a sociedade.

A discussão sobre o celular, portanto, pode ser muito maior do que a mera proibição de um aparelho. Podemos ensinar uma criança a guardar o celular e, ao mesmo tempo, a compreender o mundo que existe dentro dele.Podemos estabelecer limites sem abandonar a formação. Podemos proteger sem infantilizar. Podemos utilizar tecnologias sem transformar a escola em uma extensão das plataformas. E podemos ensinar inteligência artificial sem renunciar à inteligência humana.

Porque o futuro da educação digital não será decidido pelo lugar onde guardamos o celular. Será decidido pelo que ensinamos quando ele estiver guardado. E, nesse novo tempo, talvez essa seja uma das maiores responsabilidades da escola, a de não preparar estudantes para viver sem tecnologia, mas prepará-los para viver bem, criticamente e humanamente com ela.

 

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