NOTÍCIA
Embora tenha havido avanços com a Lei do Piso Nacional e o Fundeb, salários dos professores brasileiros seguem abaixo do necessário e carreiras se deterioram
Em seus 33 anos na educação, a professora mineira Patrícia Santana quase chegou a desistir, como viu muita gente fazer. Trabalhou toda a vida por períodos acima de 40 horas semanais, que considera uma carga demasiado pesada para quem vive o dia a dia da sala de aula. Mas foi em frente, tornou-se diretora, fez pesquisa, chegou ao mestrado e ao doutorado, sem poder se afastar do trabalho. Hoje, preocupa-se com a profissão que escolheu.
“Tenho amigos em muitos estados, e vejo que os professores vivem tempos muito difíceis, os salários não são compatíveis com a importância da profissão docente, falta reconhecimento, valorização, trabalhamos em condições cada vez mais hostis”, diz.
O relato de Patrícia retrata uma crescente precarização da profissão. Embora o tema do salário do professor tenha ganhado espaço nas agendas políticas, como a chamada Lei do Piso Nacional do Magistério, em 2008, e o novo Fundeb, em 2020, rapidamente esses avanços vêm mostrando sinais de esgotamento, com distorções que subvertem o sentido original das iniciativas — tão ao modo brasileiro.

“Os salários não são compatíveis com a importância da profissão docente”, critica a professora Patrícia Santana (Foto: Arquivo pessoal)
Por um lado, para muitos estados e municípios, o piso salarial se tornou teto. Ao mesmo tempo, as carreiras pouco atrativas diminuem o interesse e abrem espaço para a contratação de professores temporários, ou seja, sem concurso público e sem registro CLT.
É um contexto complexo, em que se misturam carreiras envelhecidas, emaranhados de leis, baixa qualidade da formação inicial, desvalorização social. Mas tudo pode ser bem resumido em uma palavra que todos conhecem: salário (na verdade, vencimento é o nome tecnicamente correto no funcionalismo público).
“Por mais que se reforce no nível do discurso a importância social da profissão docente, fica muito difícil para o professor se sentir valorizado quando não tem dinheiro nem para manter a própria família”, diz a pesquisadora Andreza Barbosa, doutora pela Unesp e professora da PUC de Campinas.
Para Andreza, que vem se dedicando a estudar as condições de trabalho dos docentes, as pesquisas mostram que os baixos salários, principalmente, e a flexibilização das formas de contratação são as principais causas da precarização do trabalho docente.
“Por mais que se discuta que dá para valorizar de outras formas, com publicidade, programas de benefícios e desconto em hotel, o que valoriza de fato é quanto o professor ganha”, diz.

Baixos salários e flexibilização das formas de contratação estão entre as causas da precarização do trabalho docente, pontua a pesquisadora Andreza Barbosa (Foto: Programa de Pós-Graduação em Educação/PUC-Campinas)
A pesquisadora não nega os avanços, mas observa que os problemas continuam. “O piso ajudou muito, mas é único para o país todo. Os estados com custo de vida mais alto e que já pagavam acima do piso acabam usando o piso como teto”, diz. Para ela, São Paulo é um caso típico. No estado, mesmo com a realização de um concurso público há pouco mais de um ano, mais de 50% dos professores são contratados de forma temporária.
Trata-se de um círculo vicioso, mostra a pesquisadora. “Como os salários são baixos, conseguimos atrair e reter menos professores, o que contribui para a contratação de temporários”, diagnostica. Isso se reflete na diminuição da procura pela docência e na evasão docente.
“Imagine o caso de um jovem que estude licenciatura em química. Quando termina, tem a oportunidade de ingressar no estado com salário bruto de R$ 5.500 reais inicial, o que fica em torno de R$ 4.000 líquidos. Como pode também ter a oportunidade de trabalhar numa indústria química ganhando mais que isso. E ele acaba indo para a indústria”, diz.
Para agravar o quadro, há uma grande desigualdade nacional, especialmente quando se comparam estados de maior e menor renda. As disparidades ficaram claras em um estudo recente do Movimento Profissão Docente, coordenado por Haroldo Rocha, ex-secretário da Educação do Espírito Santo. Comparando as remunerações iniciais dos professores, o estudo encontrou variações que vão de R$ 4.867,77 (no Paraná) a R$ 13.007,12 (no Mato Grosso do Sul).
Leia: STF corrige distorção histórica para professores temporários
São Paulo fica em 16º lugar, com R$ 5.565,00. Nos últimos lugares, praticamente empatados, estão Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A remuneração inicial média das carreiras do magistério das redes estaduais em 2025 foi de R$ 6.212,36. O piso nacional subiu para R$ 5.130,63, em 2026.

Haroldo Rocha, ex-secretário da Educação do ES, coordenou estudo sobre disparidades salariais entre estados (Foto: Arquivo pessoal)
Muitos estados poderão dizer: ‘ah, esse é apenas o salário, mas há as gratificações, prêmios e auxílios’. De fato, com esse acréscimo, a remuneração média sobe a R$ 6.599,46. Ocorre que boa parte das gratificações representam um clássico subterfúgio para não incorporar ao salário dos professores vantagens adicionais.
Além de distorcer o salário real efetivo, sobre o qual se pagam direitos trabalhistas, as gratificações produzem uma avalanche de precatórios (quando os funcionários vão buscar na justiça a incorporação das gratificações) e um emaranhado de leis. O estudo do Movimento Profissão Docente mapeou 180 tipos diferentes de gratificação.
Esse recurso traz muitas consequências indesejáveis para a atratividade da carreira, diz Haroldo Rocha. “Quando uma carreira tem salário inicial de R$ 5.100 e mais 15 a 20 gratificações distribuídas de forma irregular, a comunicação com os jovens professores é prejudicada, pois não sabem o que efetivamente recebem”, acredita.
Para o ex-secretário, é urgente fazer uma revisão profunda nas carreiras. Cada uma das 27 unidades federativas e dos 5.569 municípios possuem suas próprias legislações, quase todas com raízes no século passado. “Defendemos que as redes públicas de ensino façam um alinhamento das carreiras com as necessidades do século 21. As carreiras estão envelhecidas, ineficazes, confusas e complexas”, diz.
As carreiras atuais são resultado de uma complexa sobreposição de legislações e gratificações que tiram a transparência da remuneração do professor, impedindo que tenha uma visão do conjunto de sua progressão profissional. Do ponto de vista do planejamento orçamentário, as gratificações também dificultam as políticas públicas. “Quando os governos precisam fazer mudanças de carreira ou reajustes, é extremamente difícil projetar as consequências financeiras”, diz.
Para Rocha, a crescente carência de docentes está ligada à baixa remuneração inicial. Segundo explica, as carreiras públicas no Brasil tendem a beneficiar quem já está dentro há mais tempo. O resultado é ter professores próximos à aposentadoria com salário 150% maior do que o dos ingressantes. “A literatura internacional indica que, nas carreiras mais estruturadas, a amplitude entre o primeiro e o último nível fica entre 70% e 100%”, defende.
Além de olhar para a carreira, os governantes também precisam investir mais. O Brasil está na rabeira internacional quando o tema é salário. Um estudo ainda inédito do pesquisador Rubens Camargo, da Universidade de São Paulo, mostra como o Brasil ficou para trás.
Comparações internacionais são difíceis, em função de inúmeras variáveis que devem ser consideradas entre os países. Mas o estudo deixa claro que o salário de um professor brasileiro em início de carreira gira em torno da metade do recebido por um docente da Austrália, do México e dos Estados Unidos, bem como da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“Na Coreia do Sul, desde o ensino médio buscam-se interessados em educação. Em Portugal, professores ganham um pouco acima da média”, diz o pesquisador Rubens Camargo (Foto: Arquivo pessoal)
O trabalho mostra também que o pico salarial em diversos países acontece entre 10 e 15 anos de profissão — no Brasil, isso ocorre entre 25 e 35 anos. Segundo Camargo, muitos dos países pesquisados têm políticas claras de valorização da carreira dos professores.
“Na Coreia do Sul, por exemplo, desde o ensino médio buscam-se pessoas interessadas em educação. Em Portugal, os professores ganham um pouco acima da média do salário dos outros trabalhadores da mesma formação”, explica. “Aqui, a juventude vê a escola e percebe que não é simples, os salários são baixos, há greves; isso fica na cabeça dos jovens”, acredita.
Para o pesquisador, os salários no Brasil melhoraram onde antes se pagava menos que o piso, nos municípios mais ricos e com movimento sindical mais forte. Mais do que o piso, foi o Fundeb (e antes dele, o Fundef) que contribuiu para elevar a remuneração, ao determinar o percentual mínimo que deve ser destinado a salários.
“Era uma coisa indecente em vários lugares do Brasil: estados e municípios pagavam menos do que um salário mínimo para professor. Com a chegada do fundo, houve uma revolução na dinâmica”, explica.
Mas ainda há muito a avançar, especialmente para dar transparência e impedir manobras. “Uma carreira em São Paulo tem 8 colunas e 8 linhas. Em tese, o professor sairia da posição 1.1 para chegar à 8.8. Mas não chega. É raro alguém passar da posição 5; a maior parte se concentra nos primeiros níveis. Muitos passam mais de uma década como temporários”, exemplifica. Muitas vezes, também, governos anunciam aumentos quando apenas estão incorporando gratificações.
O Plano Nacional de Educação (PNE), recentemente aprovado, cita 29 vezes a palavra professor e traz como metas equiparar o rendimento com os profissionais de escolaridade equivalente, garantir planos de carreira para todos e reduzir a no máximo 30% o número de profissionais sem cargo efetivo nos próximos cinco anos.
Para isso, é preciso que União, estados e municípios invistam mais em educação, a exemplo do que ocorre em outros países. “Essa é a briga mais importante que temos na educação neste momento, na minha visão: ampliar os gastos com educação. Disso dependem todas as outras iniciativas, inclusive a da valorização dos professores”, acredita a pesquisadora Andreza.

A valorização das carreiras docentes é tão urgente que deveria ser fruto de um pacto nacional, considera o presidente do CNE, Cesar Callegari (Foto: Gustavo Morita/Revista Educação)
Caso contrário, a carreira docente se deteriorará cada vez mais, como avalia a educadora Maria Helena Raimundo, cuja trajetória reflete a vida de muitos docentes. Aos 17 anos, Maria Helena pensava em fazer Engenharia Civil, gostava de Matemática. Mas era um curso que exigia tempo integral e ela precisava trabalhar para se manter. Tornou-se historiadora. Hoje, 32 anos depois, ainda atua como professora de uma escola municipal, e também diretora na rede estadual mineira, com uma vida inteira dedicada à educação — carreira que ama, mas que também a desaponta.
“Cada vez mais, vejo o sucateamento da educação pública. Muitos professores enxergam a carreira docente como uma opção de sobrevivência, e não como um projeto de vida.” Acabam, assim, desmotivados e deixando aquela que é frequentemente apontada nos discursos como a profissão mais importante do mundo.
Para o presidente do Conselho Nacional de Educação, Cesar Callegari, o tema da valorização das carreiras docentes é tão urgente que deveria ser fruto de um pacto nacional. Na sua visão, a precarização do trabalho docente não é apenas uma circunstância, mas, em alguns sentidos, uma oportunidade de negócio para iniciativas privadas, como plataformas de ensino. Para Callegari, os gestores precisam parar de ver os professores como um problema, e entender que esses são o que chama de um patrimônio valioso.
“Temos mais de 2 milhões de docentes, e só avançaremos na educação com eles e por eles”, finaliza.