NOTÍCIA
A convivência democrática não nasce espontaneamente nem se limita ao ensino de conteúdos sobre cidadania ou direitos humanos
A professora Nilma Lino Gomes, titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, foi ministra das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos (2015 a 2016). Nesta entrevista, ela esclarece conceitos que, para além da teoria, devem fazer parte da construção de projetos de convivência democrática no ambiente escolar.
A educação escolar deve garantir que diferentes sujeitos possam conviver em condições de igualdade e com equidade, aprendendo a dialogar, debater e posicionar-se sem ter que renunciar a si mesmos, à sua cultura, os seus saberes e nem impor ao outro a sua visão de mundo.
É nesse contexto que considero importante avançarmos para além da ideia de tolerância. Tolerar o outro ainda pode significar apenas suportar sua existência. O desafio da educação democrática é maior. Precisamos construir uma cultura do reconhecimento da legitimidade e do respeito às diferenças, da igualdade de direitos e da convivência democrática.
A convivência democrática não nasce espontaneamente nem se limita ao ensino de conteúdos sobre cidadania ou direitos humanos. A democracia é construída no cotidiano da escola, nas relações entre estudantes, docentes, gestoras e gestores, coordenadoras e coordenadores pedagógicos, demais profissionais da escola, famílias e comunidade.

Para Nilma Gomes, a diversidade precisa estar no princípio ético, político e pedagógico da educação (Foto: Letícia Souza)
Isso acontece com a participação, na organização dos espaços e tempos, no currículo, nas formas de avaliação e nas práticas pedagógicas. Construir uma cultura democrática significa criar condições para que todos aprendam a dialogar, a participar das decisões coletivas, a resolver conflitos sem violência, a exercer a escuta e a reconhecer que todas as pessoas devem usufruir dos direitos assegurados por lei e, ao mesmo tempo, cumprir com deveres enquanto cidadãs e cidadãos na sociedade.
Quando ocorrem situações de discriminação, violência, humilhação ou desrespeito, por exemplo, não basta ignorá-las ou tratá-las como conflitos passageiros. Elas precisam ser enfrentadas pedagogicamente, por meio de processos educativos firmes que ajudam a compreender as consequências dos atos, refletir sobre eles, reparar danos e reafirmar os princípios que sustentam a convivência democrática.
A primeira condição para apoiar as educadoras e os educadores é compreender que a convivência democrática precisa integrar o próprio projeto político e educativo da escola e, por isso, deve constituir uma responsabilidade compartilhada entre gestoras, gestores, equipes pedagógicas, docentes, estudantes, famílias, redes de ensino e poder público.
A formação continuada, principalmente aquela realizada em serviço, precisa deixar de ser compreendida como um curso eventual ou uma atividade esporádica. Ela deve integrar a organização do trabalho pedagógico da escola, criando tempos e espaços permanentes de estudo, reflexão, troca de experiências e produção coletiva de conhecimentos entre os profissionais da educação.