NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Revista Educação

Publicado em 04/06/2026

O aprender na escola

Conversar com os alunos, criar espaços de escuta, valorizar o processo, apoiar os professores, revisar os dados utilizados, tudo isso faz parte de um movimento maior que coloca a aprendizagem no centro

Por Rodrigo Caneschi*, diretor executivo da rede Colégio Progresso BilíngueMuitas vezes, nós, gestores e educadores, nos vemos imersos em uma rotina que exige respostas rápidas, cumprimento de prazos e atenção constante a processos administrativos. Planilhas, reuniões, relatórios, indicadores e demandas operacionais passam a ocupar grande parte do nosso tempo e, quando nos damos conta, aquilo que deveria ser o centro da nossa atuação — a aprendizagem do aluno — acaba sendo observado à distância, quase como um reflexo indireto de tudo o que fazemos.

Mas será que essa distância é saudável? Será que conseguimos, de fato, compreender o que está acontecendo no processo de aprendizagem sem estarmos verdadeiramente próximos dele?

É comum acreditarmos que estamos acompanhando a aprendizagem quando analisamos resultados de avaliações externas, quando comparamos índices ou quando celebramos ou lamentamos desempenhos em provas padronizadas. Esses instrumentos, sem dúvida, têm o seu valor. Eles oferecem recortes importantes, ajudam a identificar tendências e podem orientar decisões estratégicas. No entanto, eles nos mostram apenas o produto final, o resultado de um processo longo, complexo e, muitas vezes, invisível. A pergunta que precisa ser feita é: o quanto estamos acompanhando esse processo enquanto ele acontece?

Nesse sentido, vale trazer uma reflexão provocadora do educador Cipriano Luckesi, que em uma palestra comparou a escola a uma cozinha. Nessa metáfora, o conhecimento é o prato a ser servido aos alunos. A grande questão levantada por ele é simples e, ao mesmo tempo, profunda: o quanto estamos experimentando aquilo que estamos servindo? Ou seja, o quanto estamos, de fato, acompanhando a qualidade do que está sendo preparado antes de chegar ao “cliente final”?

 

Índices e resultados

 Quando olhamos para os dados das nossas instituições, muitas vezes estamos focados apenas no prato pronto: resultados de avaliações externas, índices de desempenho, médias finais. Esses elementos são importantes, assim como um prato bem apresentado em um restaurante. Mas eles não nos contam como foi o processo de preparo, quais ingredientes foram utilizados, se houve ajustes ao longo do caminho ou se a receita fez sentido para quem estava cozinhando.

 

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Se um prato não agrada, um bom cozinheiro não espera o cliente terminar a refeição para perceber o problema. Ele prova durante o preparo, ajusta o tempero, observa a textura, revisa o processo. Na educação, deveria ser da mesma forma. Não podemos esperar o final do ciclo para identificar que algo não funcionou. Precisamos acompanhar o processo enquanto ele acontece, fazendo ajustes contínuos.

Quando pensamos na aprendizagem como algo vivo, dinâmico e em constante construção, torna-se evidente que não basta olhar apenas para o resultado. É preciso compreender o percurso. Cada aluno trilha um caminho único, com ritmos, dificuldades, avanços e descobertas próprias. Ignorar esse percurso é reduzir a educação a números, desconsiderando aquilo que realmente dá sentido ao ato de aprender: a experiência, a construção do conhecimento, o erro como parte do processo e o desenvolvimento da autonomia.

Aprender

A presença do gestor na sala de aula precisa fazer parte da rotina escolar, afirma o autor (Foto: Arquivo pessoal)

Ao longo do tempo, muitas escolas foram estruturadas para valorizar excessivamente o desempenho final. Isso gera uma cultura em que o foco se volta para a nota, para a aprovação, para o ranking. Nesse cenário, o processo acaba sendo secundarizado. Professores podem sentir pressão para “dar conta do conteúdo”, alunos podem se preocupar mais em acertar do que em compreender, e gestores podem acabar direcionando suas ações para indicadores que nem sempre traduzem a realidade da sala de aula.

Mas o que acontece quando decidimos inverter essa lógica? Quando escolhemos olhar primeiro para o processo e depois para o resultado? A resposta, embora desafiadora, é também transformadora. Passamos a valorizar as interações em sala de aula, as estratégias utilizadas pelos professores, as dúvidas dos alunos, as formas como eles pensam e constroem respostas. Começamos a enxergar a aprendizagem como algo que acontece no dia a dia, nas pequenas conquistas, nas tentativas e nos ajustes constantes.

 

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O gestor na sala de aula 

Nesse contexto, a presença do gestor na sala de aula ganha um novo significado. Não se trata de fiscalizar, avaliar ou julgar o trabalho do professor, mas de compreender o ambiente de aprendizagem. Estar em sala é observar como os alunos reagem, como participam, como interagem entre si e com o professor. É perceber se há engajamento, se há curiosidade, se há espaço para questionamento. É, sobretudo, uma oportunidade de aprender sobre a própria escola.

E essa presença não precisa — e nem deve — ser pontual ou esporádica. Ela precisa fazer parte da rotina. Assim como planejamos reuniões administrativas e acompanhamentos de indicadores, precisamos planejar momentos de imersão na sala de aula. Esses momentos nos permitem construir uma visão mais completa e mais realista do que está acontecendo. Eles nos ajudam a tomar decisões mais alinhadas com as necessidades dos alunos e dos professores.

Outro aspecto fundamental é o diálogo com os alunos. Quantas vezes, ao longo do ano, paramos para conversar com eles sobre como estão aprendendo? Não apenas sobre o que estão aprendendo, mas sobre como se sentem nesse processo. O que faz sentido para eles? O que os desafia? O que os motiva? O que os desanima? Essas perguntas, simples à primeira vista, têm um poder enorme. Elas nos conectam com a essência da educação.

Os alunos são, sem dúvida, as fontes mais ricas de informação sobre a aprendizagem. Eles vivenciam o processo diariamente. Eles sabem, muitas vezes melhor do que qualquer indicador, onde estão suas dificuldades e seus avanços. No entanto, para que essa informação apareça, é preciso criar um ambiente de confiança. Os alunos precisam sentir que podem falar, que serão ouvidos e que suas opiniões serão consideradas.

 

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Quando abrimos esse espaço, descobrimos muito mais do que imaginávamos. Descobrimos que, às vezes, uma dificuldade não está no conteúdo, mas na forma como ele é apresentado. Descobrimos que pequenos ajustes podem fazer grande diferença. Descobrimos que o engajamento está diretamente relacionado ao sentido que o aluno atribui ao que aprende. E, a partir dessas descobertas, podemos agir de forma mais assertiva.

É importante também refletir sobre os dados que utilizamos para acompanhar a aprendizagem. Nem todo dado é, de fato, significativo. Muitas vezes, nos perdemos em um excesso de informações que pouco contribuem para a tomada de decisão. O desafio está em identificar quais dados realmente importam. E, nesse caso, os dados qualitativos ganham destaque.

Observações em sala, relatos de professores, feedbacks dos alunos, registros de atividades, tudo isso compõe um conjunto de informações que, quando bem analisadas, oferecem uma visão muito mais rica do que qualquer número isolado. Esses dados nos permitem compreender o contexto, identificar padrões e, principalmente, agir de forma preventiva, antes que as dificuldades se tornem maiores.

 

Aprender

“Os alunos são, sem dúvida, as fontes mais ricas de informação sobre a aprendizagem” (Foto: Shutterstock)

 

Valorização do professor

 Outro ponto que merece atenção é o papel do professor nesse processo. Muitas vezes, ao falarmos sobre acompanhamento da aprendizagem, corremos o risco de colocar sobre o professor uma responsabilidade ainda maior, sem oferecer o suporte necessário. É fundamental que o acompanhamento seja visto como uma construção coletiva.

O professor precisa se sentir apoiado, valorizado e parte de um processo maior. Ele precisa ter espaço para refletir sobre sua prática, compartilhar experiências, testar novas estratégias. O gestor, nesse sentido, atua como um facilitador, alguém que cria as condições para que o ensino e a aprendizagem aconteçam de forma mais efetiva.

 

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Essa construção coletiva também envolve a cultura da escola. É preciso criar uma cultura em que o foco esteja, de fato, na aprendizagem. Uma cultura em que o erro seja visto como oportunidade, em que o feedback seja constante, em que a colaboração seja incentivada. Isso não acontece de forma imediata. É um processo que exige consistência, intencionalidade e tempo.

Ao longo desse caminho, é natural encontrar desafios. Nem sempre será fácil conciliar as demandas administrativas com a presença pedagógica. Nem sempre será simples mudar uma cultura já estabelecida. No entanto, é importante lembrar por que escolhemos estar na educação. Nosso propósito vai além da gestão de processos. Nosso propósito é impactar vidas por meio da aprendizagem.

E esse impacto só acontece quando estamos verdadeiramente conectados com aquilo que acontece na sala de aula. Quando conhecemos nossos alunos, quando entendemos suas necessidades, quando acompanhamos seus avanços. Quando fazemos isso, deixamos de ser apenas gestores e nos tornamos líderes educacionais.

 

A liderança

 Ser um líder educacional é assumir o compromisso com a aprendizagem em sua essência. É estar disposto a questionar práticas, a buscar novas formas de fazer, a aprender continuamente. É reconhecer que não temos todas as respostas, mas que estamos em constante busca por elas.

Essa busca nos leva a revisitar nossas práticas, a repensar nossas prioridades e, muitas vezes, a sair da zona de conforto. Nos leva a olhar para a escola com outros olhos, a enxergar além dos números, a valorizar o processo. E, principalmente, nos leva a colocar o aluno no centro de tudo o que fazemos.

Quando isso acontece, a escola se transforma. As decisões passam a ser mais coerentes, as ações mais alinhadas, os resultados mais consistentes. Mas, mais do que isso, o ambiente escolar se torna mais significativo. Os alunos se sentem mais engajados, os professores mais motivados e os gestores mais conectados com seu propósito.

É importante destacar que essa transformação não depende de grandes mudanças estruturais. Ela começa com pequenas atitudes. Começa com a decisão de entrar em uma sala de aula, de conversar com um aluno, de ouvir um professor. Começa com a curiosidade de entender o que está acontecendo além dos relatórios.

 

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Essa curiosidade é, talvez, um dos elementos mais importantes na educação. É ela que nos move, que nos faz questionar, que nos leva a buscar respostas. E é justamente essa curiosidade que precisamos cultivar, tanto em nós quanto em nossos alunos.

Ao final, a grande reflexão que fica é: o quanto estamos, de fato, próximos da aprendizagem? O quanto estamos experimentando o que estamos “cozinhando” todos os dias em nossas escolas? O quanto conhecemos o processo que acontece dentro da nossa instituição? O quanto estamos dispostos a nos envolver, a observar, a ouvir, a aprender?

Responder a essas perguntas exige honestidade. E, mais do que isso, exige ação. Não basta reconhecer a importância de estar próximo da aprendizagem. É preciso transformar esse reconhecimento em prática.

Talvez o primeiro passo seja simples: escolher um momento da semana para estar em sala de aula. Não como observador distante, mas como alguém que quer entender, que quer aprender. A partir daí, outras ações naturalmente surgirão.

Conversar com os alunos, criar espaços de escuta, valorizar o processo, apoiar os professores, revisar os dados utilizados, tudo isso faz parte de um movimento maior. Um movimento que coloca a aprendizagem no centro.

E, quando a aprendizagem está no centro, tudo faz mais sentido. As decisões se tornam mais claras, os objetivos mais definidos, os resultados mais significativos. Porque, no final das contas, é isso que realmente importa.

A escola existe para que os alunos aprendam. E aprender vai muito além de obter boas notas. Aprender é compreender, é aplicar, é questionar, é transformar. Aprender é um processo contínuo, que exige envolvimento, dedicação e, acima de tudo, sentido.

Como educadores, nosso papel é garantir que esse processo aconteça da melhor forma possível. E isso só é possível quando estamos presentes, atentos e comprometidos. Quando deixamos de olhar apenas para o resultado e passamos a valorizar o caminho.

Esse é o verdadeiro desafio da educação. E também a sua maior beleza.

 

*Rodrigo Caneschi é diretor executivo da rede Colégio Progresso Bilíngue, e conselheiro da Academia Líderes de Educação

 

Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte:
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