NOTÍCIA

Edição 325

Autor

Thamyris Barbosa de Souza

Publicado em 30/10/2026

Integrado ao Saeb, Enem assume papel diagnóstico

A tarefa é desafiadora, já que os exames têm origens e objetivos distintos; especialistas analisam desafios técnicos e pedagógicos

A partir do próximo ano, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) passará a integrar oficialmente o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), tendo, então, uma segunda função para além do ingresso ao ensino superior: o de avaliar os estudantes do 3º ano do ensino médio. A tarefa é desafiadora, já que os exames têm origens e objetivos distintos. Vale lembrar que o Saeb é bienal e aplicado majoritariamente nas escolas públicas para avaliar a qualidade do ensino básico e a eficácia do sistema como um todo no país.

A mudança, como esperado, tem gerado reflexões de especialistas do setor, como é o caso de Maria Helena Guimarães de Castro, que entre 1995 e 2002 presidiu o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), sendo uma das criadoras do Enem. Segundo ela, essa decisão vem de uma antiga discussão entre o Inep e as secretarias estaduais com o objetivo de aumentar o interesse dos alunos na realização do Saeb. “As redes estaduais, com 80% das matrículas, indicavam que o engajamento dos estudantes era muito baixo quando o Saeb era aplicado depois do Enem”, explica.

Ano passado, por exemplo, o Saeb foi realizado no final de outubro e o Enem no começo de novembro. O engajamento é, portanto, a raiz e um dos pontos fortes da unificação. Mas não se ignora que, mesmo com esse benefício, a mudança traz diversos entraves técnicos. Um dos principais é o método de comparabilidade entre as avaliações. Embora estudiosos apontem que ela é tecnicamente possível, a complexidade pode colocar em risco a precisão dos cálculos do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) em comparação com os anos anteriores.

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O Enem precisará incorporar o contexto socioeconômico dos alunos nas métricas de desempenho por escola e rede (Foto: Agência Brasil)

 

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“É fundamental que essa nova metodologia permita acompanhar com exatidão a evolução da qualidade das escolas, considerando que estamos tratando de instrumentos com finalidades e naturezas distintas”, avalia Maria Helena, que não se opõe à integração das provas, mas defende que seja mantida, no mínimo, uma avaliação amostral do Saeb para garantir a comparabilidade dos dados ao longo do tempo e a continuidade da série histórica do Ideb.

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O engajamento dos alunos na prova do Saeb é a raiz e um dos pontos fortes da unificação, diz a especialista Maria Helena Guimarães de Castro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A mudança traz ainda outros desafios práticos, como a garantia de adesão. O Saeb é aplicado a todo o universo de alunos da rede pública (e privada, se houver interesse da instituição), enquanto o Enem possui inscrição voluntária. Dessa forma, se a intenção é utilizar o Enem para avaliar as redes de ensino, será necessário garantir que todos os alunos de escolas públicas estejam inscritos e realizem a prova, por exemplo. Daí as discussões, inclusive, de ampliação dos locais de aplicação do Enem.

Cuidado com os perigosos rankings

A mudança é vista com bons olhos pelo professor Fabrício Alves, fundador do Colégio Physics, em Belém (PA), instituição que é destaque nacional no Enem. Para Fabrício, a nova função diagnóstica do exame permitirá às escolas ampliar a análise. “Os novos resultados poderão contribuir para a revisão do currículo, formação dos professores, planejamento das intervenções pedagógicas e a identificação mais precisa das habilidades que precisam ser desenvolvidas desde as séries anteriores.” Mas reforça: “para isso, será fundamental que o Inep ofereça devolutivas pedagógicas claras e detalhadas às escolas”.

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Fabrício Alves, fundador do Colégio Physics, em Belém, avalia a mudança como positiva (Foto: arquivo pessoal)

Entre as adaptações do Enem, existe ainda a previsão de inserção de questões dissertativas nos próximos anos. De acordo com o presidente do Inep, Manuel Palácios, as questões abertas já são uma possibilidade para 2028. Ajuste que, na visão do professor Fabrício Alves, irá produzir impactos pedagógicos positivos. “O modelo do Enem mecanizou e engessou o ensino médio, privilegiando a velocidade de resolução em lugar do raciocínio e da interpretação. Em épocas de inteligência artificial, a implantação desse modelo seria um passo importante para a evolução da capacidade cognitiva dos estudantes”, argumenta.

 

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Outro ponto é que as duas avaliações colhem dados socioeconômicos, porém, de maneiras diferentes. Com a integração, o Enem precisará incorporar o contexto socioeconômico dos alunos nas métricas de desempenho por escola e rede. Isso evitaria, por exemplo, que a divulgação de médias brutas continue alimentando rankings distorcidos. “O risco de transformar o resultado em um ranking simplificado é desconsiderar contextos diferentes e incentivar práticas excessivamente voltadas ao treinamento da prova”, alerta o professor.

Entre comparabilidade dos resultados, definição das questões objetivas e dissertativas, adequação das matrizes curriculares, logística, inscrições, adesão dos estudantes e incorporação dos dados socioeconômicos, a integração entre Enem e Saeb ainda terá de superar uma série de desafios. Para Maria Helena, porém, há um ganho importante que pode impactar diretamente o ensino: “fazer com que o Enem passe a seguir as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nos próximos anos”.

 

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