NOTÍCIA
Formador docente no uso de tecnologias, Doug Alvoroçado afirma que o mundo, o professor e até os desejos da profissão mudaram e “hoje tem professor que quer estar no YouTube”
A utilização das redes sociais por crianças e jovens mobiliza na atualidade um debate que envolve pais, professores, especialistas, poder público e atores jurídicos, sobretudo em plena implementação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que entrou em vigor em março deste ano.
Com toda a complexidade que envolve o tema, paira a dúvida: é possível prover a aprendizagem dos jovens nessas mídias? Não só possível, como desejável, diriam os milhões de influenciadores, empreendedores digitais, pelo país afora. Embora muitos deles tenham atuações educativas, nem todos estão comprometidos com esse objetivo.
Por outro lado, professores e professoras também têm ocupado esse espaço nas redes, por gosto, talento, vontade de empreender, divulgar suas potencialidades, ou por entender que estar nas redes é a possibilidade de ampliar o aprendizado dos estudantes.
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Entre a IA e o humano: qual é o papel da educação?
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“A rede social não tem o objetivo de ensinar, então o campo da educação fica vago e precisamos assumir. A escola precisa se corresponsabilizar, assim como o poder público, os influenciadores e as plataformas também”, afirma Doug Alvoroçado, pedagogo, pós-graduado em Atendimento Educacional Especializado (AEE), tema que ele aborda em seu próprio perfil na redes, e mestre em ensino de educação básica. É professor na Coordenadoria de Inovação e Tecnologia da SME/RJ, onde forma professores para o uso de tecnologias, e no Colégio Estadual Heitor Lira.
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Doug Alvoroçado é palestrante na Bett Brasil*, que acontece no Expo Center Norte, em São Paulo. Ele participa do painel Quando o influenciador vira educador — e o educador vira influenciador, em 6 de maio, às 15 horas, na Roda de Conversa.
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Doug Alvoroçado forma professores para uso das tecnologias e tem sua própria atuação nas redes: “Eu trabalho mais, em compensação minha voz chega mais longe” (foto: arquivo pessoal)
Doug afirma que a profissão de professor está em transformação. “Daqui um tempo, a profissão vai se multiplicar em muitas. Teremos o professor que é mais palestrante, o que é só de redes sociais, o que é de YouTube, aquele que é do tête-à-tête e que faz a mentoria com o aluno, aquele que está em sala de aula com pequenos grupos.”
O professor é um influenciador que tinha como espaço tradicional a sala de aula e que agora tem um campo vasto de experimentações. Em tese, Doug explica, o professor planeja o desenvolvimento comportamental, cognitivo e epistemológico da pessoa, mas a maioria foi formada para ficar dentro da sala de aula. E esse espaço se ampliou.
Entretanto, a presença nessas mídias passa por desafios. Doug considera que as formações, em geral, não acompanharam as transformações da era digital e se estabelece um gap. “O mundo mudou, o docente mudou, até os desejos da profissão mudaram. Antigamente, o professor queria estar em sala de aula, hoje tem professor que quer estar no YouTube. Será que as formações estão pensando nisso?”
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Cérebro e escrita à mão, fina sintonia
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O influenciador — ou influencer— é uma nova profissão. “Eles influenciam pessoas a alguns hábitos, às vezes influenciam o jovem a estudar ou a fazer qualquer outra bobagem, sem um motivo, sem razão, sem ciência. É nesse contexto que o professor deveria também assumir esse papel, porque tem conteúdo para influenciar positivamente.” Doug reitera que não é contra os influenciadores, “desde que se comprometam a dar uma boa educação baseada na ciência”.
Há quem não tenha traquejo para aparecer nas mídias sociais ou não queira. Doug afirma, entretanto, que o professor não precisa necessariamente ser aquele que vai aparecer. “Pode ser o roteirista ou o especialista que fará a validação científica do conteúdo. O que não pode é a postura do tipo ‘isso aqui não é pra gente’ acabar distanciando o professor e a escola das redes. E aí, quem assumirá o papel do educador lá?”
O uso de tecnologias pelos docentes tem evoluído muito. Segundo Doug, as pessoas estão perdendo o medo. “Mas tecnologia é sempre uma caixa preta. Se ligou na tomada, é tecnologia, ‘então não é para mim, é coisa para engenheiro’. Estimular os professores a usar as tecnologias, a entendê-las como recursos para o ensino, é um trabalho de formiguinha, mas tem dado certo.”
“Eu queria ser um professor na sala de aula, quieto no meu canto. Mas para eu me comunicar com as pessoas, para espalhar a palavra em torno do uso da tecnologia, eu preciso estar nas redes. Infelizmente, quem não é visto não é lembrado”, ensina Doug.
Parte do seu trabalho é em sala de aula, no planejamento, e a outra parte é a atuação digital nas redes sociais. “Eu trabalho mais, em compensação minha voz chega mais longe.” Ter milhares de seguidores, trazer um conteúdo validado pela ciência, ministrar palestras, tudo isso dá um status de autoridade para o professor, ele explica.
A maioria dos professores encara essa segunda vida digital como mais um trabalho. “Não é para todo mundo, não é para todo o momento, às vezes funciona num momento para uma pessoa, e depois não funciona mais. O que não pode é ignorar e fechar as portas”, finaliza.
*A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. Acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, capital paulista. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.
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