NOTÍCIA
Sororidade não pressupõe relações sem diferenças ou conflitos, mas favorece uma convivência que respeita a individualidade e valoriza o apoio entre mulheres
A convivência pautada pela rivalidade entre mulheres é tratada como uma espécie de componente natural das relações femininas. Além disso, durante séculos, esperou-se delas delicadeza, cuidado, dedicação à família e capacidade de preservar relações. Demonstrar raiva, confrontar ou desagradar não combinavam com o comportamento feminino socialmente valorizado. Essa mesma construção reservava a elas poucas possibilidades de escolha e fazia do casamento um elemento decisivo de reconhecimento e posição social, colocando outras mulheres na condição de concorrentes por um destino considerado bem-sucedido.
Embora tenha mudado de forma ao longo do tempo, essa herança resiste às transformações sociais e ainda atravessa as relações familiares, profissionais e escolares. Carolina Delboni, pedagoga, psicanalista de adolescentes e pesquisadora do comportamento adolescente, com especializações em Transtornos Psicoemocionais de Crianças e Adolescentes e em Gestão da Saúde Mental nas Escolas, relaciona a permanência desses padrões à forma como meninas e mulheres foram socializadas ao longo de gerações.
Os antigos bailes de debutantes ajudam a visualizar essa lógica: jovens eram apresentadas à sociedade em um ritual ligado à entrada na vida adulta e, historicamente, ao mercado matrimonial. A cultura reproduziu inúmeras vezes mulheres disputando entre si a possibilidade de serem escolhidas, inclusive nas histórias contadas às crianças, como ocorre com Cinderela e suas irmãs em torno do príncipe.
“A sororidade vai contra a ideia machista de que as mulheres são inimigas naturais, rivais por si sós. Mulheres não estão disputando a todo momento um homem. Essa ideia de rivalidade vem de uma construção muito antiga sobre o lugar que a mulher deveria ocupar na sociedade”, analisa Carolina.
Na escola, em que mulheres são maioria, professoras, coordenadoras, diretoras, funcionárias da limpeza e da administração podem compartilhar projetos e construir redes de apoio, mas, muitas vezes, convivem igualmente com comparação, competição, desqualificação e disputas por reconhecimento.
A forma como essas relações se constroem oferece referências às estudantes, que estão formando suas próprias maneiras de se relacionar. Ao observar professoras, coordenadoras e gestoras exercendo autoridade, cooperando, divergindo e lidando com conflitos, as meninas aprendem sobre as possibilidades de convivência entre mulheres.
No início da adolescência, entre estudantes do 6º, 7º e 8º anos do ensino fundamental, essas relações ganham contornos delicados quando os conflitos entre meninas aparecem com maior intensidade. Carolina explica que, nessa fase, a construção da própria identidade passa pela experiência de pertencer. O grupo valida escolhas, gostos, comportamentos, formas de se vestir e de pensar e, por isso, ser aceita ou excluída interfere diretamente na autoestima e na segurança da adolescente.
“O pertencimento pode assumir outra função dentro dessas relações e se transformar em uma forma de exercer poder, definindo quem entra, quem permanece e quem fica de fora”, adverte. Carolina Delboni associa essa dinâmica ao conceito de agressão relacional, uma violência que muitas vezes escapa aos adultos porque pode acontecer sem confronto físico ou agressão explícita.
Os sinais aparecem em situações vistas como pequenas: duas meninas trocam um olhar de cumplicidade para excluir uma terceira da conversa; algumas recebem um convite e outra é deliberadamente deixada de fora; um grupo paralelo é criado no WhatsApp; no recreio, uma estudante não pode participar da conversa; em sala, seria possível formar um grupo de quatro, mas três decidem que a quarta não terá lugar. A repetição desses episódios pode transformar a exclusão em parte da própria dinâmica das relações.
“É quase um jogo no sentido de que eu preciso aceitar excluir e preciso aceitar ser excluída. Para fazer parte, em algum momento vou colocar essa menina para fora e, em outro, vou me sujeitar a estar fora”, destaca Carolina.

“A sororidade vai contra a ideia machista de que as mulheres são inimigas naturais, rivais por si sós.” (Foto: Shutterstock)
Ciúme, raiva, frustração, discordâncias e o desejo de se afastar ou encerrar uma amizade fazem parte das relações. A sororidade proposta por Carolina Delboni admite conflitos, diferenças e rompimentos, sem exigir que todas as meninas mantenham vínculos entre si. Cada uma pode preservar o próprio espaço sem retirar da outra o direito de ocupar o seu.
“As meninas não precisam gostar umas das outras, não precisam ser amigas de todas. Elas precisam aprender que a outra menina não precisa perder o lugar para que cada uma mantenha o seu. Há lugar para ambas”, afirma Carolina.
Perceber uma agressão que pode estar escondida em um olhar, na composição de um grupo ou em uma conversa no recreio exige dos educadores repertório para distinguir conflitos comuns de uma dinâmica recorrente de exclusão. Carolina defende que o tema faça parte da formação continuada de professores e gestores, com estudos sobre gênero, relações entre meninas e agressão relacional.
A preparação dos adultos vem antes da intervenção com as estudantes: reuniões pedagógicas semanais ou quinzenais podem abrir espaço para estudar situações vividas na própria escola, discutir o que ocorreu e construir formas de atuação.
“Os educadores precisam entender que isso também é uma violência. Quando essa agressão vira uma dinâmica da relação entre as meninas, a gente precisa dar atenção”, pontua Carolina.

“Ciúme, raiva e o fim de uma amizade fazem parte das relações e precisam ser vividos sem exposição, boatos ou exclusão deliberada”, diz Carolina Delboni, pedagoga e psicanalista (Foto: arquivo pessoal)
Entre as experiências já desenvolvidas em escolas de outros países, a especialista cita programas que trabalham conflitos por meio de dramatizações, conversas e atividades sobre emoções, raiva, amizade, limites, desculpas e reparação. Situações reais são levadas para discussão e permitem explorar com as estudantes o que sentiram, por que agiram de determinada maneira, quais foram as consequências para quem estava envolvido e como poderiam responder de outra forma.
A responsabilização faz parte do trabalho com as situações de exclusão e agressão relacional. A atenção não deve ficar concentrada somente na menina que foi excluída ou ferida, mas alcançar quem exerce poder dentro do grupo e precisa compreender os efeitos de suas escolhas. “Responsabilizar uma adolescente não significa humilhá-la ou colocá-la na frente do grupo. Significa ajudá-la a compreender o impacto que as escolhas e as ações dela tem sobre a outra menina”, explica.
Esse trabalho inclui situações concretas: como verbalizar a raiva sem atacar, reconhecer um dano causado, pedir desculpas, reparar uma atitude, lidar com o ciúme ou dizer a uma amiga que a relação mudou. Carolina Delboni lembra que amizades importantes na infância podem perder espaço à medida que as meninas crescem, desenvolvem novos interesses e constroem outras identidades. O fim de um vínculo pode ser doloroso sem precisar resultar em exposição, boatos, cancelamento nos grupos digitais ou exclusão deliberada.
Para Néllys Corrêa, mentora de liderança, consultora em desenvolvimento humano e fundadora da Digitais Pretas, as referências femininas têm um peso importante na formação das meninas. Criada pela mãe, pela tia e pela avó, ela cresceu cercada por mulheres fortes e, mais tarde, procurou fazer com que a própria filha se sentisse vista e valorizada. Néllys acredita que uma menina que aprende a reconhecer o próprio valor tem mais recursos para reconhecer também o valor de outras mulheres.
Seu trabalho com redes femininas mostrou, porém, que pertencer a um mesmo grupo não produz uma experiência comum a todas. Entre as mulheres que acompanha, há diferenças de origem, condição social, oportunidades, relações familiares, crenças e experiências profissionais. Na Digitais Pretas, por exemplo, a identidade racial aproxima mulheres que podem ter percorrido caminhos bastante distintos até chegar ali.
Para Néllys, olhar essas diferenças é fundamental para que o apoio entre mulheres não seja construído sob a expectativa de que todas pensem, sintam ou façam as mesmas escolhas. “Por mais que muitas vezes estejamos no mesmo grupo e tenhamos semelhanças, tivemos experiências, oportunidades e relações completamente diferentes”, esclarece.

Fundadora da Digitais Pretas, Néllys Corrêa afirma que comparar a própria trajetória à de outra mulher pode transformar conquistas alheias em ameaça (Foto: arquivo pessoal)
É justamente na comparação que essas diferenças podem se tornar terreno para a rivalidade. Néllys observa que, quando uma mulher toma a trajetória da outra como parâmetro para avaliar a própria vida, conquistas alheias podem ser recebidas como ameaça ou sinal de insuficiência. Em seu trabalho, ela procura deslocar esse olhar para três elementos que considera fundamentais: autoconhecimento, autoestima e apoio.
Autoconhecimento, para Néllys, é saber reconhecer capacidades, limites e desejos próprios sem tomar outra mulher como modelo a ser reproduzido. A autoestima permite conviver com vulnerabilidades sem perder de vista as próprias forças. O apoio completa esse movimento ao criar relações em que experiências e conhecimentos podem circular e impulsionar outras mulheres.
“Para voar, a gente precisa estar leve, mas, para ter direção, muitas vezes precisa de uma pessoa que já voou antes para nos dar a rota”, diz Néllys. Na escola, essa rede pode aparecer na disposição para compartilhar uma prática que funcionou, reconhecer publicamente o trabalho de outra professora, acolher uma profissional que assume uma nova função ou permitir que diferentes formas de exercer a liderança tenham espaço.
Também aparece na maneira como divergências são conduzidas. Discordar de uma decisão, questionar uma prática ou apontar um problema fazem parte do trabalho e não precisam resultar em desqualificação pessoal, isolamento ou formação de grupos que enfraqueçam uma profissional.
Esse cuidado ajuda também a retirar da sororidade a imagem de uma solidariedade feminina sem conflitos. Carolina lembra que mulheres adultas foram formadas dentro das mesmas estruturas culturais que influenciam as relações entre as meninas e podem reproduzir mecanismos semelhantes de comparação, exclusão e disputa. A diferença está na possibilidade de reconhecê-los e construir outras respostas.