Educar na emergência: é hora de recuperar a aprendizagem

Mozart Ramos e Gabriel Corrêa assinalam caminhos para uma agenda emergencial - imposta pela pandemia – que vise combater os déficits educacionais.

País complexo e desigual, o Brasil tem muitas agendas prioritárias na educação: elas estão expressas, por exemplo, no Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024), na implantação da reforma do ensino médio e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Mas, no mundo devastado pela pandemia, uma se sobrepõe a todas as outras: a emergência da recuperação da aprendizagem após o mais longo período de interrupção de aulas regulares da história brasileira.

Essa é uma perspectiva consensual entre especialistas da área, como o membro do Conselho Nacional da Educação (CNE), Mozart Neves Ramos, e organizações da sociedade civil, entre eles o movimento Todos pela Educação, que participam do painel Como recuperar a aprendizagem, no Grande Encontro da Educação, em 11 de agosto (inscrições gratuitas, clique aqui).

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Caminhos para o atraso

Para Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP e ex-secretário de Educação do Estado de Pernambuco, é preciso separar o que são eixos estruturantes da educação e a ação emergencial. Segundo Ramos, processos como a implantação da BNCC e da reforma do ensino médio avançaram, mesmo durante a pandemia, e podem ser uma bússola para enfrentar suas consequências. Ele inclui também a aprovação do Sistema Nacional de Educação entre as prioridades estruturantes, até mesmo para fazer frente a problemas como o de descoordenação enfrentados na pandemia.

Contudo, diz o educador, há uma emergência pela frente – enfrentar os déficits de aprendizagem provocados pelo fechamento das escolas e pela educação remota, que deixou de chegar a milhões de alunos. “O Brasil foi um dos que permaneceram por mais tempo com as escolas fechadas, entre todos os países. Agora, precisamos de planejamento, foco e capacidade para enfrentar as consequências”, afirma.

Mozart propõe, entre outras medidas, adotar o tempo acrescido no período integral para repor as aprendizagens por meio de ferramentas tecnológicas, sob a supervisão dos professores das escolas.

recuperar aprendizagem

Da esquerda para a direita, Gabriel Corrêa e Mozart Ramos

Pilares da agenda emergencial

Na visão de Gabriel Corrêa, do Todos pela Educação, a aprendizagem já era a prioridade central e agora ganha contornos de prioridade absoluta. Para Corrêa, a agenda emergencial deve se apoiar em três pilares principais: o combate ao risco de evasão escolar, a construção de uma política de acolhimento a alunos e professores que retornam às aulas presenciais e, por fim, a identificação das defasagens e a execução de programas de recuperação de aprendizagem.

O primeiro passo, pontua Corrêa, é impedir a evasão e o abandono, bem como trazer de volta para a escola aqueles que saíram. “Para garantir aprendizagem para todos é preciso que todos estejam nas aulas, e para isso é preciso promover a busca ativa e apoiá-los, inclusive com recursos financeiros”, considera. Além disso, ele vê como prioridade o acolhimento, ou seja, a recepção afetiva dos alunos e educadores, depois de períodos traumáticos. Por fim, é preciso que todos os entes federativos criem programas de recuperação de aprendizagem, a partir de avaliações diagnósticas e formativas.

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Mais vontade

Para que tudo isso possa acontecer, há um consenso: não se pode gastar menos em educação do que em anos anteriores. Ao contrário, é necessário ampliar o patamar de investimentos. “As redes precisam reverter o movimento de queda, ampliar os investimentos em educação para que o retorno desafiador das aulas possa ser enfrentado”, diz Corrêa.

Entre os focos de investimentos, deverá estar a democratização do acesso à tecnologia.

 “Os alunos precisam ter acesso à banda larga. Isso não é luxo, é o caderno e o lápis do século 21”, finaliza Mozart Neves Ramos.

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