NOTÍCIA
Em um contexto de recrudescimento da perspectiva neoliberal que tem aprofundado os mecanismos de controle sobre o trabalho docente, a Educação Integral emerge como uma alternativa capaz de revitalizar a educação brasileira
Por Natacha Costa*, diretora geral da Escola Vera Cruz e conselheira da Academia Líderes de Educação | Nos últimos dez anos, uma escola municipal de Manaus tornou-se referência em educação integral no Brasil e no mundo. Entre seus estudantes estão crianças que vivem em contextos de extrema pobreza, crianças com deficiência e alunos imigrantes cuja primeira língua não é o português. Todos eles, sem exceção, têm seu direito à educação efetivado nessa escola.
Isso ocorre sem provas, notas, avaliações punitivas, reprovação, padronização ou preparação para testes. A escola desenvolve um currículo que integra as áreas do conhecimento aos saberes do território e processos de aprendizagem que promovem a autonomia dos estudantes.
Há intervenções planejadas a partir das necessidades dos alunos com base em uma cultura de formação permanente de seus profissionais; e práticas de avaliação formativa, dispositivos de gestão democrática como as assembleias, articulação intersetorial e tempo integral. Em 2025, essa escola alcançou o terceiro maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do estado do Amazonas, com 8,3 pontos.
Estive em Manaus para estudar este caso. No contexto dessa escola, as políticas educacionais têm favorecido ou criado obstáculos à implementação de seu projeto pedagógico? Essa foi a pergunta que orientou minha pesquisa de mestrado, defendida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) em 2025. Penso que seus achados sinalizam mudanças importantes na maneira como concebemos a implementação de políticas públicas no país.

Estudo de caso da Waldir Garcia confirma: uma escola que garante o direito à educação como previsto nos marcos legais brasileiros despende enorme energia para contornar a falta de apoio (Foto: arquivo pessoal)
Assim como tantos outros, o projeto pedagógico da Escola Waldir Garcia nasceu no âmbito do Programa Mais Educação, política indutora da ampliação da jornada escolar que previa a adesão direta das escolas e o financiamento por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE). Esse mecanismo de territorialização da ação governamental — bastante singular na história das políticas educacionais no Brasil — permitiu que cada escola, em diferentes lugares do país, tivesse autonomia para construir seu projeto em diálogo com a comunidade a partir das especificidades de seu território e dos seus estudantes.
De 2007 a 2016, o Mais Educação foi responsável por disseminar a Educação Integral como uma concepção de qualidade da educação por todo o país, transformando profundamente o imaginário sobre o papel que as escolas públicas podem ter na vida de crianças e jovens de diferentes territórios.
Depois de anos de desmonte das políticas federais, o Programa Escola em Tempo Integral (ETI), em 2023, retomou os princípios da Educação Integral e alcançou quase 90% das redes municipais e estaduais de educação. É, sem dúvida, um avanço a ser celebrado. No entanto, como no ETI a adesão é dos sistemas educacionais e não das escolas, é fundamental observar atentamente o seu modelo de implementação.

“É na escola — em diálogo com seu território e com sua comunidade — que uma educação de qualidade efetivamente se realiza na vida de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias”, afirma Natacha Costa (Foto: arquivo pessoal)
Nesse sentido, preocupa o peso que a tradição burocrática e a lógica do gerencialismo têm tido nos modelos de gestão das políticas educacionais brasileiras. Estas influências têm se traduzido, em muitos contextos, em processos de asfixia burocrática das escolas nos quais gestores escolares e docentes têm empenhado grande parte de seu tempo no gerenciamento de propostas pouco adequadas à realidade e necessidades de seus alunos e na atualização de dados em sistemas de gestão. Tudo isso em detrimento de tempo para o trabalho pedagógico efetivo.
É o que estudo de caso da Waldir Garcia confirma: uma escola que garante o direito à educação como previsto nos marcos legais brasileiros despende enorme energia para contornar a falta de apoio e as demandas impostas pela secretaria municipal de educação, na maior parte das vezes, alheias às suas necessidades. Para sustentar sua proposta, não raro a gestão da escola é sujeita a um sensível nível de violência institucional.
É preciso encarar esse quadro com seriedade. Em um contexto de recrudescimento da perspectiva neoliberal que tem aprofundado os mecanismos de controle sobre o trabalho docente, a Educação Integral emerge como uma alternativa capaz de revitalizar a educação brasileira. Para isso, é urgente desburocratizar processos e contextualizar as políticas. É preciso, portanto, inverter o fluxo da gestão educacional: em vez de colocar as escolas a serviço das secretarias, as secretarias devem colocar-se ao lado das escolas.
Há que abandonar a fantasia de que o controle e a gestão por metas produzirão bons resultados. Ao contrário, é a autonomia escolar, exercida em processos democráticos de gestão, e amparada pelos marcos legais, que permitirá às escolas cumprir sua função. Afinal, é na escola — em diálogo com seu território e com sua comunidade — que uma educação de qualidade efetivamente se realiza na vida de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias.
Escolas públicas em todo o país já mostraram o caminho. Agora cabe aos gestores públicos e tomadores de decisão fazerem a sua parte.
*Natacha Costa é diretora geral da Escola Vera Cruz, fundadora do Centro de Referências em Educação Integral e conselheira da Academia Líderes de Educação