NOTÍCIA
Programas educacionais como os do International Baccalaureate têm ocupado um espaço cada vez mais relevante entre as escolas brasileiras. O IB está presente em 162 países e reúne mais de 6.000 escolas em todo o mundo
Por Renata Fogaça Bonacin, coordenadora do IB Diploma Programme e do programa bilíngue dos Anos Finais do Colégio Progresso Bilíngue Cambuí | Ao longo dos anos, tenho acompanhado a expansão da educação bilíngue e internacional no Brasil, que deixou de ser um movimento restrito a um seleto grupo de escolas e passou a fazer parte das discussões estratégicas de instituições em diferentes regiões do país. Entendo esse crescimento não apenas como uma demanda de mercado, mas como uma resposta das escolas a um questionamento central: que tipo de formação prepara, de fato, nossos alunos para um mundo em constante transformação?
Nesse contexto, programas educacionais como os do International Baccalaureate (IB), têm ocupado um espaço cada vez mais relevante entre as escolas brasileiras. O IB está presente em 162 países e reúne mais de 6.000 escolas em todo o mundo, com programas reconhecidos por sua proposta acadêmica internacional orientada ao desenvolvimento integral dos estudantes.
Atualmente, no Brasil, tem-se 90 escolas autorizadas a oferecer um ou mais programas do IB, evidenciando que a busca por educação internacional vem ganhando escala no contexto brasileiro.
O que se destaca não é apenas o número em si, mas o perfil dessa expansão. Durante muito tempo, associamos a educação internacional às grandes capitais e às escolas americanas, britânicas e suíças. Hoje, observamos escolas em cidades e regiões fora dos eixos mais tradicionais incorporando programas internacionais às suas propostas pedagógicas.
Estima-se que nos últimos cinco anos mais de 30 novas escolas se tornaram IB World Schools, e muitas outras estão em processo de autorização. Esse movimento merece atenção dos gestores escolares porque revela uma mudança nas expectativas das famílias. Cada vez mais, pais e mães buscam por modelos educacionais que desenvolvam repertório acadêmico, pensamento crítico, autonomia, consciência intercultural, fluência em uma segunda língua e capacidade de agir com responsabilidade. A internacionalização, nesse sentido, deixa de ser apenas um diferencial de comunicação institucional e passa a ser uma decisão pedagógica profunda.
Os programas educacionais do IB dialogam diretamente com essa demanda de formação, bem como com as expectativas de famílias e educadores, especialmente o IB Diploma Programme (IB-DP), pois impacta uma etapa decisiva da vida dos estudantes. Esse foi o caminho escolhido pelo Colégio Progresso Bilíngue, unidade Cambuí, localizado em Campinas, que diante do crescimento de seu já consolidado programa de educação bilíngue recebeu, em 2025, a autorização para oferecer o IB-DP como uma opção curricular aos seus alunos no Ensino Médio.
O IB-DP não deve ser visto apenas como um currículo exigente ou diferencial competitivo. Ele propõe uma experiência formativa que desafia o estudante a pesquisar, argumentar, lidar com diferentes perspectivas e sustentar escolhas acadêmicas com maior autonomia.
Como educadora e coordenadora do IB-DP há anos, esse é um dos pontos mais importantes da discussão. Preparar um aluno para a universidade vai muito além dos conteúdos programáticos; significa ajudá-lo a pensar com profundidade e criticidade, formular boas perguntas, argumentar com evidências, organizar o próprio tempo, saber iniciar e conduzir uma pesquisa investigativa, lidar com feedback e reconhecer que aprender exige processo. Esses elementos aparecem de maneira concreta nos programas do IB-DP e são praticados, acompanhados e avaliados ao longo da trajetória escolar.

O IB não é apenas uma tendência de internacionalização, é um convite para que as escolas revisitem suas práticas(Foto: Shutterstock)
Para os gestores, entretanto, é importante reconhecer que implementar programas bilíngues e de educação internacional, aos moldes do que é o IB Diploma Programme, exige mais do que obter uma certificação ou autorização internacional. Trata-se de uma mudança cultural na comunidade escolar. Uma escola não se torna internacional apenas por adotar um programa, mas quando integra esse programa à sua identidade, ao seu contexto local, projeto pedagógico e à sua missão e valores.

“Para os gestores, entretanto, é importante reconhecer que implementar programas bilíngues e de educação internacional, aos moldes do que é o IB Diploma Programme, exige uma mudança cultural na comunidade escolar”, afirma a autora (Foto: Divulgação)
Essa integração é especialmente relevante nas cidades fora dos grandes centros em que a implementação de um programa, tal como o IB-DP, pode representar uma ampliação de oportunidades para os estudantes, permitindo que tenham acesso a uma experiência de aprendizagem internacional sem necessariamente sair de sua cidade durante a educação básica. Além disso, fortalece a instituição como uma referência regional capaz de dialogar com padrões globais sem perder sua conexão com a comunidade local.
Para que a implementação seja sustentável, a exemplo da nossa própria jornada de autorização do IB-DP, o gestor precisa enxergar o Diploma Programme não como um produto final, mas como um projeto institucional de médio e longo prazo. Ainda nesse contexto, há também uma dimensão simbólica importante. Quando uma escola implementa um programa internacional robusto, ela ajuda a descentralizar oportunidades, comunicando que aspectos fundamentais para o desenvolvimento de uma mentalidade internacional entram pela sala de aula, pela pesquisa bem orientada, pelo debate respeitoso, pelo encontro entre línguas, culturas e perspectivas.
Assim, a expansão do IB no Brasil deve ser lida com atenção
Ela não é apenas uma tendência de internacionalização, é um convite para que as escolas revisitem suas práticas, seus currículos e sua missão educacional. Talvez o grande convite aos gestores seja olhar para a educação internacional não como um destino, mas como uma jornada que amplia a visão de currículo, fortalece a formação docente e posiciona o aluno como sujeito ativo do próprio percurso.
A educação bilíngue e internacional no Brasil seguirá crescendo e a pergunta, portanto, não é apenas se as escolas devem ou não entrar nesse movimento, mas sim como fazê-lo com identidade, responsabilidade e propósito. Porque, no fim, formar alunos com mentalidade internacional não significa afastá-los de sua realidade local, mas dar a eles linguagem, repertório, pensamento e sensibilidade para atuar em qualquer lugar, sem perder a consciência de quem são e do impacto que podem gerar.
Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte:
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