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José Pacheco

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

Publicado em 02/01/2026

Renascentismo e a utopia do Sul

No período renascentista, utopia era quase sinônimo de protesto

Brasília, 23 de novembro de 2025 | Há mais de 100 anos, Eurípedes Barsanulfo contratou professores negros para a sua escola. Imaginai a reação dos coronéis locais. A gripe espanhola o vitimou e a sua obra entrou em declínio, se dissipou. Mas, mesmo que Eurípedes não tivesse desencarnado, o ‘racismo’ dos fundamentalistas da época teria acabado por destruir o seu projeto. 

Em 1907, Eurípedes antecipava, em mais de 100 anos, os movimentos antirracistas do século 21. Ele sabia que o racismo ensinado na família, na sociedade e na escola, também se pode desaprender na família, na sociedade e na escola.

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No período renascentista, utopia era quase sinônimo de protesto e no século 19, as percursoras tentativas de Fourier e Owen visaram passar ao real o ideal de More ou de Campanella. 

Importará reconhecer que, se Thomas More escreveu a sua Utopia baseado num opúsculo de Américo Vespucio, talvez seja necessário suliar a busca de novas utopias. Foi no Sul que Vespucio encontrou um mundo onde ‘todas as coisas eram comuns’, onde ‘cada pessoa era dona de si própria’. 

Foi no Sul que o navegador deparou com a concretização da utopia de não haver ricos nem pobres, uma sociedade mais humanizada do que a europeia. 

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A América viu concretizar-se a primeira experiência utópica renascentista. Em 1530, Vasco de Quiroga, juiz e bispo de Nova Espanha, fundou um colégio conservando as línguas autóctones e proibiu a escravidão dos indígenas. Depois, no hiato de cinco séculos, houve um desvio de rota… 

Quando quis celebrar os feitos do Gama, Camões partiu dos relatos de Caminha e achou no Sul a sua ‘Ilha dos Amores’ — suliou o canto IX, ainda que o norteasse no estilo. O épico antecipou em quatro séculos a utopia de Agostinho, também ele navegante do Sul. 

utopia

Sempre me consideraram como uma espécie de aprendiz de utopias. O certo é que partirei deste mundo tão utópico quanto pude ser (Foto: Shutterstock)

História dos vencedores

‘Utopia’ deixou de ser somente um vocábulo criado a partir do grego ‘lugar inexistente’. O Agostinho cultor de Vieira demonstrou ser viável no Brasil a profecia de Thomas More. Aliás, tratar-se-ia apenas de recuperar o viver fraterno, igualitário, que caracterizava este território, antes da chegada dos europeus. 

Os jesuítas fundaram a comunidade dos Sete Povos das Missões. Com heróis, como Sepé Tiaraju, organizaram as comunidades indígenas, protegendo-as da escravatura e da extinção. 

A sanha assassina que se abateu sobre as Missões repetir-se-ia na destruição de Canudos. Esses exemplos, tão maltratados pelos historiadores que fizeram a história dos vencedores, constituíram dramáticos prenúncios do retorno da utopia às terras do Sul, cujos povos inspiraram os falanstérios, os albigenses e cátaros, a Icária e a Nova Harmonia.

Sempre me consideraram como uma espécie de aprendiz de utopias. O certo é que partirei deste mundo tão utópico quanto pude ser. E tão ou mais utópico do que quando ajudei uma comunidade a concretizar a utopia de a todos garantir o direito à educação. 

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Isto é: em 76, uma escolinha do Norte de Portugal colocou o aluno no centro do processo de aprendizagem, pôs em práxis os princípios da Escola Nova de Dewey, os princípios da Escola Cidadã de Anísio, os princípios da educação integral de Darcy, a inclusão escolar e social dos seus alunos. 

Nos idos de 60, a sociologia da educação já havia demonstrado que a chamada ‘escola tradicional’ — a da sala de aula, da turma e do semestre — reproduzia um modelo escolar e social impregnado de valores arcaicos. Direta ou indiretamente, as práticas decorrentes dessa matriz axiológica contribuíam para a perenização do racismo, da exclusão, da barbárie instituída.  

PS.: Não vos esqueçais de elaborar a linha de base da qualidade da educação do vosso município.

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