NOTÍCIA
“O perfil do professor é ser uma bússola em relação ao mundo de informação a que os estudantes são expostos,” diz Mariana Filizola, gerente de projetos do Ministério da Educação
Por Ruan Soares, estudante de jornalismo na FIAM-FAAM* | Na mesma medida que o mundo digital avança, mais prioritário se torna o compromisso com a educação midiática perante a sociedade. O assunto é urgente, uma vez que, em curto período, a tecnologia dá passos longos. Ciente disso, o governo federal anunciou recentemente a educação digital e midiática obrigatória na grade curricular escolar brasileira.
Para conversar sobre o assunto, Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia, e Mariana Filizola, que até janeiro deste ano era coordenadora-geral de educação midiática na Secretaria de Comunicação Social da presidência da república, e hoje atua como gerente de projetos no Ministério da Educação, debateram o tema hoje, 6, na Bett Brasil**. A mediação foi realizada por Tatiana Klix, diretora do Porvir.
-=-=–=-=
Imediatez é inimiga número um do pensamento crítico
-=-=–=-=
“Não tem forma ideal. A forma ideal é a possível. E ela é a mais frequente, porque, como todo letramento, precisa ter continuidade,” frisou Mariana Ochs ao responder sobre a melhor forma de educar para as mídias. Segundo ela, o importante é que a abordagem do tema seja feita a partir de um meio de comunicação e com intenção definida. Sendo assim, o papel do educador é crucial no ato, pois cabe a ele ter sensibilidade para identificar as oportunidades pertinentes no momento. Para Ochs, o tema vai muito além de simples didática escolar por oferecer um aprimoramento de visão de mundo do aluno.
Quanto à possível definição de idade para a introdução do assunto às crianças, Mariana Ochs considera que o mais importante é preparar as crianças que já têm acesso às telas, dado que isso tem acontecido cada vez mais cedo. De acordo com a educadora, é preciso fomentar a autorreflexão, para que crianças e jovens reflitam sobre como usam os dispositivos digitais.

Da esq. para a dir.: Mariana Filizola, Tatiana Klix e Mariana Ochs (foto: Enzo Assis/FIAM-FAAM)
Ochs cita um exemplo prático realizado em uma escola: a professora instigou as crianças a pesquisarem o que um dinossauro comia. Ao invés de, tradicionalmente, recorrerem aos livros, os alunos usaram vários meios de mídias. Viram documentários e filmes de ficção, usaram brinquedos, pesquisaram na internet e, durante o processo, a educadora provocou autorreflexões com a turma para identificar o real da ficção e refletir sobre os próprios meios de consulta.
A educação não é digital e midiática “se não tiver uma camada reflexiva intencional e crítica como: O que é uma boa fonte? Como vou pesquisar? Como acesso e avalio a informação? Qual é a minha responsabilidade como produtor? Que impacto minha mensagem vai ter?”, expõe Mariana Ochs.
Para ela, é importante apresentar pontos e problematizar aos poucos com estudantes de acordo com a progressão escolar.
Um dos grandes receios dos professores era se deparar com alunos mais instruídos que eles em conhecimentos digitais, relata Mariana Filizola. No entanto, esse cenário já apresenta mudanças. Segundo Filizola, muitas plataformas dispõem de conteúdos para instrução do educador na área digital, como por exemplo, a AVAMEC — plataforma focada na formação contínua dos professores.
“O perfil do professor é ser uma bússola em relação ao mundo de informação a que os estudantes são expostos,” ressalta Mariana Filizola, do MEC.
Para a coordenadora-geral de educação midiática, parte importante do tato para ministrar conteúdos em sala é a atenção aos assuntos concretos. Segundo ela, a educação digital e midiática nas escolas pode ofender ou excluir grupos e, por isso, é papel do educador autorrefletir ideias com as quais deseja trabalhar para instruir as crianças e os adolescentes.
Já Filizola enfatiza, ainda, que a pauta da educação midiática deve ir além dos ambientes de formação, alcançando as famílias dos alunos, amigos e outros. Para ela, mais adiante, quando os estudantes adquirem habilidades e repertório no assunto, por conta própria, poderão estabelecer provocações, chegando, aliás, no terreno recentemente tão comum das inteligências artificiais. Neste cenário, o professor deverá ser o mediador.
Ao final do debate, Filizola reforçou que o bom educador digital e midiático é aquele que questiona, visto que a educação está sempre em transformação e reflete o contexto de seu tempo.
**A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.
Nossa cobertura jornalística tem o apoio das seguintes empresas: FTD Educação, Santillana Educação e Multiverso das Letras.
*Esta matéria foi produzida numa parceria entre a revista Educação e o curso de Jornalismo da FIAM-FAAM.
——
Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica