NOTÍCIA

Políticas Públicas

Autor

Paulo de Camargo

Publicado em 02/09/2026

Estudo inédito faz um raio-X do desenvolvimento das crianças brasileiras

O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância mostra que o país precisa de prioridade nas políticas públicas para a infância e a parceria cada vez mais estreita entre escolas e famílias

Brasil é um país acostumado com avaliações e estudos sobre a aprendizagem no ensino fundamental e no médio. Mas conhece ainda muito pouco sobre suas crianças: como se sentem, o que aprendem, que habilidades socioemocionais desenvolvem, como percebem o mundo? A boa notícia é que surgem mais evidências sobre o que acontece em uma sala de aula da educação infantil.

Em maio deste ano foi lançado no país o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (International Early Learning and Child Well-being Study – IELS), o primeiro com a participação do Brasil. Seu resultado traz dados preocupantes e, ao mesmo tempo, reforça caminhos — como políticas públicas com foco na qualidade da educação infantil e a necessária e urgente aproximação entre escolas e famílias.

Desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — também responsável pelo Pisa —, o estudo foi viabilizado no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Há um inédito olhar para as crianças de cinco anos na pré-escola, em termos comparados, pois se trata de um estudo internacional que teve o Brasil como único representante latino-americano.

 

Estudo

Estudo analisou três áreas do desenvolvimento infantil — aprendizagens fundamentais; funções executivas; e habilidades socioemocionais (Foto: Shutterstock)

 

Coordenado aqui pelos pesquisadores Mariane Koslinski e Tiago Bartholo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o estudo analisou três áreas principais do desenvolvimento infantil — as aprendizagens fundamentais (literacia e numeracia emergentes), as funções executivas (memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade mental) e habilidades socioemocionais (como empatia e confiança).

Não espere rankings ou notas: o estudo traz uma visão 360º, ao envolver também famílias e professores, além das crianças de escolas públicas e privadas do Ceará, do Pará e de São Paulo, de diferentes perfis de renda, sexo e raça.

As habilidades na infância 

“Os resultados revelaram um cenário de contrastes. Em literacia emergente — que mede compreensão oral, vocabulário e consciência fonológica —, o Brasil ficou na média da OCDE, apresentando, inclusive, baixa desigualdade entre perfis socioeconômicos”, analisa o pesquisador Tiago Bartholo.

No entanto, diz ele, em numeracia (habilidades matemáticas) e nas funções executivas (memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental), o país ficou significativamente abaixo da média internacional. “Um dado inédito e preocupante é que, enquanto no restante do mundo a literacia e a numeracia andam juntas, no Brasil essa correlação é mais fraca, sugerindo que as oportunidades de aprendizagem em matemática são desiguais e possivelmente negligenciadas”, explica.

Estudo

Tiago Bartholo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um dos coordenadores do estudo internacional (Foto: Arquivo pessoal)

Bartholo acredita que a literacia traz um resultado melhor pelo esforço de duas décadas em políticas de alfabetização. “Agora, a matemática carece de um senso de urgência similar. Precisamos aprofundar o debate sobre o ensino de matemática, o que passa obrigatoriamente por repensar a formação inicial de professores”, diz.

 

Leia: Matemática: política pública deve ser contínua

 

Para Filomena Siqueira, doutora em Administração Pública pela FGV-EAESP e diretora de projetos da Fundação Bracell, o estudo é um chamado aos gestores públicos. “Quando uma criança chega aos cinco anos com diferenças importantes de linguagem, matemática ou desenvolvimento socioemocional, essas diferenças não surgiram ali. Elas foram construídas ao longo dos primeiros anos de vida”, diz Filomena.

Na sua visão, uma das principais mensagens da pesquisa é mostrar que, definitivamente, a educação infantil precisa ocupar um lugar mais estratégico nas políticas educacionais. Tão importante quanto garantir o direito ao acesso é assegurar o direito à qualidade das experiências. “As evidências mostram que frequentar uma educação infantil de qualidade produz efeitos positivos que se estendem ao ensino fundamental, à saúde, à trajetória educacional e até à vida adulta”, afirma.

Papel da família

Há muitas formas de analisar os dados do estudo. Entre elas se sobressai a relação com a família. O envolvimento parental se relaciona diretamente com a maior parte das dimensões estudadas. Um dos pontos críticos verificados, segundo Tiago Bartholo, foi justamente o ambiente de aprendizagem em casa. “O Brasil apresentou índices muito baixos em atividades de interação entre pais e filhos, como a leitura compartilhada. Enquanto a média internacional para leitura frequente é de 54%, no Brasil esse número cai para 14%, e mesmo entre as famílias de nível socioeconômico mais alto, o índice é de apenas 24%”, revela o pesquisador. 

Evidentemente, os resultados não eximem a centralidade do papel da escola e dos professores. Ao contrário, mostram que a rotina da pré-escola pode impulsionar as funções executivas, como memória de trabalho e flexibilidade mental, com experiências de qualidade, envolvendo jogos de regra, brincadeiras coletivas, atividades corporais, rodas de conversa, narrativas, dramatizações e outras.

 

Leia: Como fortalecer a relação entre escola e famílias

 

Os resultados mostram que são coerentes também com a qualidade das interações em casa. Ler livros, contar histórias e conversar sobre sentimentos mostraram-se preditores de um bom desenvolvimento integral. Parece óbvio, não é? Mas o susto vem logo em seguida: 53% das famílias nunca ou raramente leem livros para seus filhos, e 51% raramente contam histórias. Da mesma forma, os pais desenham ou pintam com seus filhos, contam histórias que não estejam em livros, cantam música ou recitam poemas bem menos do que o desejável. Ir à biblioteca com os filhos então é uma raridade: 95% dos pais nunca o fazem.

Efeito duradouro

O papel da família é tão importante na criação de um ambiente de aprendizagem como no desenvolvimento das competências socioemocionais. O estudo mostrou que a qualidade das interações familiares é impactada também por hábitos cotidianos, como conversar sobre emoções em casa com frequência.

Estudo

O estudo IELS é um chamado aos gestores públicos, avalia Filomena Siqueira, diretora de projetos da Fundação Bracell (Foto: Arquivo pessoal)

Para Filomena Siqueira, os resultados do IELS reforçam algo que a literatura internacional vem demonstrando há décadas. “O desenvolvimento infantil acontece na interação entre diferentes contextos, especialmente entre a família e a escola”, diz.

O estudo indica que práticas simples do cotidiano familiar estão associadas a diferenças significativas nos resultados das crianças. “Leitura compartilhada, conversas frequentes, brincadeiras, nomeação de emoções e participação da criança em situações cotidianas são experiências que favorecem o desenvolvimento da linguagem, das habilidades socioemocionais e também do pensamento matemático”, conta a pesquisadora.

Por outro lado, é preciso evitar a tentação de responsabilizar individualmente as famílias pelos resultados — algo que sempre está na ponta da língua das escolas. É preciso pensar nas condições de vida das famílias — em especial das mães, em suas triplas jornadas —, na escolaridade dos adultos, no acesso a bens culturais, nas frágeis redes de apoio, lembra Filomena. Tudo isso demanda políticas públicas específicas.

Da mesma forma, a escola tem algo a fazer. Cabe a essa instituição — a mais próxima da família — exercer seu papel no campo pedagógico e também fortalecer a comunicação, oferecendo informação, diálogo e evitando relações verticais e juízos de valor.

 

Leia: Pais e filhos: reconstruindo vínculos em tempos digitais

 

Para a educadora Caterine Zapata Zilio Barros, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Educação e Infância do Instituto Vera Cruz, discutir a relação família e escola hoje é essencial. Em sua análise, é verdade que muitos pais sentem que só são chamados à escola para ‘tomar bronca’ quando há problemas. “Para que os vínculos se sustentem, precisamos de um tanque cheio de memórias positivas que gere confiança e reciprocidade”, aconselha. Assim, a escola deve investir na qualidade de todas as interações.

A seu ver, a comunicação exige clareza de papéis: segundo Caterine, a escola deve ser também receptora de informações, ouvindo os saberes e potencialidades das famílias. “Tenho visto experiências gratificantes, como pais que produzem jornais com crianças, famílias que compartilham conhecimentos culturais ou profissionais, criando um sentimento de pertencer a um grupo”, relata.

“É cada vez mais claro que o muro que criamos entre a escola e seu território é um artifício; precisamos de uma escola entrelaçada com seu território, no esforço muito consciente de retomar a ideia de que é preciso uma aldeia para educar uma criança”, orienta citando o ditado africano.

Impacto da desigualdade

Embora os dados sejam eloquentes no que se refere à formação de ambientes de aprendizagem e no diálogo com a escola, é preciso lembrar que o país é profundamente desigual — e isso sempre contará a favor dos mais ricos e dos brancos.

O estudo mostrou, segundo Bartholo, que o nível socioeconômico e o perfil racial ainda são fortes preditores do desenvolvimento. “Crianças dos quartis inferiores e superiores de perfil socioeconômico apresentam diferenças nas aprendizagens fundamentais e funções executivas, com desigualdades mais acentuadas em numeracia emergente”, afirma. Ou seja, as desigualdades de aprendizagem já estão presentes nos primeiros anos de vida.

No estudo, 65% das crianças de nível socioeconômico alto foram capazes de “empregar o conceito de quantidade pela contagem, e identificar padrão de números na ordem crescente”, mas apenas 42% das crianças de nível socioeconômico baixo o conseguiram.

O perfil de renda importa mais do que o fato de uma rede ser pública ou privada. “Ao controlarmos variáveis como o nível socioeconômico das famílias, a vantagem da rede privada sobre a pública desaparece na maioria dos domínios, com exceção da numeracia, onde a rede privada ainda apresenta um desempenho superior significativo”, compartilha o pesquisador. O mesmo acontece em relação à raça. Segundo o estudo, as crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados do que as crianças pretas em literacia e, especialmente, em numeracia emergentes.

 

Leia: Luiz Antonio Simas: reencantar o processo de aprendizagem

 

Mas, nesse estranho mundo novo, alguns fatores de impacto negativo são transversais a tipos de escola e perfis de renda. É o caso do uso de telas de tablets e smartphones, hábito cotidiano disseminado no Brasil, atingindo metade das crianças de cinco anos diariamente. Segundo a pesquisa, o uso frequente de telas correlaciona-se negativamente com o desenvolvimento em literacia e numeracia.

O impacto é tão evidente que Tiago Bartholo aposta em um movimento global de regulação no uso das tecnologias pelo impacto no bem-estar e na saúde mental. “Aprender é um processo que demanda esforço e atenção cognitiva, e a escola deve ser um espaço que proteja a criança do excesso de telas, priorizando o sono, a atividade física, a boa literatura e a socialização presencial entre pares”, acredita.

Por isso, diz o pesquisador, embora a escola não seja uma bala de prata para todos os problemas sociais, ela tem um papel estratégico em orientar as famílias e elevar a qualidade do ensino para garantir o desenvolvimento pleno das nossas crianças.

Se temos saída? Trabalhando com um dos maiores bancos de dados sobre a infância no Brasil, com informações de mais de 11 mil crianças e famílias desde 2017, o pesquisador não tem dúvidas. “Tem muita coisa boa acontecendo. Quem trabalha com crianças e com a educação infantil é sempre otimista”, diz.


Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica


Leia Políticas Públicas

shutterstock_2577139405 (1)

Estudo inédito faz um raio-X do desenvolvimento das crianças brasileiras

+ Mais Informações
08.CentroEducacionalCarneiroRibeiro_BA_1950_OCP_IC_FotoINEP (1)

Anísio Teixeira é homenageado na nova Ocupação Itaú Cultural

+ Mais Informações
1 produto final robótica erechim2-- (2)

Cidade faz a lição de casa

+ Mais Informações
Ideb

Ideb avança em todas as etapas da educação básica

+ Mais Informações

Mapa do Site